sexta-feira, maio 28, 2010

Day One

Abrir os olhos após um sono profundo e constatar que se está em NY City é como se alguém se tivesse virado para nós e nos desse a notícia: «Acabaram de ganhar o Euromilhões!» de tanta felicidade que se sente!
A novidade e a ansiedade de partir à descoberta são os melhores estimulantes que existem, porque não foi preciso qualquer despertador e, ainda que tivéssemos dormido escassas horas , estávamos frescos que nem alfaces!
Apesar do ponto de encontro no pequeno-almoço estar combinado para as oito e meia da manhã, fizemos questão de acordar mais de uma hora antes para desfrutar tudo aquilo que aqueles escassos metros quadrados de quarto poderiam oferecer. A este momento, um sorrisinho maroto desenha-se provavelmente nas vossas caras. Pois bem, nas nossas caras esse sorriso era rasgado e super feliz!
Abrir as grossas cortinas e deixar entrar a luz pelo quarto adentro, olhar em frente e espreitar para cada janelinha dos prédios em frente e deixar-me ali estar como voyeur por uns instantes a imaginar o dia-a-dia daqueles anónimos, era fabuloso.
Enquanto tomávamos um duche, escutávamos as notícias na televisão: relatavam o estado caótico dos aeroportos europeus e falavam no caso português, com todos os voos cancelados.
Tinha sido mesmo por um triz! No dia anterior, percebêramos que as coisas estavam a complicar-se e que a nuvem de cinzas estava a ameaçar deixar muita gente em terra.
A sorte estivera connosco, havia que admitir e, por isso, era bem que aproveitássemos ao máximo!
Ao descer para o pequeno-almoço, o elevador foi parando em vários andares e é curioso que, se cá não existe um comportamento uniforme de cumprimentar as pessoas quando se entra ou sai de um elevador, lá verifiquei que não só se saúdam as pessoas como se começam animadas conversas matinais:
«Hi! Going downstairs?» - uma simpática velhinha pergunta, enquanto entra no elevador acompanhada de mais quatro amigas.
«Yes, we are» - respondemos e calamo-nos, caladinhos como se faz cá na nossa terrinha.
«Oh, your shirt is lovely!» - diz-me ela na maior das naturalidades.
«Oh … actually is a dress …» - respondo eu, contorcendo-me logo a seguir pela resposta estúpida que acabara de dar face a um comentário tão simpático.
É outro hábito da nossa terrinha: não estamos habituados nem a conversas de elevador com desconhecidos, nem a elogios rasgados e espontâneos.
Ela pareceu não se importar muito e continuou a falar comigo: «Well, it’s very nice. It looks very comfortable »
«Thank you, I like it too». – respondi.
Entretanto, não houve tempo para maior confraternização, porque chegáramos à sala de pequenos-almoços.
E que sala! Frutas frescas laminadas e variadas entravam em grandes travessas, havia copos de plástico com a tampinha ‘’à Starbucks’’ para podermos servir-nos de café e leite. A variedade de pães e muffins era enorme e havia ainda os típicos croissants e cereais de pequeno-almoço.
Mas, o que fazia as nossas delícias matinais eram mesmo os iogurtes com cereais e fruta à mistura. Chegavam em copinhos de plástico transparente, fechados e, assim que a funcionária os colocava na mesa comprida era ver toda a gente das mesas em redor a levantar-se e a, de forma elegante mas apressada, tentar agarrar dois ou três daqueles iogurtes deliciosos!

