quarta-feira, junho 16, 2010
A 1ª de muitas - Londres
Tal como prometido aqui ficam algumas fotos da 1ª viagem M&M
Venham as próximas!
segunda-feira, junho 14, 2010
London City
A frase deste Fim-de-Semana Prolongado foi:
"Aí que Felicidade!"
E não é que foi mesmo verdade :)!
(notícias e imagens da viagem em breve)
La Citá Eterna
Last Snapshots of NYC
Com estas últimas imagens, encerro esta fantástica e inesquecível viagem ...
O fabuloso Rockfeller Center

A incomparável vista Top of the Rock

Vista Áerea - Top of the Rock

St. Patricks Cathedral na 5th Avenue: um toque de espiritualidade na ''concrete jungle''

MoMa

Um bocadinho de nós na Big Apple com os nossos artigos de design na Loja do MoMa

Ficam muitas imagens, muitas recordações ficam e duas certezas: a 1ª. é a de que havemos de lá voltar e a 2ª é a certeza de que são destas boas experiências que devemos tentar preencher a nossa vida!!
O fabuloso Rockfeller Center

A incomparável vista Top of the Rock

Vista Áerea - Top of the Rock

St. Patricks Cathedral na 5th Avenue: um toque de espiritualidade na ''concrete jungle''

