domingo, novembro 05, 2006

Um texto levemente (ou bastante até) aparvalhado…, olhem, Sei Lá!

Desfolho a revista do jornal de domingo e lá encontro notícia de um novo livro da dita senhora que, dizem uns, veio reanimar as vendas de livros em Portugal e, dizem outros, ressuscitar hábitos de leitura de uns tantos portugueses. Alguns atreveram-se a repescar termos associados a produtos alimentares para caracterizar o bizarro fenómeno que designaram por literatura light. Ora advogam estes que o elevado consumo súbito de livros escritos por esta senhora se deve ao facto de a sua escrita ser intrinsecamente leve, light, portanto. Assim o seria porque em primeiro lugar , tal como os produtos alimentares, estas histórias se encontram à venda em grandes superfícies. As suas histórias seriam pois - acrescento eu de forma humilde - mais apetecíveis uma vez que deixariam o leitor com menos peso de consciência de cada vez que devorassem um livro, dado que este seria menos calórico do que um ensaio de Saramago, uns versos de Pessoa, ou até um romance de Sousa Tavares.
Numa altura em que as taxas de obesidade começam a ser alarmantes no nosso país e em que proliferam campanhas que visam promover a adopção de hábitos de vida mais saudáveis é pois mais do que natural consequência que uma literatura que possa ser consumida de forma menos pecaminosa por parte do leitor, constitua uma desenfreada corrida às prateleiras do supermercado antes que tal miraculoso lenitivo esgote!!
Observando estes livros, encontramos de facto diversos atractivos que inegavelmente os tornam quase que objectos de pura gula para os potenciais transeuntes do supermercado e grandes superfícies. Ouçamos um relato:

- Ora eu no outro dia, ia descansadinha da vida com o meu carrinho cheio de coisas saudáveis como iogurtes 0% de gordura, carnes brancas, leite de soja, e etc e tal, quando entro, inadvertidamente no corredor da ficção que fica mesmo ao lado dos farináceos. De repente, sou violentamente atraída por aquela prateleira cheia de cor. Um amarelo forte, a evocar a luz solar, reluzia por toda aquela extensão! Aproximei-me fascinada e, no meio de pessoas estarrecidas como eu, lá consegui alcançar um dos exemplares. Agarrei-o como se fosse o Santo Graal. As letras eram lindas, com um azul vivo a evocar os oceanos cheios de corais… O título esse, era exótico, ao mesmo tempo, metafísico: «Sei Lá, Pá!». Tacteei o livro; as letras grandes em relevo, eram agradáveis ao toque. Todo ele era um livro bonito, daqueles que dá gosto ter por perto numa mesa de café ao lado do telemóvel Nokia última geração. Fechei, por uns momentos os olhos e pensei, enquanto apertava o livro contra o peito que aquele seria o livro ideal para o meu Verão devido à perfeita sintonia cromática! O mar azul a bater com as letras grossas e chamativas, e o imenso amarelo a condizer com toda a envolvente: o sol, o meu pareo, o bikini e, imagine-se, até a minha toalha!! Se não fosse uma praia de origem vulcânica, até com a areia batia!!
Despertei. Abri os olhos e não pensei mais: ‘É meu, gritei!’, extasiada.
Corri desenfreada para a caixa, deixando para trás meia lista de compras por fazer. Mas não interessava. Aquilo era tudo naquele momento. O preço…nem sei. Até isso é light, nem se nota no total do talão que vem misturado com as restantes compras. Mas que importa? É impagável a sensação de ter um livro destes.

Passado uma semana, reencontramos a mesma personagem. Ouçamos o relato, quando lhe perguntamos se gostou do que leu:

- Ah sim, adorei este livro. Logo quando li a primeira página na esplanada da praia, fui abordada por um rapaz giríssimo que, curiosamente, tinha o nome da personagem deste livro, Diogo Francisco Dinis Gonçalo Bernandes de Souza! Foi giríssimo,porque ele disse-me:
- Olá, a menina está a ler um livro fabuloso, deixe que lhe diga…Como se chama?
Ao que eu respondi completamente fora de mim com tanta beleza num metro e noventa:
- Sei Lá, Pá!


Mas depois, não sei que se passou que ele deixou de ser simpático e ficou furioso e foi embora…Talvez a sanduíche americana estivesse com a maionese estragada, não sei. Mas foi o máximo! E por isso desde esse dia que não largo este livro. Leio uma página por semana e o melhor é que perdi até peso! Ando muito bem, mesmo! O livro é giríssimo, fica-me a matar onde quer que eu esteja porque as cores da capa estão supé na moda e mais! Não sinto nenhuma dor de ombros ou de braço, porque é ultra-leve!! Nunca gostei tanto de ler como agora!!

Este é o relato que melhor espelha, julgamos nós, este fenómeno, esta massificação das vendas de livros desta senhora. Cores de capa baseadas nas tendências da estação, gramagem de papel inferior á dos livros da dita literatura ‘pesada’ e, acima de tudo, não engorda os neurónios evitando sinapses desnecessárias. E ainda por cima, como é light, é uma óptima luz de presença pois brilha no escuro!

Penso que este novo livro será um sucesso de vendas tal como os seus precedentes. Passado uns momentos, dou por mim a escrever este texto verdadeiramente estúpido, ligeiramente despropositado e inútil e penso na remota possibilidade de que talvez se lhe vestisse uma capa colorida garrida com a última fonte de design exclusivo, comigo na contracapa a exibir um penteado irrepreensível, pendurado numa prateleira de supermercado, ao lado das chicletes Adams de mentol com um título tão desconcertante como ‘Tá visto!’ ou ‘Alma de Avestruz’ ou até mesmo um ‘Artista de Paredes’ , eu pudesse ser tão fenomenal como a dita senhora.
Páro e só digo enquanto ponho término a este acesso de insanidade: será que vendia mesmo? Olhem, Sei Lá!!

3 comentários:

Bilha disse...

Isto é música para os meus ouvidos!!

Já não se fazem cronistas destas!! Adoro ler-te, sentir-te, ...
És o máximo meu amor...

Um dia essa MRP lá irá para onde as pague!

ILY,
Bilha

Ivana disse...

"Cá estamos", poderia ser o título. Ou "Sou feliz por ser mulher", ou "Como porque tenho fome". Enfim, um mundo inteiro de possibilidades abre-se à tua frente.

Não te esqueças dos sapatos de berloques num dos personagens. Fica super fashion.

Maria disse...

Olhe amiga, não sei que mais lhe diga.. já muito falamos sobre essa senhora, mais do que o que ela merece, sabe?

Mas tem razão na reflexão que faz... é pertinente questionar os pobres e débeis hábitos de leitura deste povo lusitano!

Olhe sabe que mais?
É mesmo caso para dizer: Sei Lá! Sabe lá ela alguma coisa? Não, acho que não!

Olhe e sabe mesmo que mais? O seu post deixou-me assim: desprovida de conteúdos!! Ou antes, não creio que tenha sido a menina... foi assim um ar que me deu!!!

Olhe vou-me encher de cultura e inspiração e depois volto cá!!!

A ver se sei o que lhe diga!!

Para já só lhe tenho a dizer: Sei lá!