De pequeno-almoço tomado e já cá fora, tempo de marchar até ao Museu de História Natural. Nas ruas via-se pouca gente. Era cedo, era domingo e de certeza que muita gente se estaria ainda a deitar depois da farra nocturna. O frio era cortante, pelo que o casaco andava sempre com as golas levantadas. Rapidamente, o batom de cieiro tornou-se no nosso melhor amigo. As ruas são, ao contrário do que imaginava, muito largas pelo que os arranha-céus não parecem tão ameaçadores, nem impedem que a luz do sol apareça.
Para chegarmos até ao Museu, tínhamos que apanhar o Metro. Se a Nova Iorque à superfície é bonita e moderna, no sub-solo a coisa perde completamente o glamour. A estação era velha, com as entranhas à mostra: tubagens velhas e apodrecidas, ferrugem e pinturas a estalar em todo o lado. As bilheteiras parecem autênticas casas fortes. Do outro lado de um vidro espesso está uma pessoa que nos fala por um intercomunicador. Dois pensamentos imediatos: isto deve ser perigoso e daí a fortaleza e, logo depois, um dia ou noite inteiros enfiado naquele cubículo subterrâneo, benza Deus!
Entender o mapa do metro e todo o emaranhado de ligações não é fácil. Não é tão intuitivo e imediato como, por exemplo, o Tube londrino.
A caminho do museu não pudemos deixar de nos rir com o apelativo cartaz colado no interior.
A acompanhar a imagem de uma família sorridente – pai, mãe e filha abraçados – com um táxi amarelo por detrás, aparecia o slogan: «Come to Manhattan and have a great life parking cars! e, mesmo ao lado, a respectiva tradução hispânica. E, por baixo enunciava as regalias associadas. Não só um salário, como gorjetas, prémios mensais e seguros.
-Olha, o Rui Rio ainda não sabe disto de certeza que ele ia ter logo o problema dos arrumadores resolvido! Recambiava-os logo para cá! – não pudemos deixar de comentar e sorrir com aquilo.