MoMa

Um bocadinho de nós na Big Apple com os nossos artigos de design na Loja do MoMa

Ficam muitas imagens, muitas recordações ficam e duas certezas: a 1ª. é a de que havemos de lá voltar e a 2ª é a certeza de que são destas boas experiências que devemos tentar preencher a nossa vida!!
terça-feira, junho 08, 2010
Flashbacks of NYC
segunda-feira, junho 07, 2010
Amar
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade
Amemos.
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina.Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade
Amemos.
quarta-feira, junho 02, 2010
Phantom of the Opera
Alma deriva do latim Anima. -.
E nós somos isso mesmo, uma alma viva que anima temporariamente um corpo.
O corpo, a matéria, perece, é finita, desgasta-se.
A alma, essa, liberta da matéria, continua acesa, viva! Eleva-se, anima-se e segue o caminho da luz.
Acredito na continuidade da alma, na sua vida para além desta dimensão palpável.
Como um navio que, da costa, vemos partindo progressivamente. Custa-nos vê-lo partir, desaparecer no horizonte.Vamos sentir a sua falta.
Gosto de pensar que, do outro lado do horizonte, existe uma outra costa e que desse lado, esperam o navio que se aproxima.
Chamem-lhe Céu, ponham-lhe o rótulo que quiserem. Acredito que é um sítio belo, pacífico, repleto de coisas boas.
E no meio disto tudo, é bom saber que continuamos a poder falar ainda que não nos respondas, que escutas e recordas connosco a música do espectáculo mais belo a que já assisti.
Porque a memória é um tesouro...
Até qualquer dia ...
sábado, maio 29, 2010
Naquele final de tarde, em que estavamos completamente cansados e com os pés e pernas doridas de tanto caminhar, sentamos-nos todos nas escadas da St. Patrick's Cathedral.
Entramos na Igreja e assistimos à missa. Ali escutamos, ali rezamos. Ali, em silêncio partilhado conversamos com Deus.
Aquando da comunhão, lembro-me de ele ter hesitado. Disse-me que não ia comungar, que não se confessava há muito. Sorri e disse-lhe: Anda Tiago, que só a Deus te deves confessar e acredita que a ti Ele perdoa tudo.
Ele sorriu e foi comungar.
O mesmo Deus que esta madrugada, sabe-se lá porquê, decidiu que a vida do nosso companheiro de viagem e de vida, o Tiago, terminava de forma incompreensível e prematura.
Da mesma forma que ele naquele dia confiou na infinita bondade de Deus, eu preciso e quero acreditar que esta vida não é tão injusta ... Neste momento, está-me a custar tanto!!!
Preciso e quero acreditar que tu, nosso AMIGO querido, não sofreste na tua hora de partida ...
Preciso e quero acreditar que a dor que hoje vi no rosto da tua família há-de encontrar algures algo que a atenue e apazigue, porque a morte de um filho não é normal, é uma brutalidade, uma monstruosidade!!
A única certeza que temos é que carregaremos hoje e sempre nas nossas vidas as memórias de todos os momentos que partilhamos e guardaremos com muito carinho o teu exemplo de vida.
Muito Obrigada pela tua Amizade. Foi um prazer e um orgulho termos sido teus amigos.
Estejas onde estiveres, recebe o nosso Abraço infinito e eterno.
(Nunca me esquecerei de foste tu quem me explicou a história do Phantom of the Opera ...)
Entramos na Igreja e assistimos à missa. Ali escutamos, ali rezamos. Ali, em silêncio partilhado conversamos com Deus.
Aquando da comunhão, lembro-me de ele ter hesitado. Disse-me que não ia comungar, que não se confessava há muito. Sorri e disse-lhe: Anda Tiago, que só a Deus te deves confessar e acredita que a ti Ele perdoa tudo.
Ele sorriu e foi comungar.
O mesmo Deus que esta madrugada, sabe-se lá porquê, decidiu que a vida do nosso companheiro de viagem e de vida, o Tiago, terminava de forma incompreensível e prematura.
Da mesma forma que ele naquele dia confiou na infinita bondade de Deus, eu preciso e quero acreditar que esta vida não é tão injusta ... Neste momento, está-me a custar tanto!!!
Preciso e quero acreditar que tu, nosso AMIGO querido, não sofreste na tua hora de partida ...
Preciso e quero acreditar que a dor que hoje vi no rosto da tua família há-de encontrar algures algo que a atenue e apazigue, porque a morte de um filho não é normal, é uma brutalidade, uma monstruosidade!!
A única certeza que temos é que carregaremos hoje e sempre nas nossas vidas as memórias de todos os momentos que partilhamos e guardaremos com muito carinho o teu exemplo de vida.
Muito Obrigada pela tua Amizade. Foi um prazer e um orgulho termos sido teus amigos.
Estejas onde estiveres, recebe o nosso Abraço infinito e eterno.
(Nunca me esquecerei de foste tu quem me explicou a história do Phantom of the Opera ...)
sexta-feira, maio 28, 2010
Day One
Abrir os olhos após um sono profundo e constatar que se está em NY City é como se alguém se tivesse virado para nós e nos desse a notícia: «Acabaram de ganhar o Euromilhões!» de tanta felicidade que se sente!
A novidade e a ansiedade de partir à descoberta são os melhores estimulantes que existem, porque não foi preciso qualquer despertador e, ainda que tivéssemos dormido escassas horas , estávamos frescos que nem alfaces!
Apesar do ponto de encontro no pequeno-almoço estar combinado para as oito e meia da manhã, fizemos questão de acordar mais de uma hora antes para desfrutar tudo aquilo que aqueles escassos metros quadrados de quarto poderiam oferecer. A este momento, um sorrisinho maroto desenha-se provavelmente nas vossas caras. Pois bem, nas nossas caras esse sorriso era rasgado e super feliz!
Abrir as grossas cortinas e deixar entrar a luz pelo quarto adentro, olhar em frente e espreitar para cada janelinha dos prédios em frente e deixar-me ali estar como voyeur por uns instantes a imaginar o dia-a-dia daqueles anónimos, era fabuloso.
Enquanto tomávamos um duche, escutávamos as notícias na televisão: relatavam o estado caótico dos aeroportos europeus e falavam no caso português, com todos os voos cancelados.
Tinha sido mesmo por um triz! No dia anterior, percebêramos que as coisas estavam a complicar-se e que a nuvem de cinzas estava a ameaçar deixar muita gente em terra.
A sorte estivera connosco, havia que admitir e, por isso, era bem que aproveitássemos ao máximo!
Ao descer para o pequeno-almoço, o elevador foi parando em vários andares e é curioso que, se cá não existe um comportamento uniforme de cumprimentar as pessoas quando se entra ou sai de um elevador, lá verifiquei que não só se saúdam as pessoas como se começam animadas conversas matinais:
«Hi! Going downstairs?» - uma simpática velhinha pergunta, enquanto entra no elevador acompanhada de mais quatro amigas.
«Yes, we are» - respondemos e calamo-nos, caladinhos como se faz cá na nossa terrinha.
«Oh, your shirt is lovely!» - diz-me ela na maior das naturalidades.
«Oh … actually is a dress …» - respondo eu, contorcendo-me logo a seguir pela resposta estúpida que acabara de dar face a um comentário tão simpático.
É outro hábito da nossa terrinha: não estamos habituados nem a conversas de elevador com desconhecidos, nem a elogios rasgados e espontâneos.
Ela pareceu não se importar muito e continuou a falar comigo: «Well, it’s very nice. It looks very comfortable »
«Thank you, I like it too». – respondi.
Entretanto, não houve tempo para maior confraternização, porque chegáramos à sala de pequenos-almoços.
E que sala! Frutas frescas laminadas e variadas entravam em grandes travessas, havia copos de plástico com a tampinha ‘’à Starbucks’’ para podermos servir-nos de café e leite. A variedade de pães e muffins era enorme e havia ainda os típicos croissants e cereais de pequeno-almoço.
Mas, o que fazia as nossas delícias matinais eram mesmo os iogurtes com cereais e fruta à mistura. Chegavam em copinhos de plástico transparente, fechados e, assim que a funcionária os colocava na mesa comprida era ver toda a gente das mesas em redor a levantar-se e a, de forma elegante mas apressada, tentar agarrar dois ou três daqueles iogurtes deliciosos!
De pequeno-almoço tomado e já cá fora, tempo de marchar até ao Museu de História Natural. Nas ruas via-se pouca gente. Era cedo, era domingo e de certeza que muita gente se estaria ainda a deitar depois da farra nocturna. O frio era cortante, pelo que o casaco andava sempre com as golas levantadas. Rapidamente, o batom de cieiro tornou-se no nosso melhor amigo. As ruas são, ao contrário do que imaginava, muito largas pelo que os arranha-céus não parecem tão ameaçadores, nem impedem que a luz do sol apareça.
Para chegarmos até ao Museu, tínhamos que apanhar o Metro. Se a Nova Iorque à superfície é bonita e moderna, no sub-solo a coisa perde completamente o glamour. A estação era velha, com as entranhas à mostra: tubagens velhas e apodrecidas, ferrugem e pinturas a estalar em todo o lado. As bilheteiras parecem autênticas casas fortes. Do outro lado de um vidro espesso está uma pessoa que nos fala por um intercomunicador. Dois pensamentos imediatos: isto deve ser perigoso e daí a fortaleza e, logo depois, um dia ou noite inteiros enfiado naquele cubículo subterrâneo, benza Deus!
Entender o mapa do metro e todo o emaranhado de ligações não é fácil. Não é tão intuitivo e imediato como, por exemplo, o Tube londrino.
A caminho do museu não pudemos deixar de nos rir com o apelativo cartaz colado no interior.
A acompanhar a imagem de uma família sorridente – pai, mãe e filha abraçados – com um táxi amarelo por detrás, aparecia o slogan: «Come to Manhattan and have a great life parking cars! e, mesmo ao lado, a respectiva tradução hispânica. E, por baixo enunciava as regalias associadas. Não só um salário, como gorjetas, prémios mensais e seguros.
-Olha, o Rui Rio ainda não sabe disto de certeza que ele ia ter logo o problema dos arrumadores resolvido! Recambiava-os logo para cá! – não pudemos deixar de comentar e sorrir com aquilo.
Chegados ao Museu de História Natural, compramos facilmente os bilhetes e acedemos, em conjunto com várias famílias e muitos pequeninos, a um Mundo fantástico em que a origem das espécies e da vida nos vai sendo relatada de forma imponente. Desde a formação das galáxias, até às espécies animais e vegetais e povos de todo o Mundo, tudo está lá para ver em e, muitas vezes, à escala real. É impossível relatar tudo o que se vê num Museu, porque há muita coisa que a retina não consegue apanhar, ora porque o tempo não permite, ou porque o interesse nos foge para outra direcção. Mas posso dizer que imperdível é a sala onde está representado o homem primitivo, desde a sua origem e evolução através dos primeiros tempos e que outro grande momento é passado na famosa Sala que alberga as ossadas dos grandes dinossauros. Para quem viu o filme ‘’Uma noite no Museu’’ esta Sala é a mais familiar. Para além da grandiosidade dos dinossauros, é impossível deixar de ficar fascinado com as citações inscritas nas paredes, todas elas proferidas pelo Presidente Roosevelt. Fotografei quase todas mas estas foram as minhas favoritas:
«Youth: I want to see you game, boys, I want to see you brave and manly, and I also want to see you gentle and tender. Be practical as well as generous in your ideals. Keep your eyes on the stars and keep your feet on the ground. Courage, hard work, self-mastery, and intelligent effort are all essential to successful life. Character, in the long run, is the decisive factor in the life of an individual and of nations alike.». É incrível como as palavras são tão actuais! Até ao final do dia, aquela frase bailava na minha mente: Keep your eyes on the stars and keep your feet on the ground.
À saida, ficamos com a sensação de que o Museu é fantástico e que, para qualquer criança, é uma excelente e gigantesca sala de aula! No entanto, há salas em que já não valorizamos tanto porque já tivemos oportunidade de ver as coisas em carne e osso, como é a da selva. É nesses momentos que nos lembramos e somos relembrados, maliciosamente pelos nossos companheiros de viagem, das nossas aventuras e desventuras passadas há quase dois anos no dorso de um elefante!
Tempo de seguir para o Metropolitam Museum of Art ou, simplesmente, Met. A entrada é logo majestosa, com uma enorme escadaria. Muita gente a subir e a descer fizeram-nos desconfiar que comprar bilhetes seria uma tarefa difícil mas não! Visitar o Met é um desafio longo, porque tudo tem interesse! Para além disso, é também uma grande caminhada! No entanto, o que ficou retido como algo imprescindível são as salas egípcias que tem um recorte de uma pirâmide em que vale a pena entrar para ver as fabulosas pinturas. Fantásticos são também os sarcófagos e toda a arte egípcia que nos deixa boquiabertos perante a sua minúcia e beleza. A área dedicada à Grécia é também avassaladora, mais uma vez com representações fantásticas e in loco da arquitectura e estatuária gregas.
Em cada sala e corredor vai nos sendo contada um pouco da História da Arte de todos os povos (grego, egípcio, islâmico, africano, americano, asiático, medieval, …) até aos nossos dias, embora a Arte Contemporânea em todo o seu esplendor estive reservada para ver no MoMa (Museum of Modern Art). Há salas maravilhosas e os quadros dos grandes nomes estavam lá. Curiosamente, Picasso estava em destaque quer no Met quer no MoMa. Entre os dois Museus, é difícil de escolher um preferido. O MoMa foi uma experiência mais familiar, porque a colecçção é muito semelhante à que se vê na Tate Modern e o espanto da novidade já tinha sido experienciado lá. Porém, a modernidade de um acaba por ser tão fascinante como a antiguidade do que o outro expõe, por assim dizer. E perder uma visita a estes dois Museus é deixar riqueza fugir entre os dedos. É cansativo? É, sobretudo para as pernas e pés. Mas vale cada bolhinha do pé!
E depois de alimentada a mente, tempo para alimentar o corpinho! A escolha do local foi ao acaso. Foi, no entanto, muito feliz, porque acabamos por escolher uma simpática pizzaria perto da Madison Avenue (uma zona residencial abastada e muito recatada de Manhattan). Muito ao estilo de um Al Forno de cá, as pizzas e calzones são feitas à frente do Cliente e a carta é, para quem é amante como nós da cozinha italiana, uma verdadeira tentação!
Entre conversas, risos, pizza, amor e alguma fantasia lá recuperamos energias e partimos em direcção ao Central Park!
Entrar no Central Park é entrar noutra dimensão. É chegar e assistir a uma explosão de verde! Os jardins são gigantescos e muito bem tratados. Havia imensa gente a jogar softball, a namorar, a fazer jogging (como eu imaginava!), a passear (como nós) ou nas esplanadas. É engraçado ver os esquilos a correrem frenéticos de um lado para o outro em busca da sua bolota. Como fazia frio, alguns tinham-se lembrado (e bem!) de levar a bela da mantinha de casa e estavam enroscadinhos e quentes a escutar a grande banda que espalhava música naquele ambiente de pura tranquilidade. No bom tempo, fazer um pic nic no Central Park deve ser uma experiência imperdível mas contentamo-nos em apenas passear. As famosíssimas pontes pedonais logo surgem e lembram-nos logo cenas de filmes como o Home Alone ou outros. Mais uma vez, a imagem era familiar. Passamos por um enorme lago onde boiavam pequenos veleiros controlados à distância por pessoas que estavam na esplanada. Continuávamos a caminhar quando nos apercebemos de um grupo de pessoas vestidos com um estilo rap a chamar as pessoas para se juntarem a eles. No chão, estava um rádio leitor de cassetes daqueles antigos que passava Michael Jackson. Chamavam-nos porque o espectáculo ia começar e pediam-nos que nos sentássemos a assistir. Curiosos, fizemos a vontade e valeu a pena tê-lo feito. À nossa frente, um grupo de seis adultos e um miúdo dançaram até se fartar e foram fenomenais. Iam interagindo com o público e dizendo piadas. Tudo com uma qualidade que nos deixou incrédulos. No final, pagamos o que quisemos. Foi mais que justo! Aplaudimos com vontade!
Já a caminhar de regresso ao Hotel, para descansar um pouco e preparar-nos para Jantar, fizemos o balanço de um dia cheio de imagens e sensações. Um dia já tinha passado e depressa e isso dava ainda mais vontade de aproveitar cada bocadinho, antes que o sonho terminasse!
A novidade e a ansiedade de partir à descoberta são os melhores estimulantes que existem, porque não foi preciso qualquer despertador e, ainda que tivéssemos dormido escassas horas , estávamos frescos que nem alfaces!
Apesar do ponto de encontro no pequeno-almoço estar combinado para as oito e meia da manhã, fizemos questão de acordar mais de uma hora antes para desfrutar tudo aquilo que aqueles escassos metros quadrados de quarto poderiam oferecer. A este momento, um sorrisinho maroto desenha-se provavelmente nas vossas caras. Pois bem, nas nossas caras esse sorriso era rasgado e super feliz!
Abrir as grossas cortinas e deixar entrar a luz pelo quarto adentro, olhar em frente e espreitar para cada janelinha dos prédios em frente e deixar-me ali estar como voyeur por uns instantes a imaginar o dia-a-dia daqueles anónimos, era fabuloso.
Enquanto tomávamos um duche, escutávamos as notícias na televisão: relatavam o estado caótico dos aeroportos europeus e falavam no caso português, com todos os voos cancelados.
Tinha sido mesmo por um triz! No dia anterior, percebêramos que as coisas estavam a complicar-se e que a nuvem de cinzas estava a ameaçar deixar muita gente em terra.
A sorte estivera connosco, havia que admitir e, por isso, era bem que aproveitássemos ao máximo!
Ao descer para o pequeno-almoço, o elevador foi parando em vários andares e é curioso que, se cá não existe um comportamento uniforme de cumprimentar as pessoas quando se entra ou sai de um elevador, lá verifiquei que não só se saúdam as pessoas como se começam animadas conversas matinais:
«Hi! Going downstairs?» - uma simpática velhinha pergunta, enquanto entra no elevador acompanhada de mais quatro amigas.
«Yes, we are» - respondemos e calamo-nos, caladinhos como se faz cá na nossa terrinha.
«Oh, your shirt is lovely!» - diz-me ela na maior das naturalidades.
«Oh … actually is a dress …» - respondo eu, contorcendo-me logo a seguir pela resposta estúpida que acabara de dar face a um comentário tão simpático.
É outro hábito da nossa terrinha: não estamos habituados nem a conversas de elevador com desconhecidos, nem a elogios rasgados e espontâneos.
Ela pareceu não se importar muito e continuou a falar comigo: «Well, it’s very nice. It looks very comfortable »
«Thank you, I like it too». – respondi.
Entretanto, não houve tempo para maior confraternização, porque chegáramos à sala de pequenos-almoços.
E que sala! Frutas frescas laminadas e variadas entravam em grandes travessas, havia copos de plástico com a tampinha ‘’à Starbucks’’ para podermos servir-nos de café e leite. A variedade de pães e muffins era enorme e havia ainda os típicos croissants e cereais de pequeno-almoço.
Mas, o que fazia as nossas delícias matinais eram mesmo os iogurtes com cereais e fruta à mistura. Chegavam em copinhos de plástico transparente, fechados e, assim que a funcionária os colocava na mesa comprida era ver toda a gente das mesas em redor a levantar-se e a, de forma elegante mas apressada, tentar agarrar dois ou três daqueles iogurtes deliciosos!
De pequeno-almoço tomado e já cá fora, tempo de marchar até ao Museu de História Natural. Nas ruas via-se pouca gente. Era cedo, era domingo e de certeza que muita gente se estaria ainda a deitar depois da farra nocturna. O frio era cortante, pelo que o casaco andava sempre com as golas levantadas. Rapidamente, o batom de cieiro tornou-se no nosso melhor amigo. As ruas são, ao contrário do que imaginava, muito largas pelo que os arranha-céus não parecem tão ameaçadores, nem impedem que a luz do sol apareça.
Para chegarmos até ao Museu, tínhamos que apanhar o Metro. Se a Nova Iorque à superfície é bonita e moderna, no sub-solo a coisa perde completamente o glamour. A estação era velha, com as entranhas à mostra: tubagens velhas e apodrecidas, ferrugem e pinturas a estalar em todo o lado. As bilheteiras parecem autênticas casas fortes. Do outro lado de um vidro espesso está uma pessoa que nos fala por um intercomunicador. Dois pensamentos imediatos: isto deve ser perigoso e daí a fortaleza e, logo depois, um dia ou noite inteiros enfiado naquele cubículo subterrâneo, benza Deus!
Entender o mapa do metro e todo o emaranhado de ligações não é fácil. Não é tão intuitivo e imediato como, por exemplo, o Tube londrino.
A caminho do museu não pudemos deixar de nos rir com o apelativo cartaz colado no interior.
A acompanhar a imagem de uma família sorridente – pai, mãe e filha abraçados – com um táxi amarelo por detrás, aparecia o slogan: «Come to Manhattan and have a great life parking cars! e, mesmo ao lado, a respectiva tradução hispânica. E, por baixo enunciava as regalias associadas. Não só um salário, como gorjetas, prémios mensais e seguros.
-Olha, o Rui Rio ainda não sabe disto de certeza que ele ia ter logo o problema dos arrumadores resolvido! Recambiava-os logo para cá! – não pudemos deixar de comentar e sorrir com aquilo.
Chegados ao Museu de História Natural, compramos facilmente os bilhetes e acedemos, em conjunto com várias famílias e muitos pequeninos, a um Mundo fantástico em que a origem das espécies e da vida nos vai sendo relatada de forma imponente. Desde a formação das galáxias, até às espécies animais e vegetais e povos de todo o Mundo, tudo está lá para ver em e, muitas vezes, à escala real. É impossível relatar tudo o que se vê num Museu, porque há muita coisa que a retina não consegue apanhar, ora porque o tempo não permite, ou porque o interesse nos foge para outra direcção. Mas posso dizer que imperdível é a sala onde está representado o homem primitivo, desde a sua origem e evolução através dos primeiros tempos e que outro grande momento é passado na famosa Sala que alberga as ossadas dos grandes dinossauros. Para quem viu o filme ‘’Uma noite no Museu’’ esta Sala é a mais familiar. Para além da grandiosidade dos dinossauros, é impossível deixar de ficar fascinado com as citações inscritas nas paredes, todas elas proferidas pelo Presidente Roosevelt. Fotografei quase todas mas estas foram as minhas favoritas:
«Youth: I want to see you game, boys, I want to see you brave and manly, and I also want to see you gentle and tender. Be practical as well as generous in your ideals. Keep your eyes on the stars and keep your feet on the ground. Courage, hard work, self-mastery, and intelligent effort are all essential to successful life. Character, in the long run, is the decisive factor in the life of an individual and of nations alike.». É incrível como as palavras são tão actuais! Até ao final do dia, aquela frase bailava na minha mente: Keep your eyes on the stars and keep your feet on the ground.
À saida, ficamos com a sensação de que o Museu é fantástico e que, para qualquer criança, é uma excelente e gigantesca sala de aula! No entanto, há salas em que já não valorizamos tanto porque já tivemos oportunidade de ver as coisas em carne e osso, como é a da selva. É nesses momentos que nos lembramos e somos relembrados, maliciosamente pelos nossos companheiros de viagem, das nossas aventuras e desventuras passadas há quase dois anos no dorso de um elefante!
Tempo de seguir para o Metropolitam Museum of Art ou, simplesmente, Met. A entrada é logo majestosa, com uma enorme escadaria. Muita gente a subir e a descer fizeram-nos desconfiar que comprar bilhetes seria uma tarefa difícil mas não! Visitar o Met é um desafio longo, porque tudo tem interesse! Para além disso, é também uma grande caminhada! No entanto, o que ficou retido como algo imprescindível são as salas egípcias que tem um recorte de uma pirâmide em que vale a pena entrar para ver as fabulosas pinturas. Fantásticos são também os sarcófagos e toda a arte egípcia que nos deixa boquiabertos perante a sua minúcia e beleza. A área dedicada à Grécia é também avassaladora, mais uma vez com representações fantásticas e in loco da arquitectura e estatuária gregas.
Em cada sala e corredor vai nos sendo contada um pouco da História da Arte de todos os povos (grego, egípcio, islâmico, africano, americano, asiático, medieval, …) até aos nossos dias, embora a Arte Contemporânea em todo o seu esplendor estive reservada para ver no MoMa (Museum of Modern Art). Há salas maravilhosas e os quadros dos grandes nomes estavam lá. Curiosamente, Picasso estava em destaque quer no Met quer no MoMa. Entre os dois Museus, é difícil de escolher um preferido. O MoMa foi uma experiência mais familiar, porque a colecçção é muito semelhante à que se vê na Tate Modern e o espanto da novidade já tinha sido experienciado lá. Porém, a modernidade de um acaba por ser tão fascinante como a antiguidade do que o outro expõe, por assim dizer. E perder uma visita a estes dois Museus é deixar riqueza fugir entre os dedos. É cansativo? É, sobretudo para as pernas e pés. Mas vale cada bolhinha do pé!
E depois de alimentada a mente, tempo para alimentar o corpinho! A escolha do local foi ao acaso. Foi, no entanto, muito feliz, porque acabamos por escolher uma simpática pizzaria perto da Madison Avenue (uma zona residencial abastada e muito recatada de Manhattan). Muito ao estilo de um Al Forno de cá, as pizzas e calzones são feitas à frente do Cliente e a carta é, para quem é amante como nós da cozinha italiana, uma verdadeira tentação!
Entre conversas, risos, pizza, amor e alguma fantasia lá recuperamos energias e partimos em direcção ao Central Park!
Entrar no Central Park é entrar noutra dimensão. É chegar e assistir a uma explosão de verde! Os jardins são gigantescos e muito bem tratados. Havia imensa gente a jogar softball, a namorar, a fazer jogging (como eu imaginava!), a passear (como nós) ou nas esplanadas. É engraçado ver os esquilos a correrem frenéticos de um lado para o outro em busca da sua bolota. Como fazia frio, alguns tinham-se lembrado (e bem!) de levar a bela da mantinha de casa e estavam enroscadinhos e quentes a escutar a grande banda que espalhava música naquele ambiente de pura tranquilidade. No bom tempo, fazer um pic nic no Central Park deve ser uma experiência imperdível mas contentamo-nos em apenas passear. As famosíssimas pontes pedonais logo surgem e lembram-nos logo cenas de filmes como o Home Alone ou outros. Mais uma vez, a imagem era familiar. Passamos por um enorme lago onde boiavam pequenos veleiros controlados à distância por pessoas que estavam na esplanada. Continuávamos a caminhar quando nos apercebemos de um grupo de pessoas vestidos com um estilo rap a chamar as pessoas para se juntarem a eles. No chão, estava um rádio leitor de cassetes daqueles antigos que passava Michael Jackson. Chamavam-nos porque o espectáculo ia começar e pediam-nos que nos sentássemos a assistir. Curiosos, fizemos a vontade e valeu a pena tê-lo feito. À nossa frente, um grupo de seis adultos e um miúdo dançaram até se fartar e foram fenomenais. Iam interagindo com o público e dizendo piadas. Tudo com uma qualidade que nos deixou incrédulos. No final, pagamos o que quisemos. Foi mais que justo! Aplaudimos com vontade!
Já a caminhar de regresso ao Hotel, para descansar um pouco e preparar-nos para Jantar, fizemos o balanço de um dia cheio de imagens e sensações. Um dia já tinha passado e depressa e isso dava ainda mais vontade de aproveitar cada bocadinho, antes que o sonho terminasse!
quarta-feira, maio 26, 2010
Untitled
"May today there be peace within. May you trust that you are exactly where you are meant to be. May you not forget the infinite possibilities that are born of faith in yourself and others. May you use the gifts that you have received, and pass on the love that has been given to you. May you be content with yourself just the way you
are. Let this knowledge settle into your bones, and allow your soul the freedom to sing, dance, praise and love. It is there for each and every one of us.", by unknown.
are. Let this knowledge settle into your bones, and allow your soul the freedom to sing, dance, praise and love. It is there for each and every one of us.", by unknown.
sexta-feira, maio 21, 2010
What’s up NYC?
O primeiro contacto que se tem com o povo americano é logo de uma grande intimidade. Um tu-cá-tu-lá que permite aquele à vontade que nos leva a ficar descalços e despirmos alguma roupa. Como recordação deste nosso primeiro contacto até deixamos de boa vontade uma fotografia nossa de rosto e, como bónus, a nossa impressão digital. Falo, claro está, do ponto de controlo do aeroporto.
O tratamento informal é, desde logo, um convite a este à vontade: ‘’Where are you guys from?’’ – questiona o super cool funcionário, enquanto observa com espanto um dos passaportes que tem selos de sítios tão remotos como o Nepal, Moçambique, Angola, Brasil, entre outros.
‘’From Portugal’’ – respondemos, num misto de cansaço e euforia.
Porém o cansaço fica barrado na alfândega, ele não tem visto de entrada em Nova Iorque, pelo que a primeira lufada de ar fresco que se apanha à saída do aeroporto serve perfeitamente como fonte de energia! Há uma fila de pessoas para apanhar um táxi e temos que nos juntar a elas. A organizar a fila e a coordenar os táxis com as pessoas encontramos um indivíduo alto, negro com um tom de voz que eu juraria, se não lhe tivesse visto o rosto, pertencer ao James Earl Jones!
Decidido a despachar o máximo de pessoas no mínimo tempo possível, percebemos de imediato que com o our pal Mr. ‘’Jones’’ não ficaríamos na fila por muito tempo.
E assim foi … Num abrir e fechar de olhos, estávamos a caminho do hotel. As indicações de morada têm que ser precisas, nomeadamente o cruzamento exacto do número da Rua com o da Avenida. É que, por um lado, a cidade é gigantesca demais para apenas se poder dizer o nome da Rua ou do Hotel e esperar que o taxista conheça ( a menos que se fique no Plaza ou no Waldorf Astoria, claro).
E, por outro, quase todos os taxistas – como constatamos mais tarde – necessitavam eles mesmo de orientações, porque pareciam conhecer a cidade tanto quanto nós. A grande maioria é emigrantes a quem puseram um volante numa mão e um ‘’desenrasca-te’’ na outra. E eles safam-se como podem… E às vezes são mal-educados e noutras tentam levar dinheiro a mais, argumentando que a ‘’Tip’’ é extra.
Por isso mesmo, a primeira frase a trocar quando nos cruzamos com um taxista no nosso caminho é: ‘’Put the metter on please’’.
Chegar à noite tem uma mística muito maior do que se fosse ainda de dia, porque as luzes dão uma vida inigualável à cidade. Após um rápido e simpático check-in no fabuloso hotel, não hesitamos em meter pés ao caminho e simplesmente just follow the lights: on our way to Times Square!
Á saída do Hotel pára uma limusina preta, enorme. O elevador apita e dele saem quatro jovens vestidas com roupas elegantíssimas e frescas. A noite era fria e o vento cortante, mas elas não pareciam importar-se. Sorridentes, entraram no limo e seguiram caminho. Espectadora de bancada, assisti deliciada à cena. Afinal, don’t the girls just have to have fun? Yes, they do!
Lá metemos pé ao caminho. O engraçado é que a sensação que se tem, a cada passo dado, é que aquilo tudo nos é familiar. Os filmes e as séries para isso contribuíram, claro está. Até podia pensar que, noutra vida, fui uma nova-iorquina, mas não. Manhattan foi-me apresentada por Woody Allen e por uma série de realizadores e produtores. Não pelo Além, decididamente!
Dizia eu que não existe uma estranheza por ser um local novo. Pelo contrário, é como que um reconhecimento do terreno: sim, os yellow cabs iguais aos dos filmes e dançam ao sabor das lombas nas ruas de alcatrão em obras; sim, os postes de sustentação dos semáforos são longos e parecem frágeis se agitados pelas fortes correntes de vento; sim, os edifícios são tão altos e imponentes que para olharmos para o seu topo, todo o nosso pescoço se contorce; e, sim, a Lua é linda no céu de Nova Iorque.
A poucos quarteirões, passado o Bryant Park e o espanto com o facto de as avenidas serem tão amplas eis que Times Square se revela.
A familiaridade é completamente engolida pelo assombro. Uma coisa é vermos Times Square num ecrã de algumas polegadas, numa foto, num postal. Outra, completamente diferente, é estar em plena Times Square e sentir o coração a bater de emoção como se tivéssemos aterrado no país das Maravilhas! Os nosso olhos simplesmente não param quietos, saltam de ecrã em ecrã, estupefactos com as dimensões gigantescas dos LCD’s e com a vivacidade das cores. Há cor, luz imensa, informação em toda a parte: uma lagartixa que nos dá conta das ultimas novidades do desporto; noutro placar, índices bolsitas; noutro – gigantesco – a yahoo e outras marcas infindáveis fazem publicidade como que a gritar ‘’Pick me, pick me!!’’ de tanto espalhafato que fazem os neóns!!
É absolutamente espectacular e obviamente que percebemos que era sítio a explorar com maior atenção durante os dias seguintes. O impacto desse momento foi brutal e avassalador.
Foi a melhor forma de NYC nos receber e nos dizer ‘’What’s up, you guys?’’.
Nós sorrimos-lhe, tal qual crianças na Euro Disney, abandonamos o corpo e deixamo-nos caminhar e rodopiar naquele bailado de pessoas, cor e luz!
Antes da noite acabar e porque era mesmo preciso amanhecer cedo para aproveitar ao máximo, eis a primeira experiência: o Bubba Gump, ali mesmo em Times Square – a derradeira experiência de atendimento country, com música country à mistura e muitos smoothies deliciosos (e calóricos, diga-se!). Mas, depois de uma refeição sofrível no ar, nós merecíamos saborear aquela visão de Times Square com uma bebida refrescante a acompanhar!
No regresso ao Hotel, os planos borbulhavam nas nossas mentes. Esperava-nos um roteiro ambicioso em termos de tempo disponível e exigente em termos físicos.
No entanto, isso não iria ser problema: o cansaço ficara retido lá atrás e NYC não dorme mesmo!



