segunda-feira, maio 03, 2010

Cortar o mal pela raíz

Acordo de repente. Não ouvi o despertador. Será que me esqueci de o ligar ontem à noite antes de me deitar? Não me recordo de o ter feito. Não me recordo de não o ter feito. Olho para o lado direito e na mesinha de cabeceira o despertador marca 09h38m. A luzinha do despertador está acesa e marca as 7h. Não consigo perceber. Tento orientar-me na escuridão. Apesar de a manhã já estar esplendorosa as grossas cortinas protegem-me da luz. Odeio acordar com a luz nos olhos. Dá-me uma má disposição para o dia todo. Levanto-me e decido de imediato que não estou ainda dotada de todas as minhas capacidades. Preciso de um duche rápido e de um café forte. Meia hora depois estou a sair do apartamento. A brisa que se faz sentir bate-me nos cabelos molhados e faz-me arrepiar. Um dia destes corto o mal pela raiz. Usei o cabelo longo durante os primeiros anos da minha infância. Depois, sem motivo aparente nenhum, a minha mãe decidiu que um corte à tigela estava na moda. Voltei a deixá-lo crescer. Com variações de mais ou menos comprido, fui tendo cabelos longos até entrar na Faculdade. No segundo ano decidi cortá-lo curtinho. Um corte à Maria rapaz. Nos anos seguintes foi crescendo e sendo cortado. Tive vários cortes e penteados, mas o tamanho nunca desceu abaixo dos ombros. Depois conheci o M. Um dia enrolados um no outro, sussurrou-me: “O teu cabelo está mais comprido. Devias deixar crescer ainda mais. Fica-te bem. ” Desde então que nunca tenho cortado mais que uns meros centímetros de cada vez. Quase que a justificar a ida ao cabeleireiro. Cheguei ao meu carro estacionado no fundo da rua. Ouço risos e gritinhos vindos do outro lado da rua. O pátio da escola primária, cheio de crianças que brincam descontraídas. Está um sol tímido, mas quentinho. Sol de Abril. A brisa volta a fazer-me arrepiar. Tenho mesmo de tratar de deste cabelo. Sem paciência para o secar, não posso andar sempre com ele molhado. Abro a porta do carro e mal entro sinto logo o calor do seu interior. Ligo o carro, espreito pelos espelhos e arranco em direcção ao cabeleireiro.

Se quiserem escutar a música de fundo está aqui.

2 comentários:

Li disse...

Cuidar de nós é um gesto de amor-próprio.
Gostar de nós devia ser um gesto tão natural quanto a sede.
Infelizmente, alguns esquecem-se disso...
Penso que o cortar o mal pela raíz passa por aí: cortar as ervas-daninhas que por vezes ameaçam o jardim da nossa auto-estima.

No que me diz respeito, acho que tenho sido boa jardineira :)


(bonito o texto)

Li disse...

Amanda mais escritos, que cá a Li adora :)