Chegados ao Museu de História Natural, compramos facilmente os bilhetes e acedemos, em conjunto com várias famílias e muitos pequeninos, a um Mundo fantástico em que a origem das espécies e da vida nos vai sendo relatada de forma imponente. Desde a formação das galáxias, até às espécies animais e vegetais e povos de todo o Mundo, tudo está lá para ver em e, muitas vezes, à escala real. É impossível relatar tudo o que se vê num Museu, porque há muita coisa que a retina não consegue apanhar, ora porque o tempo não permite, ou porque o interesse nos foge para outra direcção. Mas posso dizer que imperdível é a sala onde está representado o homem primitivo, desde a sua origem e evolução através dos primeiros tempos e que outro grande momento é passado na famosa Sala que alberga as ossadas dos grandes dinossauros. Para quem viu o filme ‘’Uma noite no Museu’’ esta Sala é a mais familiar. Para além da grandiosidade dos dinossauros, é impossível deixar de ficar fascinado com as citações inscritas nas paredes, todas elas proferidas pelo Presidente Roosevelt. Fotografei quase todas mas estas foram as minhas favoritas:
«Youth: I want to see you game, boys, I want to see you brave and manly, and I also want to see you gentle and tender. Be practical as well as generous in your ideals. Keep your eyes on the stars and keep your feet on the ground. Courage, hard work, self-mastery, and intelligent effort are all essential to successful life. Character, in the long run, is the decisive factor in the life of an individual and of nations alike.». É incrível como as palavras são tão actuais! Até ao final do dia, aquela frase bailava na minha mente: Keep your eyes on the stars and keep your feet on the ground.
À saida, ficamos com a sensação de que o Museu é fantástico e que, para qualquer criança, é uma excelente e gigantesca sala de aula! No entanto, há salas em que já não valorizamos tanto porque já tivemos oportunidade de ver as coisas em carne e osso, como é a da selva. É nesses momentos que nos lembramos e somos relembrados, maliciosamente pelos nossos companheiros de viagem, das nossas aventuras e desventuras passadas há quase dois anos no dorso de um elefante!
Tempo de seguir para o Metropolitam Museum of Art ou, simplesmente, Met. A entrada é logo majestosa, com uma enorme escadaria. Muita gente a subir e a descer fizeram-nos desconfiar que comprar bilhetes seria uma tarefa difícil mas não! Visitar o Met é um desafio longo, porque tudo tem interesse! Para além disso, é também uma grande caminhada! No entanto, o que ficou retido como algo imprescindível são as salas egípcias que tem um recorte de uma pirâmide em que vale a pena entrar para ver as fabulosas pinturas. Fantásticos são também os sarcófagos e toda a arte egípcia que nos deixa boquiabertos perante a sua minúcia e beleza. A área dedicada à Grécia é também avassaladora, mais uma vez com representações fantásticas e in loco da arquitectura e estatuária gregas.
Em cada sala e corredor vai nos sendo contada um pouco da História da Arte de todos os povos (grego, egípcio, islâmico, africano, americano, asiático, medieval, …) até aos nossos dias, embora a Arte Contemporânea em todo o seu esplendor estive reservada para ver no MoMa (Museum of Modern Art). Há salas maravilhosas e os quadros dos grandes nomes estavam lá. Curiosamente, Picasso estava em destaque quer no Met quer no MoMa. Entre os dois Museus, é difícil de escolher um preferido. O MoMa foi uma experiência mais familiar, porque a colecçção é muito semelhante à que se vê na Tate Modern e o espanto da novidade já tinha sido experienciado lá. Porém, a modernidade de um acaba por ser tão fascinante como a antiguidade do que o outro expõe, por assim dizer. E perder uma visita a estes dois Museus é deixar riqueza fugir entre os dedos. É cansativo? É, sobretudo para as pernas e pés. Mas vale cada bolhinha do pé!
E depois de alimentada a mente, tempo para alimentar o corpinho! A escolha do local foi ao acaso. Foi, no entanto, muito feliz, porque acabamos por escolher uma simpática pizzaria perto da Madison Avenue (uma zona residencial abastada e muito recatada de Manhattan). Muito ao estilo de um Al Forno de cá, as pizzas e calzones são feitas à frente do Cliente e a carta é, para quem é amante como nós da cozinha italiana, uma verdadeira tentação!
Entre conversas, risos, pizza, amor e alguma fantasia lá recuperamos energias e partimos em direcção ao Central Park!
Entrar no Central Park é entrar noutra dimensão. É chegar e assistir a uma explosão de verde! Os jardins são gigantescos e muito bem tratados. Havia imensa gente a jogar softball, a namorar, a fazer jogging (como eu imaginava!), a passear (como nós) ou nas esplanadas. É engraçado ver os esquilos a correrem frenéticos de um lado para o outro em busca da sua bolota. Como fazia frio, alguns tinham-se lembrado (e bem!) de levar a bela da mantinha de casa e estavam enroscadinhos e quentes a escutar a grande banda que espalhava música naquele ambiente de pura tranquilidade. No bom tempo, fazer um pic nic no Central Park deve ser uma experiência imperdível mas contentamo-nos em apenas passear. As famosíssimas pontes pedonais logo surgem e lembram-nos logo cenas de filmes como o Home Alone ou outros. Mais uma vez, a imagem era familiar. Passamos por um enorme lago onde boiavam pequenos veleiros controlados à distância por pessoas que estavam na esplanada. Continuávamos a caminhar quando nos apercebemos de um grupo de pessoas vestidos com um estilo rap a chamar as pessoas para se juntarem a eles. No chão, estava um rádio leitor de cassetes daqueles antigos que passava Michael Jackson. Chamavam-nos porque o espectáculo ia começar e pediam-nos que nos sentássemos a assistir. Curiosos, fizemos a vontade e valeu a pena tê-lo feito. À nossa frente, um grupo de seis adultos e um miúdo dançaram até se fartar e foram fenomenais. Iam interagindo com o público e dizendo piadas. Tudo com uma qualidade que nos deixou incrédulos. No final, pagamos o que quisemos. Foi mais que justo! Aplaudimos com vontade!
Já a caminhar de regresso ao Hotel, para descansar um pouco e preparar-nos para Jantar, fizemos o balanço de um dia cheio de imagens e sensações. Um dia já tinha passado e depressa e isso dava ainda mais vontade de aproveitar cada bocadinho, antes que o sonho terminasse!

1 comentário:

Maria disse...

A tua descrição é-me tão familiar. Apesar de nunca ter ido a NY, muitas das coisas que descreves são tão típicas de Londres. Os parques imensos, onde os esquilos andam a correr atrás de comida. Parques imensos, repletos de pessoas que lhe dão uma vida especial. E museus fabulosos imensos, repletos de arte e de relíquias que nos transportam no tempo como caixas mágicas. Museus onde andas tanto que ficas com bolhas nos pés. Até os iogurtes com cereais nos copinhos de plástico transparentes. Curioso, se calhar, Londres e NY são irmãs!!!!