O tratamento informal é, desde logo, um convite a este à vontade: ‘’Where are you guys from?’’ – questiona o super cool funcionário, enquanto observa com espanto um dos passaportes que tem selos de sítios tão remotos como o Nepal, Moçambique, Angola, Brasil, entre outros.
‘’From Portugal’’ – respondemos, num misto de cansaço e euforia.
Porém o cansaço fica barrado na alfândega, ele não tem visto de entrada em Nova Iorque, pelo que a primeira lufada de ar fresco que se apanha à saída do aeroporto serve perfeitamente como fonte de energia! Há uma fila de pessoas para apanhar um táxi e temos que nos juntar a elas. A organizar a fila e a coordenar os táxis com as pessoas encontramos um indivíduo alto, negro com um tom de voz que eu juraria, se não lhe tivesse visto o rosto, pertencer ao James Earl Jones!
Decidido a despachar o máximo de pessoas no mínimo tempo possível, percebemos de imediato que com o our pal Mr. ‘’Jones’’ não ficaríamos na fila por muito tempo.
E assim foi … Num abrir e fechar de olhos, estávamos a caminho do hotel. As indicações de morada têm que ser precisas, nomeadamente o cruzamento exacto do número da Rua com o da Avenida. É que, por um lado, a cidade é gigantesca demais para apenas se poder dizer o nome da Rua ou do Hotel e esperar que o taxista conheça ( a menos que se fique no Plaza ou no Waldorf Astoria, claro).
E, por outro, quase todos os taxistas – como constatamos mais tarde – necessitavam eles mesmo de orientações, porque pareciam conhecer a cidade tanto quanto nós. A grande maioria é emigrantes a quem puseram um volante numa mão e um ‘’desenrasca-te’’ na outra. E eles safam-se como podem… E às vezes são mal-educados e noutras tentam levar dinheiro a mais, argumentando que a ‘’Tip’’ é extra.
Por isso mesmo, a primeira frase a trocar quando nos cruzamos com um taxista no nosso caminho é: ‘’Put the metter on please’’.
Chegar à noite tem uma mística muito maior do que se fosse ainda de dia, porque as luzes dão uma vida inigualável à cidade. Após um rápido e simpático check-in no fabuloso hotel, não hesitamos em meter pés ao caminho e simplesmente just follow the lights: on our way to Times Square!
Á saída do Hotel pára uma limusina preta, enorme. O elevador apita e dele saem quatro jovens vestidas com roupas elegantíssimas e frescas. A noite era fria e o vento cortante, mas elas não pareciam importar-se. Sorridentes, entraram no limo e seguiram caminho. Espectadora de bancada, assisti deliciada à cena. Afinal, don’t the girls just have to have fun? Yes, they do!
Lá metemos pé ao caminho. O engraçado é que a sensação que se tem, a cada passo dado, é que aquilo tudo nos é familiar. Os filmes e as séries para isso contribuíram, claro está. Até podia pensar que, noutra vida, fui uma nova-iorquina, mas não. Manhattan foi-me apresentada por Woody Allen e por uma série de realizadores e produtores. Não pelo Além, decididamente!
Dizia eu que não existe uma estranheza por ser um local novo. Pelo contrário, é como que um reconhecimento do terreno: sim, os yellow cabs iguais aos dos filmes e dançam ao sabor das lombas nas ruas de alcatrão em obras; sim, os postes de sustentação dos semáforos são longos e parecem frágeis se agitados pelas fortes correntes de vento; sim, os edifícios são tão altos e imponentes que para olharmos para o seu topo, todo o nosso pescoço se contorce; e, sim, a Lua é linda no céu de Nova Iorque.
A poucos quarteirões, passado o Bryant Park e o espanto com o facto de as avenidas serem tão amplas eis que Times Square se revela.
A familiaridade é completamente engolida pelo assombro. Uma coisa é vermos Times Square num ecrã de algumas polegadas, numa foto, num postal. Outra, completamente diferente, é estar em plena Times Square e sentir o coração a bater de emoção como se tivéssemos aterrado no país das Maravilhas! Os nosso olhos simplesmente não param quietos, saltam de ecrã em ecrã, estupefactos com as dimensões gigantescas dos LCD’s e com a vivacidade das cores. Há cor, luz imensa, informação em toda a parte: uma lagartixa que nos dá conta das ultimas novidades do desporto; noutro placar, índices bolsitas; noutro – gigantesco – a yahoo e outras marcas infindáveis fazem publicidade como que a gritar ‘’Pick me, pick me!!’’ de tanto espalhafato que fazem os neóns!!
É absolutamente espectacular e obviamente que percebemos que era sítio a explorar com maior atenção durante os dias seguintes. O impacto desse momento foi brutal e avassalador.
Foi a melhor forma de NYC nos receber e nos dizer ‘’What’s up, you guys?’’.
Nós sorrimos-lhe, tal qual crianças na Euro Disney, abandonamos o corpo e deixamo-nos caminhar e rodopiar naquele bailado de pessoas, cor e luz!
Antes da noite acabar e porque era mesmo preciso amanhecer cedo para aproveitar ao máximo, eis a primeira experiência: o Bubba Gump, ali mesmo em Times Square – a derradeira experiência de atendimento country, com música country à mistura e muitos smoothies deliciosos (e calóricos, diga-se!). Mas, depois de uma refeição sofrível no ar, nós merecíamos saborear aquela visão de Times Square com uma bebida refrescante a acompanhar!
No regresso ao Hotel, os planos borbulhavam nas nossas mentes. Esperava-nos um roteiro ambicioso em termos de tempo disponível e exigente em termos físicos.
No entanto, isso não iria ser problema: o cansaço ficara retido lá atrás e NYC não dorme mesmo!




"Take the first step in faith. You don't have to see the whole staircase. Just take the first step."- Martin Luther King Jr.
Esqueçam tudo o que vem nos guias, revistas de viagens e afins acerca desta Cidade. Eles servem apenas para orientar em termos de percurso exploratório mas são inúteis na descrição dos lugares, das pessoas, das sensações e emoções fortes que se vivem na Big Apple!
Esta é uma história de um Amor que foi crescendo devagar, devagarinho. Remonta a um tempo distante, em que uma menina sonhava, em frente ao televisor, com uma Manhattan que lhe era revelada aos poucos tendo como pretexto as aventuras e desventuras de quatro amigas cosmopolitas, glamorosas e, ao mesmo tempo, frágeis e em busca do seu grande Amor. E, tal como um amor platónico, a ligação entre si e a cidade cosmopolita e das oportunidades foi crescendo, a par do sonho. Com o passar do tempo, a menina foi-se tornando mulher e o sonho foi-se convertendo em fé inabalável e da fé passou a objectivo e, num salto, em realidade.
Na mala de viagem, como não poderia deixar de ser coloquei o pin da amizade. através dele viajaram comigo as amigas que, há cerca de uma década atrás, me inspiraram as crónicas ‘’A falta de sexo (oposto) na Cidade’’ com que, a cada aniversário, brindei cada uma delas. Era uma homenagem mais do que justa.
Há um tempo certo para tudo e é no regresso de Nova Iorque que consigo ver o quadro completo. Não teria feito (tanto) sentido ter ido lá antes. Não sem esta visão do presente, do passado e do futuro. Não sem esta certeza que hoje carrego dentro de mim de que as viagens só fazem sentido se partilhadas com a pessoa que nos completa. Porque, se há uns anos atrás teria feito esta viagem como forma de auto-descoberta pessoal, desta vez viajei inteira para descobrir não a mim mas sim à Cidade que habitava na minha fantasia. Um movimento de dentro para fora aconteceu em mim e simplesmente deixei a felicidade fluir, transbordar …
E foi assim que, carregado de uma enorme vontade de viver a Cidade, o Amor aterrou no Aeroporto JFK, em Nova Iorque, a 08 de Maio de 2010.
Tempo de recuar cinco horas no relógio, buscar as malas e … let love happen!
domingo, maio 16, 2010
Estamos sempre a aprender
Qualquer hora é boa para aprender ou recordar algo que já se aprendeu, mas ficou esquecido. Sábado à noite não é excepção.
É certo e sabido que quem se esforça gasta energias e as mesmas devem ser repostas. E com a cozinha mesmo ao lado, a vontade de comer crescia (e algumas pessoas já conhecem bem a minha transformação quando estou com fome). "Que tal um queijo de ovelha?" - perguntou a nossa anfitriã. "Com doce é que ia bem" - sugeriu o nosso professor.

Mas tornou-se necessário "molhar a palavra". E que bem molhada ela ficou...

E depois de bem regalados, nada como terminar a noite numa das discotecas da moda. Dançar, saltar e cantar porque é preciso esquecer, porque é preciso não lembrar, porque gostamos, porque somos assim, porque nos divertimos, porque sim...
Assim, ontem tivemos uma aula muito interessante, baseada no conceito "aprender brincando" e, efectivamente, aprendemos algo sem o peso da seriedade. Confesso que no início é um pouco difícil decorar todas as combinações e constantemente se pede ao professor que relembre os conceitos recentemente conhecidos, mas ainda não adquiridos. Depois apanhamos o gosto à matéria e quando acertamos uma resposta, parecemos miúdos a quem deram um doce.
Mas tornou-se necessário "molhar a palavra". E que bem molhada ela ficou...
E depois de bem regalados, nada como terminar a noite numa das discotecas da moda. Dançar, saltar e cantar porque é preciso esquecer, porque é preciso não lembrar, porque gostamos, porque somos assim, porque nos divertimos, porque sim...
segunda-feira, maio 10, 2010
Best post ever live at NYC
Directamente de um iPad aqui na Apple store em plena quinta avenida. . . Sem palavras,,, ny rules!! Valeu a pena ir ate a gronelandia parà fugir da nuvem de cinzas!
sábado, maio 08, 2010
sexta-feira, maio 07, 2010
É sensual, ousada e extremamente apetecível. Private Blend é a nova linha de batons lançada por Tom Ford, com doze tons e, como sempre, uma campanha publicitária provocatória.
Diz ele (ou os senhores do marketing) que sempre houve um fascínio pela boca de uma mulher e - acrescentam - que não existe acessório mais dramático do que o batom.
Concordo em absoluto e, por mim, andava já com todas as cores dentro da mala a espalhar charme e glamour.
O único pormenor que me aborrece: é que, ao que parece, o batom não sabe assim tão bem para quem nos beija. Pelo menos, para o meu mais-que-tudo, a boquinha ao natural é que é a mais apetitosa!
Pela minha parte, faço-lhe a vontade. Eu quero é beijar! Muito!! :)
Diz ele (ou os senhores do marketing) que sempre houve um fascínio pela boca de uma mulher e - acrescentam - que não existe acessório mais dramático do que o batom.
Concordo em absoluto e, por mim, andava já com todas as cores dentro da mala a espalhar charme e glamour.
O único pormenor que me aborrece: é que, ao que parece, o batom não sabe assim tão bem para quem nos beija. Pelo menos, para o meu mais-que-tudo, a boquinha ao natural é que é a mais apetitosa!
Pela minha parte, faço-lhe a vontade. Eu quero é beijar! Muito!! :)
quinta-feira, maio 06, 2010
"If"
If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:
If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a Man, my son!
By Rudyard Kipling (1865-1936).
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:
If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings--nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And--which is more--you'll be a Man, my son!
By Rudyard Kipling (1865-1936).
terça-feira, maio 04, 2010
A bailarina da coxa grossa – um tributo a todas as «popozudas» deste Mundo
Todos os dias se media. Com a fita métrica, como Miss Marie lhe tinha dito.
Apontava as medidas no moleskine azul que a sua irmã lhe tinha oferecido para os seus desenhos a carvão.
Desenhava bailados, sobretudo. Bailarinos da sua imaginação em poses majestosas, sublimes!
O seu sonho era tornar-se bailarina. Por isso, dançava, dançava, nas horas livres e nas que supostamente deveriam ser ocupadas com o estudo.
«Não podes relaxar-te nos estudos, senão já sabes que te tiro do ballet» - a mãe Fátima ameaçava.
Mas ela sabia exactamente qual o caminho que queria seguir. Sabia que o seu sonho – aquele que a comandava – iria concretizar-se lá longe, num tempo que ainda desconhecia mas que sentia e sabia existir.
Apenas uma pedra tentava bloquear-lhe o caminho. Não tinha as «medidas standard».
«Uma bailarina tem que ser perfeita, esguia! Tens que perder volume nessas pernas. Nessas coxas!»
Miss Marie, a professora de dança, conseguia ser um pouco cruel mas tinha-lhe grande respeito e admiração. Se ela dizia que tinha que ser, tinha que ser!
Mas, na verdade, perder volume nas pernas, não era fácil! Era mais fácil fazer um exercício de pontas do que ver as coxas a perder volume.
«Esse é o teu formato de pernas, filha e, de mais a mais, isso não é gordura, é tudo músculo! Sais à minha família.» Dizia-lhe o pai, atento e carinhoso e orgulhoso na sua filha por inteiro.
O desalento começava, por vezes, a tomar conta de si. Nas páginas do moleskine os desenhos não contavam as habituais histórias de bailado. Ao invés disso, retratavam formas humanas com medidas reais e «ideiais» rabiscadas ao lado. Por vezes, chorava e molhava as folhas delicadas do seu bloco azul.
Um dia o pai, atento e carinhoso e orgulhoso na sua filha por inteiro, foi falar com Miss Marie. Comunicou-lhe, após muita reflexão, que os conselhos de Miss Marie talvez não fossem os mais sensatos no que dizia respeito à sua filha. E acrescentou que as bailarinas não são todas iguais. Que a beleza de um bailado não se reduz ao perímetro de uma coxa. Sobretudo, que ela não tinha o direito de condicionar o sonho da sua filha a uma obsessão pela fita métrica.
Quanto a si, despediu-se de Miss Marie lavada em lágrimas. Ela estendeu-lhe a mão, apertou-a, e apenas lhe disse:
«A postura é tudo nesta vida. Seca as tuas lágrimas e lembra-te que a postura é tudo nesta vida».
A nova escola de bailado foi surpreendentemente libertadora! Com novos professores, novos ritmos, novos colegas! Uma excelente surpresa! Um novo interesse surgiu e, pelo meio, as cantigas tornaram-se numa paixão. E o melhor de tudo foi deitar fora a fita métrica. Lá era aceite tal qual era. Não que fossem menos exigentes. Seriam menos focados na grossura da coxa, talvez …
O resultado do esforço foi compensado e hoje em dia as suas coxas eram reconhecidamente ‘’boas bailarinas ‘’ !
A prova? Aqui está …
«Pôxa, que coxa!!»
Espectacular!!
Apontava as medidas no moleskine azul que a sua irmã lhe tinha oferecido para os seus desenhos a carvão.
Desenhava bailados, sobretudo. Bailarinos da sua imaginação em poses majestosas, sublimes!
O seu sonho era tornar-se bailarina. Por isso, dançava, dançava, nas horas livres e nas que supostamente deveriam ser ocupadas com o estudo.
«Não podes relaxar-te nos estudos, senão já sabes que te tiro do ballet» - a mãe Fátima ameaçava.
Mas ela sabia exactamente qual o caminho que queria seguir. Sabia que o seu sonho – aquele que a comandava – iria concretizar-se lá longe, num tempo que ainda desconhecia mas que sentia e sabia existir.
Apenas uma pedra tentava bloquear-lhe o caminho. Não tinha as «medidas standard».
«Uma bailarina tem que ser perfeita, esguia! Tens que perder volume nessas pernas. Nessas coxas!»
Miss Marie, a professora de dança, conseguia ser um pouco cruel mas tinha-lhe grande respeito e admiração. Se ela dizia que tinha que ser, tinha que ser!
Mas, na verdade, perder volume nas pernas, não era fácil! Era mais fácil fazer um exercício de pontas do que ver as coxas a perder volume.
«Esse é o teu formato de pernas, filha e, de mais a mais, isso não é gordura, é tudo músculo! Sais à minha família.» Dizia-lhe o pai, atento e carinhoso e orgulhoso na sua filha por inteiro.
O desalento começava, por vezes, a tomar conta de si. Nas páginas do moleskine os desenhos não contavam as habituais histórias de bailado. Ao invés disso, retratavam formas humanas com medidas reais e «ideiais» rabiscadas ao lado. Por vezes, chorava e molhava as folhas delicadas do seu bloco azul.
Um dia o pai, atento e carinhoso e orgulhoso na sua filha por inteiro, foi falar com Miss Marie. Comunicou-lhe, após muita reflexão, que os conselhos de Miss Marie talvez não fossem os mais sensatos no que dizia respeito à sua filha. E acrescentou que as bailarinas não são todas iguais. Que a beleza de um bailado não se reduz ao perímetro de uma coxa. Sobretudo, que ela não tinha o direito de condicionar o sonho da sua filha a uma obsessão pela fita métrica.
Quanto a si, despediu-se de Miss Marie lavada em lágrimas. Ela estendeu-lhe a mão, apertou-a, e apenas lhe disse:
«A postura é tudo nesta vida. Seca as tuas lágrimas e lembra-te que a postura é tudo nesta vida».
A nova escola de bailado foi surpreendentemente libertadora! Com novos professores, novos ritmos, novos colegas! Uma excelente surpresa! Um novo interesse surgiu e, pelo meio, as cantigas tornaram-se numa paixão. E o melhor de tudo foi deitar fora a fita métrica. Lá era aceite tal qual era. Não que fossem menos exigentes. Seriam menos focados na grossura da coxa, talvez …
O resultado do esforço foi compensado e hoje em dia as suas coxas eram reconhecidamente ‘’boas bailarinas ‘’ !
A prova? Aqui está …
«Pôxa, que coxa!!»
Espectacular!!
segunda-feira, maio 03, 2010
Cortar o mal pela raíz
Acordo de repente. Não ouvi o despertador. Será que me esqueci de o ligar ontem à noite antes de me deitar? Não me recordo de o ter feito. Não me recordo de não o ter feito. Olho para o lado direito e na mesinha de cabeceira o despertador marca 09h38m. A luzinha do despertador está acesa e marca as 7h. Não consigo perceber. Tento orientar-me na escuridão. Apesar de a manhã já estar esplendorosa as grossas cortinas protegem-me da luz. Odeio acordar com a luz nos olhos. Dá-me uma má disposição para o dia todo. Levanto-me e decido de imediato que não estou ainda dotada de todas as minhas capacidades. Preciso de um duche rápido e de um café forte. Meia hora depois estou a sair do apartamento. A brisa que se faz sentir bate-me nos cabelos molhados e faz-me arrepiar. Um dia destes corto o mal pela raiz. Usei o cabelo longo durante os primeiros anos da minha infância. Depois, sem motivo aparente nenhum, a minha mãe decidiu que um corte à tigela estava na moda. Voltei a deixá-lo crescer. Com variações de mais ou menos comprido, fui tendo cabelos longos até entrar na Faculdade. No segundo ano decidi cortá-lo curtinho. Um corte à Maria rapaz. Nos anos seguintes foi crescendo e sendo cortado. Tive vários cortes e penteados, mas o tamanho nunca desceu abaixo dos ombros. Depois conheci o M. Um dia enrolados um no outro, sussurrou-me: “O teu cabelo está mais comprido. Devias deixar crescer ainda mais. Fica-te bem. ” Desde então que nunca tenho cortado mais que uns meros centímetros de cada vez. Quase que a justificar a ida ao cabeleireiro. Cheguei ao meu carro estacionado no fundo da rua. Ouço risos e gritinhos vindos do outro lado da rua. O pátio da escola primária, cheio de crianças que brincam descontraídas. Está um sol tímido, mas quentinho. Sol de Abril. A brisa volta a fazer-me arrepiar. Tenho mesmo de tratar de deste cabelo. Sem paciência para o secar, não posso andar sempre com ele molhado. Abro a porta do carro e mal entro sinto logo o calor do seu interior. Ligo o carro, espreito pelos espelhos e arranco em direcção ao cabeleireiro.
Se quiserem escutar a música de fundo está aqui.
Se quiserem escutar a música de fundo está aqui.
sábado, maio 01, 2010
Sábado de tarde....
Chove lá fora. Uma chuva forte. Granizo e chuva forte. Faz-me lembrar os dias de Inverno do Porto. Aqueles dias escuros em que o Sol se faz de tímido e não nos visita. Aqueles dias que são tão cinzentos que parecem noites disfarçadas. Dias e dias de chuva que marcam as longas semanas de Inverno. Entre memórias que me invadem, levanto-me e preparo um chá. Chá de ervas que a minha mãe plantou, colheu, secou e misturou. Um chá quente que transporta um aroma tão familiar. Ponho uma música a tocar. Chove lá fora e o chá aquece-me o corpo enquanto escuto o que me aquece a alma.
quinta-feira, abril 29, 2010
Excentricidades de uma visita Papal ...
Serei eu que estarei a ser um pouco intolerante para com a visita Papal à Invicta e com o facto de fecharem e condicionarem os acessos de ruas centrais e periféricas do Porto nos dias 13 e 14?!
É que, católicos ou não católicos, os trabalhadores que não têm (nem vão ter)tolerância de ponto, ver-se-ão gregos para chegarem aos seus locais de trabalho!
Internamente, as pessoas já levam as mãos à cabeça a imaginarem a sua vidinha ...
Melhor começar a rezar por um milagre da multiplicação de ruas ... ou então montar tenda no escritório!
É que, católicos ou não católicos, os trabalhadores que não têm (nem vão ter)tolerância de ponto, ver-se-ão gregos para chegarem aos seus locais de trabalho!
Internamente, as pessoas já levam as mãos à cabeça a imaginarem a sua vidinha ...
Melhor começar a rezar por um milagre da multiplicação de ruas ... ou então montar tenda no escritório!
terça-feira, abril 27, 2010
Leg ceiling: nova modalidade desportiva ou nova forma de espionagem industrial?

Desengane-se aquele que diz que já viu tudo nesta vida, pois está redondamente enganado.
Está uma pessoa a laborar, como habitualmente, sentada no seu cubículo-aquário, a pensar com os seus botões como é que a vida a fez aterrar ali há mais de seis anos quando, de repente, escuta um grito assustador vindo de quatro secretárias mais à frente, no openspace.
Acordamos, sobressaltadas, e apenas olhando em frente rapidamente tomamos consciência que esta vida é uma caixinha de surpresas.
Do antes solitário e enfadonho tecto, pendia naquele momento uma perna, que se balançava a um ritmo frenético. Assim, sem mais nem menos, surgira, fracturando o tecto, aterrorizando as pessoas que, sossegadamente, labutavam.
E que perna era esta? De onde vinha, para onde queria ir com aquele balanço todo? Aquele gingar frenético e perturbador?
Pois bem, aquela perna, solitária e encarcerada, pertencia à Administradora. Não era uma perna qualquer, era tão somente a perna que mandava nas pernas de todos nós. Era a perna-mor, a perna que nos paga o salário, a perna no topo do organigrama.
Passado o susto e o espanto iniciais, a questão seguinte foi: que fazia aquela perna ali?
Porque não estava ela a administrar, a gerir o negócio?
Pois bem, no andar superior, já um monte de pessoas acudia à dona da perna, que estava numa espécie de esparregata olímpica desastrosa, com, literalmente, uma perna in e outra out, não da moda, mas do tecto que - a propósito - no andar de cima, era chão.
Após alguma ajuda, a perna balançante desapareceu e abandonou o cosmos.
Os terráqueos do rés-chão ainda estavam incrédulos com o sucedido. Alguns entraram em pânico e teceram futurologia apocalíptica ‘’Qualquer dia, o tecto desaba em cima de nós!’’. Outros, mais imaginativos, correram a espalhar a notícia, empolando o sucedido ‘’A perna rasgou o tecto e quase que tudo caía em cima de nós, pedaços enormes caíram em cima da minha mesa e, por sorte, não me atingiram’’.
Outros, mais pragmáticos e um pouco pervertidos, limitaram-se a questionar ‘’Ela estava de saia ou de calças?’’
O certo é que, até ao momento, ainda não consegui perceber se aquilo foi uma nova modalidade radical que a Chefe estava a tentar implementar – o leg ceiling – ou se foi uma nova forma de espionagem industrial que correu menos bem.
Uma coisa é certa: se o objectivo era introduzir novidade, foi plenamente atingido.
Por isso, não se esqueçam que, anytime, anywhere, BIG LEG is watching you ….
A caixinha de música: LINDA, LINDA, LINDA ...
Sabem aqueles arrepios 'gostosos' que nos dá na espinha?
Escutar esta música faz-me arrepiar, fechar os olhos por uns momentos e, automaticamente, sorrir.
Como se o arco-íris me abraçasse por instantes.
Porque há músicas que fazem a diferença, mesmo!
Escutar esta música faz-me arrepiar, fechar os olhos por uns momentos e, automaticamente, sorrir.
Como se o arco-íris me abraçasse por instantes.
Porque há músicas que fazem a diferença, mesmo!
domingo, abril 25, 2010
Instantes de liberdade
Mergulho na memória
E encontro o meu futuro.
As imagens sucedem-se
E iluminam a minha história:
Danço Bowie com sapatos vermelhos de verniz.
Dou uma gargalhada no metro.
Pergunto “estás Feliz?”
Leio David Mourão-Ferreira e espero.
Como a sobremesa no início da refeição.
Aponto no mapa aquele país.
Abraço e desespero.
Saboreio aquele camarão.
Falho e tento outra vez.
Naufrago.
Volto ao porto de abrigo
E respiro.
Uso a palavra e pinto m cravo vermelho.
-“Escuta!” – grita-me a liberdade – “Acorda!”
“Nunca te deixes adormecer. Mas, por favor,
Nunca deixes de sonhar.”
Mergulho na memória
E encontro o meu futuro.
As imagens sucedem-se
E iluminam a minha história:
Danço Bowie com sapatos vermelhos de verniz.
Dou uma gargalhada no metro.
Pergunto “estás Feliz?”
Leio David Mourão-Ferreira e espero.
Como a sobremesa no início da refeição.
Aponto no mapa aquele país.
Abraço e desespero.
Saboreio aquele camarão.
Falho e tento outra vez.
Naufrago.
Volto ao porto de abrigo
E respiro.
Uso a palavra e pinto m cravo vermelho.
-“Escuta!” – grita-me a liberdade – “Acorda!”
“Nunca te deixes adormecer. Mas, por favor,
Nunca deixes de sonhar.”
sexta-feira, abril 23, 2010
Panquecas da Nigella para pequeno-almoço de fim-de-semana :)
INGREDIENTES
225g de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó
pitada de sal
1 colher de chá de açúcar
2 ovos grandes, batidos
30g de manteiga, derretida e fria
300ml de leite
manteiga para fritar
Porção: 11 panquecas
Mistura-se tudo no liquidificador e 1 minuto para cada lado na frigideira :)
Yummie!
225g de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó
pitada de sal
1 colher de chá de açúcar
2 ovos grandes, batidos
30g de manteiga, derretida e fria
300ml de leite
manteiga para fritar
Porção: 11 panquecas
Mistura-se tudo no liquidificador e 1 minuto para cada lado na frigideira :)
Yummie!
One song, one story: (de)lírios & o cuidador
Não preguei olho esta noite. Passei-a às claras, no escuro do nosso quarto. A minha cabeça transformou-se em chumbo e os meus lábios na secura de uma ameixa
murcha. Ao meu lado, o jarro de água está vazio. Os comprimidos já não fazem efeito. Sinto-me sem vontade de nada. Ao meu redor apenas luz, mas não me sinto tranquila.
Acho que me sinto até agoniada com este excesso de luz. É como se tudo na minha vida se resumisse a duas cores – o negro da noite e o branco das paredes, dos lençóis, da luz que entra por entre as amplas janelas… Uma espécie de código binário apossou-se de toda a minha vida. Só os opostos existem: ora me sinto feliz, ora desolada; umas vezes sei que quero o Mundo, noutras, quero deixar de existir nele. Olho para o meu roupeiro e tudo é preto e branco/ e preto. Preto para a noite - porque é sóbrio e elegante, porque seduz.
Roupa branca para usar durante o dia – porque contrasta com o negro dos meus cabelos, porque combina com a minha pele alva e os meus olhos azuis.
Lembro-me de teres sussurrado que eu era o teu pedaço de céu, porque era clara e suave como as nuvens, tinha o azul celeste espelhado nos olhos e a escuridão da noite cravada nos cabelos. Foi nesse dia exacto que me rendi a ti. Em que te tornei estrela do meu céu.
Queria tanto poder sonhar contigo, mas a insónia dos últimos tempos não o consente. A minha mente está exausta e drogada em demasia para conseguir ir lá atrás buscar esses pedaços de ser e de nós. Desde que partiste que não durmo. Não consigo preencher o vazio que deixaste na cama. Ando nela às voltas, tentando manter quente o teu lugar, como se isso te tornasse mais presente. Mas de nada serve. Preciso de ti, do teu abraço, da tua respiração, do teu sossego.Branco é a cor da pureza. Pela lógica, será o preto necessariamente impuro?
Respondo que não. Que é na escuridão, na absoluta cegueira que se descobre a pureza. É negra a cor da manta que a cobre e protege, a oculta e refugia de tudo
aquilo que a possa contaminar, perturbar até. Tal e qual o nosso casamento – a união entre a força e a vulnerabilidade. Entre a brancura do meu vestido e o negro do teu solene fraque. Pelo menos, foi isso que senti no momento em que a minha mão te foi entregue pela do meu pai. Não pensei muito sobre o assunto nessa altura mas, passados os primeiros tempos, esse desconforto começou a surgir e a questionar-me “Alguma vez terás sido dona de ti própria? Ou és forma humana de frágil cristal que simplesmente mudou de
vigilante?” Assaltam-me a mente todas as formas de mulher que gostaria de ter sido. Uma negra de lábios volumosos e cabelos curtinhos, rentes à nuca, enrolada em tecidos
artesanais, coloridos e rudes, com os pés gastos pela rua e as palmas das mãos brancas e marcadas pela apanha de algodão no campo. Avassaladora nas suas paixões, quente em todas as estações do ano e com olhos avelã, esbugalhados, que lançam uma infinita doçura em tudo o que contemplam!
Terei certamente um lado sádico, mas gosto do contraste entre o negro da pele e o vermelho intenso do sangue. Imagino o sangue a jorrar pelo dedo que se magoa por entre os campos de algodão. Sem achaques e com naturalidade, esta mulher leva o dedo à sua boca e suga o sangue até este estancar. Por entre a terra e as plantas do algodão, vêem-se gotas de sangue e projectam-se figuras sem nome. Comigo, nunca nada se passou assim. Raras foram as vezes em que os meus pés provaram a terra. Lembro-me de me ter magoado muito poucas vezes na infância, tal era a vigilância cerrada da minha ama. Talvez um arranhão no joelho que cedeu numa escada trapaceira, ou um pequeno corte na folha branca de papel na qual tentei, em vão e numa casual tentativa, iniciar a escrita do meu diário. Recordo o fascínio por mim sentido ao ver um menino da escola a sangrar do nariz.
Não percebia porque é que isso acontecia, mas divertia-me com a cena da professora sobressaltada, a correr em sua direcção com um lenço de papel para impedir que o sangue espirrasse em cima dos seus livros e das fichas de trabalho. Chegara mesmo a perguntar à minha mãe porque motivo não sangrava mais vezes e, ela, com a sua fleumática frase habitual: ” Delírios, Maria Madalena… delírios… deixe-me sossegar a cabeça”. E eu assim ia. Não deixa de ser curioso o facto de sempre me ter vestido de branco e negro e de
nunca ter comprado algo em vermelho. Podia ter comprado aquele vestido que vira numa montra algures um dia, cujo escarlate me saltou ao olho. Mas disseste-me que o jantar de aniversário dos teus pais merecia algo mais discreto. Um vestido preto – um básico, ‘’ Intemporal como tu” – disseste-me. No entanto, vinguei-me de ti nessa noite e ofereci um grande ramo de rosas vermelhas à tua mãe. Frescas, em botão, atadas em fio do norte. Sussurraste-me à sobremesa que havia sido “ precipitada” na escolha “Podias ter-me pedido ajuda na escolha, querida. A mamã aprecia outro tipo de flores. Olha, por exemplo, umas violetas ou até mesmo uns jarros. São mais neutros e ligam bem com tudo”. Pois, e passam verdadeiramente despercebidos, com sua aparência insípida e marginal. Mas deixa, já te perdoei isso e tanto mais. Não esqueci, mas perdoei. Agora que aqui estou, com preguiça da vida e com carência de incontáveis horas de sono, olho para a poltrona que está perto da porta do quarto. Mais ao lado, encostada, repousa uma caixa de cartão branca. Estranho… não me recordo de a ter colocado ali, nem sequer de antes a ter visto. O que terá dentro? Começa a crescer uma curiosidade, estranha até, perante uma simples caixa de
cartão branca. Mas o corpo não se levanta para ir lá e saciar esta comichão que sinto! De repente, uma reserva de energia – das últimas, talvez – toma-me e estou em pé, descalça, junto à caixa. Sento-me com ela ao colo na poltrona. Ao levantar a tampa, eis perante mim a luz que ansiava! Um ramo de lírios brancos! Lírios, a flor da pureza!
Desço as escadas desenfreadamente e dirijo-me ao jardim e lá o encontro – o negro que me protege, o calor da minha cama, a estrela do meu céu, o guardador da minha fragilidade. Havia regressado. “ Fizeste-me tanta falta. “ – disse-lhe, enquanto repousava no seu abraço. Não me respondeu que também lhe tinha feito falta a si, mas os (de)lírios disseram-no em todas as vozes.
murcha. Ao meu lado, o jarro de água está vazio. Os comprimidos já não fazem efeito. Sinto-me sem vontade de nada. Ao meu redor apenas luz, mas não me sinto tranquila.
Acho que me sinto até agoniada com este excesso de luz. É como se tudo na minha vida se resumisse a duas cores – o negro da noite e o branco das paredes, dos lençóis, da luz que entra por entre as amplas janelas… Uma espécie de código binário apossou-se de toda a minha vida. Só os opostos existem: ora me sinto feliz, ora desolada; umas vezes sei que quero o Mundo, noutras, quero deixar de existir nele. Olho para o meu roupeiro e tudo é preto e branco/ e preto. Preto para a noite - porque é sóbrio e elegante, porque seduz.
Roupa branca para usar durante o dia – porque contrasta com o negro dos meus cabelos, porque combina com a minha pele alva e os meus olhos azuis.
Lembro-me de teres sussurrado que eu era o teu pedaço de céu, porque era clara e suave como as nuvens, tinha o azul celeste espelhado nos olhos e a escuridão da noite cravada nos cabelos. Foi nesse dia exacto que me rendi a ti. Em que te tornei estrela do meu céu.
Queria tanto poder sonhar contigo, mas a insónia dos últimos tempos não o consente. A minha mente está exausta e drogada em demasia para conseguir ir lá atrás buscar esses pedaços de ser e de nós. Desde que partiste que não durmo. Não consigo preencher o vazio que deixaste na cama. Ando nela às voltas, tentando manter quente o teu lugar, como se isso te tornasse mais presente. Mas de nada serve. Preciso de ti, do teu abraço, da tua respiração, do teu sossego.Branco é a cor da pureza. Pela lógica, será o preto necessariamente impuro?
Respondo que não. Que é na escuridão, na absoluta cegueira que se descobre a pureza. É negra a cor da manta que a cobre e protege, a oculta e refugia de tudo
aquilo que a possa contaminar, perturbar até. Tal e qual o nosso casamento – a união entre a força e a vulnerabilidade. Entre a brancura do meu vestido e o negro do teu solene fraque. Pelo menos, foi isso que senti no momento em que a minha mão te foi entregue pela do meu pai. Não pensei muito sobre o assunto nessa altura mas, passados os primeiros tempos, esse desconforto começou a surgir e a questionar-me “Alguma vez terás sido dona de ti própria? Ou és forma humana de frágil cristal que simplesmente mudou de
vigilante?” Assaltam-me a mente todas as formas de mulher que gostaria de ter sido. Uma negra de lábios volumosos e cabelos curtinhos, rentes à nuca, enrolada em tecidos
artesanais, coloridos e rudes, com os pés gastos pela rua e as palmas das mãos brancas e marcadas pela apanha de algodão no campo. Avassaladora nas suas paixões, quente em todas as estações do ano e com olhos avelã, esbugalhados, que lançam uma infinita doçura em tudo o que contemplam!
Terei certamente um lado sádico, mas gosto do contraste entre o negro da pele e o vermelho intenso do sangue. Imagino o sangue a jorrar pelo dedo que se magoa por entre os campos de algodão. Sem achaques e com naturalidade, esta mulher leva o dedo à sua boca e suga o sangue até este estancar. Por entre a terra e as plantas do algodão, vêem-se gotas de sangue e projectam-se figuras sem nome. Comigo, nunca nada se passou assim. Raras foram as vezes em que os meus pés provaram a terra. Lembro-me de me ter magoado muito poucas vezes na infância, tal era a vigilância cerrada da minha ama. Talvez um arranhão no joelho que cedeu numa escada trapaceira, ou um pequeno corte na folha branca de papel na qual tentei, em vão e numa casual tentativa, iniciar a escrita do meu diário. Recordo o fascínio por mim sentido ao ver um menino da escola a sangrar do nariz.
Não percebia porque é que isso acontecia, mas divertia-me com a cena da professora sobressaltada, a correr em sua direcção com um lenço de papel para impedir que o sangue espirrasse em cima dos seus livros e das fichas de trabalho. Chegara mesmo a perguntar à minha mãe porque motivo não sangrava mais vezes e, ela, com a sua fleumática frase habitual: ” Delírios, Maria Madalena… delírios… deixe-me sossegar a cabeça”. E eu assim ia. Não deixa de ser curioso o facto de sempre me ter vestido de branco e negro e de
nunca ter comprado algo em vermelho. Podia ter comprado aquele vestido que vira numa montra algures um dia, cujo escarlate me saltou ao olho. Mas disseste-me que o jantar de aniversário dos teus pais merecia algo mais discreto. Um vestido preto – um básico, ‘’ Intemporal como tu” – disseste-me. No entanto, vinguei-me de ti nessa noite e ofereci um grande ramo de rosas vermelhas à tua mãe. Frescas, em botão, atadas em fio do norte. Sussurraste-me à sobremesa que havia sido “ precipitada” na escolha “Podias ter-me pedido ajuda na escolha, querida. A mamã aprecia outro tipo de flores. Olha, por exemplo, umas violetas ou até mesmo uns jarros. São mais neutros e ligam bem com tudo”. Pois, e passam verdadeiramente despercebidos, com sua aparência insípida e marginal. Mas deixa, já te perdoei isso e tanto mais. Não esqueci, mas perdoei. Agora que aqui estou, com preguiça da vida e com carência de incontáveis horas de sono, olho para a poltrona que está perto da porta do quarto. Mais ao lado, encostada, repousa uma caixa de cartão branca. Estranho… não me recordo de a ter colocado ali, nem sequer de antes a ter visto. O que terá dentro? Começa a crescer uma curiosidade, estranha até, perante uma simples caixa de
cartão branca. Mas o corpo não se levanta para ir lá e saciar esta comichão que sinto! De repente, uma reserva de energia – das últimas, talvez – toma-me e estou em pé, descalça, junto à caixa. Sento-me com ela ao colo na poltrona. Ao levantar a tampa, eis perante mim a luz que ansiava! Um ramo de lírios brancos! Lírios, a flor da pureza!
Desço as escadas desenfreadamente e dirijo-me ao jardim e lá o encontro – o negro que me protege, o calor da minha cama, a estrela do meu céu, o guardador da minha fragilidade. Havia regressado. “ Fizeste-me tanta falta. “ – disse-lhe, enquanto repousava no seu abraço. Não me respondeu que também lhe tinha feito falta a si, mas os (de)lírios disseram-no em todas as vozes.
quinta-feira, abril 22, 2010
I just LOVE her bites!

Como falar deste assunto sem me babar? Só mesmo colocando um bibe ... Já está!
Então, é assim: nos meus serões SIC Mulher, ando há algum tempo a ter autênticos ataques de gula!
Sem aviso prévio, ela apareceu, com aquele sotaque e ar aristocrático. Mas o que me prendeu de imediato foi a capacidade narrativa da senhora, aquela paixão que coloca nas palavras ao descrever o paladar dos temperos, os cheiros das especiarias, a textura dos ingredientes...
Falo de Nigella e dos seus Bites fenomenais.
Adoro a cozinha, os utensílios, a forma como ela pica grosseira e despreocupadamente a salsa! Amo o facto de ela não ter os ingredientes ali todos à mão, como os Chéfs de culinária enfadonhos que falam apenas em linguagem de kilogramas e nunca de afectos, de sensibilidade, de paladar!! Sim, eu provo a comida durante o processo! É obrigatório!!
Nigella vai mais além: ela come os ingredientes enquanto cozinha! Ela corta um apetitoso chouriço de colorau às rodelas e não resiste a meter de imediato uma rodela à boca!
Derreto-me sempre quando vejo as maravilhas que ela prepara para os seus dois filhos pequenos e com os sorrisos de todos à volta da mesa, a partilharem refeições feitas pela mãe, carinhosamente. As famílias são assim, sentam-se à mesa juntas, comem juntas, convivem juntas.
Outra coisa que eu adoro na Nigella é o despojamento e o ''estou-me nas tintas'' com que ela ataca o frigorífico à noite, para roubar uma colherada generosa do gelado que tinha feito nesse dia. Quantos de nós não o fazem? :) Sabe pela vida :)
Identifico-me com esta cozinha: saudável, gulosa, terna, cuidadora, afectuosa.
Quando for grande quero ser como a Nigella :)
quarta-feira, abril 21, 2010
Reflexões...
Cinema é melhor para a saúde do que pipocas!
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que pessoas influentes.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor que nada!
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que pessoas influentes.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor que nada!
terça-feira, abril 20, 2010

Aquela que parecia a saga interminável, entre aulas, exames, trabalhos infinitos, estágios e orais, terminou hoje!
Daqui envio aquele beijo especial à minha ESTRELA maior...
E sim, é favor de darem os Parabéns que ele está bem a merecê-los!!! :)
(claro que é bem provável que ele me mate depois de saber que eu ando aí a gritar ao Mundo a notícia mas, que querem (?!); ao menos, morro feliz :))
E mais....
"UM DIA VAIS ACHAR QUE SAIR À NOITE É IR PÔR O LIXO AO CONTENTOR.
(QUANDO ESSE DIA CHEGAR, NÃO LHE FALES)"
SUMOL ORIGINAL
"UM DIA, O MAIS PROVÁVEL É TORNARES-TE NUM CHATO, DEIXARES DE SAIR À NOITE E COMEÇARES A LEVAR-TE DEMASIADO A SÉRIO. NESSE DIA, VAIS COMEÇAR A VESTIR CINZENTO E BEJE, PEDIR PARA BAIXAR O VOLUME DA MÚSICA E DEIXAR A TUA GUITARRA A APANHAR PÓ. VAIS TORNAR-TE POLITICAMENTE CORRECTO, SOCIALMENTE EVOLUÍDO, ECONOMICAMENTE CONSCIENTE. VAIS ACHAR QUE TENS DE IR PARA ONDE TODA A GENTE VAI E ASSUMIR QUE TENS DE USAR FATO E GRAVATA TODOS OS DIAS. NESSE DIA VAIS DEIXAR DE BEIJAR EM PÚBLICO, AS TUAS VIAGENS SERÃO MAIS VEZES NO SOFÁ E DORMIRÁS MENOS AO RELENTO. É OFICIAL VAIS ENTRAR NA IDADE DO CHINELO E DEIXAR DE SER QUEM FOSTE ATÉ ENTÃO. VAIS DEIXAR DE TE SENTAR AO COLO DOS AMIGOS E VAIS ESQUECER-TE DE COMO SE FAZ UM QUANTOS-QUERES OU UM BARCO DE PAPEL. VAIS FICAR NERVOSINHO SE NÃO TROCARES DE CARRO DE QUATRO EM QUATRO ANOS E DESATINAR SE O HOTEL ONDE ESTIVERES NÃO TE DER TOALHAS PARA O TEU MACIO E HIDRATADO ROSTO. VAIS TORNAR-TE MUITO CRESCIDO E COMEÇAR A PREOCUPAR-TE COM TUDO E COM NADA E A NÃO FAZER NADA PORQUE “VAI-SE ANDANDO” E A VIDA É MESMO ASSIM. VAIS DIZER NÃO MAIS VEZES, VAIS TER MEDO, VAIS ACHAR QUE NÃO PODES, QUE NÃO DEVES, QUE TENS VERGONHA.
VAIS SER MAIS TRISTE.
NESSE DIA, O MAIS PROVÁVEL É QUE TAMBÉM DEIXES DE BEBER REFRIGERANTES.
AQUI FICA UMA IDEIA: QUANDO ESSE DIA CHEGAR, NÃO LHE FALES.
MANTÉM-TE ORIGINAL"
VAIS SER MAIS TRISTE.
NESSE DIA, O MAIS PROVÁVEL É QUE TAMBÉM DEIXES DE BEBER REFRIGERANTES.
AQUI FICA UMA IDEIA: QUANDO ESSE DIA CHEGAR, NÃO LHE FALES.
MANTÉM-TE ORIGINAL"
segunda-feira, abril 19, 2010
Passear é bem preciso!!


O meu Porto é, e sempre será, o mai lindo lugar do Mundo.
No entanto, há que reconhcer que o Bairro Alto também é mágico.
Este fim-de-semana foi vadio, preguiçoso, guloso e ... delicioso!
Embrulhados numa mantinha (oferecida, genialmente pelo Hotel!) bebericamos um fumegante cappuccino ao som de Nouvelle Vague, enquanto as conversas corriam livres, fluídas e divertidas!
A paisagem, o local e a companhia foram ímpares. Lounge do Hotel do Bairro Alto Hotel: uma autêntica maravilha! Recomendo!!
Cá fora, na Praça de Camões, um conceito da visionária Catarina Portas: um kiosque de refrescos. Abrigado, povoado de gente animada e colorida. Do que a gente precisa!
sexta-feira, abril 16, 2010
To do's list para o fim-de-semana ...

Ora vamos lá a ver como corre:
Receita de bombons de chocolate caseiros:
- 250 gr de chocolate negro de culinária
- 200 gr de leite condensado
- 40 gr de manteiga
- 200 gr de chocolate branco
Partir a tablete de chocolate negro aos pedaços e derreter em banho maria.
Juntar o leite condensado e mexer muito bem, depois juntar a manteiga e voltar a mexer.
Colocar em pequenas formas para bombons ou se preferir em cuvetes de gelo.
Levar ao frigorífico por algumas horas.
Antes de retirar os bombons do frigorífico, levar o chocolate branco a derreter em banho maria. Retirar os bombons das formas e passá-los no chocolate branco em cima de papel vegetal ou de um prato untado com um pouco de óleo.
Deixar solidificar, levar de novo ao frigorífico, retirar, levar num pratinho para o sofá num lindo e fofo pratinho da Loja Gato Preto, dar e receber bombons na boquinha.
Lambuzar-nos todos!
Será BOM, BOM!
quarta-feira, abril 14, 2010
domingo, abril 11, 2010
Mais uma música e alguns pensamentos...
A city with unlimited offers. A different life within the city. A city with unfinished projects and never ending wishes. So many different things to see, feel, live,….. Museums to visit. Streets and corners to discover slowly and patiently, as if that was the purpose of our life. Delicious food to be tasted in every street market, restaurant or cafe. New and exotic friends to make. Culture to be absorbed as if it was food to the soul and mind. Art given to us through our eyes to comfort our soul and mind. In every new painting, every new gallery, every new artist, a smile. Oh, delicious sense of comfort!!! Yes, all this makes me smile. Street art, street markets, street life, street smiles. Our young faces smiling. Our youth dreams and hopes. Life was an eternal journey full of adventures and colourful dreams. Street and markets and green parks so full of beautiful people and beautiful lives. But, then it doesn't always have to be beautiful ….. Unless it’s beautiful…. And when it is beautiful it almost makes me cry!!! It´s like my mind, soul and body are too little and hopeless to hold all that beautifulness.
sexta-feira, abril 09, 2010
Fantastic Mr Fox...
Aqui fica uma sugestão de fim-de-semana para quem gosta dos filmes do Wes Anderson (Eu, eu, eu....), para quem gosta de animações e gargalhadas. Já deve estar nos clubes de vídeo.... (Eu "não" faço downloads, mas também está disponível aí..., por aí)
quinta-feira, abril 08, 2010
À boa moda portuguesing :)
Ao ver isto …
… não pude deixar de me lembrar disto …
Caso para dizer:
Inspirating!
… não pude deixar de me lembrar disto …
Caso para dizer:
Inspirating!
''Doing things differently leads to something exceptional''
É a mensagem de mais um fabuloso anúncio da Absolut Vodka.
I wonder: porque é que as melhores publicidades são justamente a bebidas alcoólicas?
I wonder: porque é que as melhores publicidades são justamente a bebidas alcoólicas?
terça-feira, abril 06, 2010
segunda-feira, abril 05, 2010
Uma música, uma história ...Dentuças & Orelhudo feat. Coelhinho da Páscoa
Era uma vez dois Coelhinhos da Páscoa feitos de Chocolate de Leite: o Dentuças e o Orelhudo. Ambos eram amigos e viviam na prateleira do expositor de Páscoa do Modelo de Chelas.
O Dentuças era o mais falador, passava horas seguidas a conversar para todos os outros coelhinhos da prateleira.
- Ei, ó malta! Ouvi dizer qu’este ano ‘tá tudo na expectativa d’ir passar a Páscoa a casa da Fátima Lopes! Isso é que era baril!» - disse o Orelhudo, o coelho mais cusco da prateleira e com as orelhas mais antenadas sempre receptivo às novidades.
- Baril?! Fisga-se, a tipa é meio dread, com aquele cabeço preto cortado à tigela à frente e à Morticia Adams quem vê de costas! Eu cá ficava cá todo a tremer de medo. A casa dela deve ser só cenas satânicas e tal, aposto que nem o compasso se atreve a tocar à campaínha!» - respondeu o Dentuças, enquanto se imaginava a trincar as cenourinhas que estavam dispostas no corredor bem mesmo à sua frente.
- Ei, pá, não é dessa que ‘tou a falar! É a do ‘’Modelo por perto, tudo certo!’’! A gaja da TV, a que a era das manhãs e passou p’as tardes! A que faz montes de publicidade. Aquela do Perdoa-me e do All You Need is Love que tinha um corte de rapaz à guna mas que todos diziam ser a ‘bomba’ da SIC..
- Desculpa lá, ó Orelhudo! Como queres que saiba essas tretas, man!? Eu fui fabricado nem fez dois meses e queres que saiba essas cenas todas do antigamente? Se não fosse o expositor das revistas estar aqui no campo de visão da prateleira eu nem sabia quem era o Modelo, pá!
- És mesmo inculto… Bom, diz que este Ano a coisa está complicada para o nosso lado. É que os putos agora preferem os Ovos de Chocolate da Hanna Monta-todas e dos Carrinhos, do Nódinhas, e essas tretas. Ficam fascinados com a embalagem, querem é o presente que lá vem dentro e depois nem ligam ao chocolate.
- Óh! Isso são boatos, ó Orelhudo! Tu ouves mais do que aquilo que devias e depois misturas tudo… Não ligam ao chocolate!? Quem é a criança que é capaz de resistir ao melhor chocolatinho de leite? Ainda por cima, a coelhinhos fofinhos como nós?
- Pois é, mas é o que tenho ouvido por aí. Aliás não achas estranho que ainda não tenham feito reposição da nossa prateleira? A esta altura, véspera de Páscoa já devíamos estar na prateleira de uma casa qualquer e não aqui enfiados.
Estavam os dois coelhinhos de chocolate em amena cavaqueira quando de repente, passa uma velhinha corcunda e, de uma só enfiada, pega nos dois pelas orelhitas e os enfia no carrinho de compras! Dali ao tapete de compras foi um instantinho, passaram no leitor de código de barras – ‘’Ai que isto queima, puxa!! – e foram parar ao saquinho de plástico.
Dentro do saquinho de compras da velha, comentaram:
- Topaste que tínhamos desconto de 50% em cartão, meu tono? – ripostou o Orelhudo.
- E daí? Tu é que estavas todo pessimista e como vês fomos comprados! – respondeu o Dentuças.
- És mesmo totó. Temos desconto para sermos vendidos mais facilmente. Eu tinha razão. Os ovos não tinham desconto nenhum e vendiam como cachorros quentes depois de uma ida à disco-night!! – rezingou o Orelhudo.
- Ó, tu és mas é um Kalimero, sempre a queixares-te da vida! Vais ver que teremos uma Páscoa rodeada de crianças gordas e gulosas, como se quer! – disse, confiante, o Dentuças…
Chegados ao dia de Páscoa, estavam os dois amigos roedores pousados em cima da mesa de almoço da velha. Estranhando que a velha tivesse almoçado sozinha, Dentuças desistiu do seu amuo para com Orelhudo e comentou baixinho:
- Orelhudo, não aparece cá mais ninguém?
Orelhudo olhou para Dentuças e respondeu, ainda bastante amuado:
- Mais ninguém?! Já viste a quantidade de crianças gordas e gulosas que estão aqui, todas a disputarem-nos entre si? Eu já te disse que fomos tramados pelos Ovoso da Páscoa! Ninguém quer saber de Coelhos, pá!
Enquanto terminava de almoçar, a velha foi até à cozinha, fez um chazinho de cidreira e trouxe-o para a sala.
Sentou-se na sua poltrona e ligou o televisor. Estava na RTP, mas ela pegou no comando e colocou na SIC Gold, um canal revivalista. Curiosamente, estava a passar uma repetição do programa ‘’Perdoa-me’’ apresentado por Fátima Lopes.
- Aiii, que rico programinha para esta tarde pascal. Bem me disse a Gertrudes na quermesse que a Fatinha passava na SIC Gólde. Que riqueza, tão cachopa que ela era!
Aterrorizados, Dentuças e Orelhudo rezaram para que aquele não fosse o seu fim quando viram a mão da velha a retirar a placa e a sorrir na sua direcção enquanto a outra mão os agarrava pelas orelhas. Foi apenas o tempo do diabo da velha os desembrulhar da prata e quando deram por ela as suas últimas palavras foram:

O Dentuças era o mais falador, passava horas seguidas a conversar para todos os outros coelhinhos da prateleira.
- Ei, ó malta! Ouvi dizer qu’este ano ‘tá tudo na expectativa d’ir passar a Páscoa a casa da Fátima Lopes! Isso é que era baril!» - disse o Orelhudo, o coelho mais cusco da prateleira e com as orelhas mais antenadas sempre receptivo às novidades.
- Baril?! Fisga-se, a tipa é meio dread, com aquele cabeço preto cortado à tigela à frente e à Morticia Adams quem vê de costas! Eu cá ficava cá todo a tremer de medo. A casa dela deve ser só cenas satânicas e tal, aposto que nem o compasso se atreve a tocar à campaínha!» - respondeu o Dentuças, enquanto se imaginava a trincar as cenourinhas que estavam dispostas no corredor bem mesmo à sua frente.
- Ei, pá, não é dessa que ‘tou a falar! É a do ‘’Modelo por perto, tudo certo!’’! A gaja da TV, a que a era das manhãs e passou p’as tardes! A que faz montes de publicidade. Aquela do Perdoa-me e do All You Need is Love que tinha um corte de rapaz à guna mas que todos diziam ser a ‘bomba’ da SIC..
- Desculpa lá, ó Orelhudo! Como queres que saiba essas tretas, man!? Eu fui fabricado nem fez dois meses e queres que saiba essas cenas todas do antigamente? Se não fosse o expositor das revistas estar aqui no campo de visão da prateleira eu nem sabia quem era o Modelo, pá!
- És mesmo inculto… Bom, diz que este Ano a coisa está complicada para o nosso lado. É que os putos agora preferem os Ovos de Chocolate da Hanna Monta-todas e dos Carrinhos, do Nódinhas, e essas tretas. Ficam fascinados com a embalagem, querem é o presente que lá vem dentro e depois nem ligam ao chocolate.
- Óh! Isso são boatos, ó Orelhudo! Tu ouves mais do que aquilo que devias e depois misturas tudo… Não ligam ao chocolate!? Quem é a criança que é capaz de resistir ao melhor chocolatinho de leite? Ainda por cima, a coelhinhos fofinhos como nós?
- Pois é, mas é o que tenho ouvido por aí. Aliás não achas estranho que ainda não tenham feito reposição da nossa prateleira? A esta altura, véspera de Páscoa já devíamos estar na prateleira de uma casa qualquer e não aqui enfiados.
Estavam os dois coelhinhos de chocolate em amena cavaqueira quando de repente, passa uma velhinha corcunda e, de uma só enfiada, pega nos dois pelas orelhitas e os enfia no carrinho de compras! Dali ao tapete de compras foi um instantinho, passaram no leitor de código de barras – ‘’Ai que isto queima, puxa!! – e foram parar ao saquinho de plástico.
Dentro do saquinho de compras da velha, comentaram:
- Topaste que tínhamos desconto de 50% em cartão, meu tono? – ripostou o Orelhudo.
- E daí? Tu é que estavas todo pessimista e como vês fomos comprados! – respondeu o Dentuças.
- És mesmo totó. Temos desconto para sermos vendidos mais facilmente. Eu tinha razão. Os ovos não tinham desconto nenhum e vendiam como cachorros quentes depois de uma ida à disco-night!! – rezingou o Orelhudo.
- Ó, tu és mas é um Kalimero, sempre a queixares-te da vida! Vais ver que teremos uma Páscoa rodeada de crianças gordas e gulosas, como se quer! – disse, confiante, o Dentuças…
Chegados ao dia de Páscoa, estavam os dois amigos roedores pousados em cima da mesa de almoço da velha. Estranhando que a velha tivesse almoçado sozinha, Dentuças desistiu do seu amuo para com Orelhudo e comentou baixinho:
- Orelhudo, não aparece cá mais ninguém?
Orelhudo olhou para Dentuças e respondeu, ainda bastante amuado:
- Mais ninguém?! Já viste a quantidade de crianças gordas e gulosas que estão aqui, todas a disputarem-nos entre si? Eu já te disse que fomos tramados pelos Ovoso da Páscoa! Ninguém quer saber de Coelhos, pá!
Enquanto terminava de almoçar, a velha foi até à cozinha, fez um chazinho de cidreira e trouxe-o para a sala.
Sentou-se na sua poltrona e ligou o televisor. Estava na RTP, mas ela pegou no comando e colocou na SIC Gold, um canal revivalista. Curiosamente, estava a passar uma repetição do programa ‘’Perdoa-me’’ apresentado por Fátima Lopes.
- Aiii, que rico programinha para esta tarde pascal. Bem me disse a Gertrudes na quermesse que a Fatinha passava na SIC Gólde. Que riqueza, tão cachopa que ela era!
Aterrorizados, Dentuças e Orelhudo rezaram para que aquele não fosse o seu fim quando viram a mão da velha a retirar a placa e a sorrir na sua direcção enquanto a outra mão os agarrava pelas orelhas. Foi apenas o tempo do diabo da velha os desembrulhar da prata e quando deram por ela as suas últimas palavras foram:

domingo, abril 04, 2010
Peso na consciência... o que é isso?
Acabo de "enfardar" dois Ferrero Rocher, duas natas e um brigadeiro juntamente com uma caneca de leite com chocolate. E soube-me tão bem. Agora, das duas uma, ou durmo como um bebé com a barriguinha cheia ou a coisa corre muito mal e passo a noite acordada e amanhã estou com umas olheiras de meter medo ao susto. Vou torcer para que seja a primeira.
E tudo isto porque é sempre bom beber um leitinho antes de dormir.
quinta-feira, abril 01, 2010
Reflexões para justificar o código 999 : )
Embora não seja espectadora assídua e ferranha da Novela Perfeito Coração, o facto é que costumo assistir a alguns episódios antes de passar a Viver a Vida, essa sim novela da qual me confesso algo viciada.
Como a novela é bastante básica e a trama se desenrola a passo de caracol em coma, é fácil apanhar quer a história, quer as 'imperfeições' da coisa.
Vejamos:
- existe uma personagem, escultora residente em Berna e amiga da sofredora central da tramóia, que, em todos os capítulos que eu vi, aparece no seu estúdio, vestindo os mesmos calções de ganga e a mesma camisola de alças e, curiosamente, a moldar a argila sempre recorrendo aos mesmos movimentos. Das duas uma: ou a cena foi gravada uma só única vez e foi repartida aos pedaços para ir usando cada um de quinze em quinze dias lá no meio da historieta (forma inteligente de não ter que remunerar a actriz por mais de um mês consecutivo) OU a actriz representa uma escultora que apenas tem uma peça que, por ser um sucesso fenomenal de vendas, tem centenas de encomendas e por isso tem que fazer centenas de réplicas ...
Quanto aos calções e à camisolita, posso sempre assumir que é uma escultora poupadinha e, ao mesmo tempo, não muito adepta do asseio pessoal...
- existe um atelier de arquitectura no qual 3 arquitectos e 1 engenheira trabalham alegremente numa única mesa de trabalho que faz lembrar as mesas da sala de jantar das nossas casas. Estiradores, cavaletes, réguas enormes e rolos gigantes de papel não se vêem em lado nenhum ... Apesar de estarem sempre a dizer que estão cheios de trabalho, os rapazes e raparigas são uns autênticos baldas! Sempre que acontece algo aborrecido basta-lhes enrugar ligeiramente a testa e dizer a seguinte frase: ''Não estou com cabeça para isto''. Seguidamente, perante o olhar bondoso do patrao do atelier, pegam na bolsa ou no casaco, pedem desculpa de forma sofrida e retiram-se.
O mesmo parece acontecer num outro contexto laboral retratado na novela - um Banco.
Mais uma vez, a frase 'Não estou com cabeça para isto' serve de pretexto a administradores e secretárias para dar o pisga do trabalhinho ...
Mesma coisa no salão de cabeleireiros... na mercearia, e no Café Gourmet! Neste último, a coisa é ainda melhor, porque a patroa é que aconselha a funcionária a ir embora, deixando-a com o trabalhinho todo para si: ''Madalena, tu não estás nada bem. Já vi que hoje não estás com cabeça para isto. Vai-te embora, que eu fico aqui a tomar conta do café''...e ainda lhe diz, a benemérita: ''Toma, pega nestes 100 eur e vai à consulta de psicologia que te vai fazer bem''.
E eu fico ali, em frente ao televisor, a papar aquilo e penso se essa não será a frase mágica a utilizar em dias como este, em que todos estão aqui corpo presente mas de mente ausente, a ansiar pelas seis e meia para irem emborita gozar o fim de semana prolongado.
Infelizmente, a realidade é diferente da ficção. Os patrões foram à vidinha deles e não só não mandaram ninguém para casa mais cedo como também nem desejaram Boa Páscoa. Se calhar eles é que não estão com cabeça para a coisa ... e foram arejar um bocadinho...
É, se calhar foi isso mesmo.
E agora desculpem, ''Não estou com cabeça para isto'' ;) Fui!
Como a novela é bastante básica e a trama se desenrola a passo de caracol em coma, é fácil apanhar quer a história, quer as 'imperfeições' da coisa.
Vejamos:
- existe uma personagem, escultora residente em Berna e amiga da sofredora central da tramóia, que, em todos os capítulos que eu vi, aparece no seu estúdio, vestindo os mesmos calções de ganga e a mesma camisola de alças e, curiosamente, a moldar a argila sempre recorrendo aos mesmos movimentos. Das duas uma: ou a cena foi gravada uma só única vez e foi repartida aos pedaços para ir usando cada um de quinze em quinze dias lá no meio da historieta (forma inteligente de não ter que remunerar a actriz por mais de um mês consecutivo) OU a actriz representa uma escultora que apenas tem uma peça que, por ser um sucesso fenomenal de vendas, tem centenas de encomendas e por isso tem que fazer centenas de réplicas ...
Quanto aos calções e à camisolita, posso sempre assumir que é uma escultora poupadinha e, ao mesmo tempo, não muito adepta do asseio pessoal...
- existe um atelier de arquitectura no qual 3 arquitectos e 1 engenheira trabalham alegremente numa única mesa de trabalho que faz lembrar as mesas da sala de jantar das nossas casas. Estiradores, cavaletes, réguas enormes e rolos gigantes de papel não se vêem em lado nenhum ... Apesar de estarem sempre a dizer que estão cheios de trabalho, os rapazes e raparigas são uns autênticos baldas! Sempre que acontece algo aborrecido basta-lhes enrugar ligeiramente a testa e dizer a seguinte frase: ''Não estou com cabeça para isto''. Seguidamente, perante o olhar bondoso do patrao do atelier, pegam na bolsa ou no casaco, pedem desculpa de forma sofrida e retiram-se.
O mesmo parece acontecer num outro contexto laboral retratado na novela - um Banco.
Mais uma vez, a frase 'Não estou com cabeça para isto' serve de pretexto a administradores e secretárias para dar o pisga do trabalhinho ...
Mesma coisa no salão de cabeleireiros... na mercearia, e no Café Gourmet! Neste último, a coisa é ainda melhor, porque a patroa é que aconselha a funcionária a ir embora, deixando-a com o trabalhinho todo para si: ''Madalena, tu não estás nada bem. Já vi que hoje não estás com cabeça para isto. Vai-te embora, que eu fico aqui a tomar conta do café''...e ainda lhe diz, a benemérita: ''Toma, pega nestes 100 eur e vai à consulta de psicologia que te vai fazer bem''.
E eu fico ali, em frente ao televisor, a papar aquilo e penso se essa não será a frase mágica a utilizar em dias como este, em que todos estão aqui corpo presente mas de mente ausente, a ansiar pelas seis e meia para irem emborita gozar o fim de semana prolongado.
Infelizmente, a realidade é diferente da ficção. Os patrões foram à vidinha deles e não só não mandaram ninguém para casa mais cedo como também nem desejaram Boa Páscoa. Se calhar eles é que não estão com cabeça para a coisa ... e foram arejar um bocadinho...
É, se calhar foi isso mesmo.
E agora desculpem, ''Não estou com cabeça para isto'' ;) Fui!
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