terça-feira, novembro 21, 2006

Maria

Caro Luís,

A Maria desapareceu. Há duas semanas que não recebo um telefonema dela nem sequer uma mensagem. Tinha razão meu amigo.

Ela vai sair da tua vida com a mesma rapidez com que entrou. E tu não estás a fazer nada para não sofrer com isso Afonso!

Não quis saber das suas palavras naquele dia. Disse que não compreendia porque dizia isso. A Maria era absolutamente adorável.

A Maria é fatal Afonso. Ela vai sugar o que tu tens de melhor e quando acabar serás um trapo.

Saí do café sem querer ouvir mais. Penso que percebeu como o evitei nas semanas seguintes no golfe, no clube e nos jantares semanais da Carminho. Não conseguia deixar de pensar que me invejava a sorte de ter encontrado alguém como a Maria. Cheguei a imaginar que desejava Maria e que aquele seu discurso era para me fazer afastar dela. Agora, quando já é tarde demais, percebo que via o que os meus olhos cegos de paixão não distinguiam.

A Maria sempre foi muito misteriosa: nunca me deixou ir a casa dela, nem tão pouco um número de telefone fixo me deu - apenas falávamos por telemóvel. Ela dizia que não tinha telefone em casa e ficávamos sempre no meu apartamento: Porque tem uma vista tão linda para o mar, Afonso. Prefiro acordar e poder vê-lo. Para mim só importava acordar ao lado dela. Senti-la deitada ao meu lado, depois de uma noite misto de loucura, paixão e serenidade. Sim, eu sentia serenidade ao vê-la dormir (ela adormecia sempre primeiro e acordava sempre depois – como gentileza das minhas insónias via-a dormir).
Será possível confundir serenidade com frieza? A calma que ela transmitia era uma gélida indiferença perante quase tudo. Sim, agora percebo.

A Maria é fatal Afonso.

Sim, como o compreendo agora.
Mas como podia eu resistir à minha luz, ao meu norte, ao meu caminho? Acho que não mais encontrarei nada disso, Luís, meu caro. Só queria tê-la de volta. Não me importaria do preço a pagar. Toda a minha riqueza? Seria de quem me trouxesse Maria. As empresas, o apartamento com vista para o mar, a casa de campo, os cartões de crédito e os plafonds, e até as jóias de família. Renunciaria a tudo para ter Maria de novo nos meus braços.
Sinto-me perdido, amigo. Sei que estou.
Há dias o telefone tocava sem parar. Acho que continua a tocar, mas já não o ouço.

A minha irmã Rita passou cá.

Afonso tu tens responsabilidades. Esquece essa mulher maldita e volta à tua vida.

Mandei-a sair porta fora, mas não sem antes estalar o verniz entre nós, como o amigo costuma dizer em tom de brincadeira.

Quem és tu para me falar de responsabilidades? O pai sempre te deu tudo. E quem é que gere as empresas das quais recebes confortáveis dividendos todos os anos? Eu e o teu marido corno?
Oh Rita, não faças essa cara de senhora respeitável insultada na sua integridade. Toda a gente sabe que tens amantes!

Tu estás a abusar, Afonso. Eu vim aqui oferecer a minha ajuda. Não ser insultada. E tudo isto por causa dessa mulher vulgar!

Sai Rita. Ao menos eu assumo. Algo que tu nunca fizeste.

Já não ouvi a resposta. Expulsei-a daqui para fora. Fiz o mesmo com todos os outros que cá vieram. Não foram assim tantos.
Olho o mar, e penso nela. Ela era fatal, Luís. Mas entende que era precisamente isso que eu amava nela?

Rebelde e indomável foi a aproximação dela:

Desculpe mas o seu tabaco está a incomodar-me!
Minha senhora peço desculpa, mas estou na área do clube reservada a fumadores.
Sim, de facto. Mas esta é a melhor vista que se tem para os jardins. E não pretendo desfrutar dela com o seu tabaco a incomodar.


Foi impossível não me apaixonar por aquela morena de olhos esverdeados, lábios vermelhos (sim, já sei o cliché do pecado) e nariz empertigado. Lembro-me das pernas cruzadas dentro da saia preta, justa, até ao joelho. Deliciosamente tentadoras. O tempo todo que falei com ela só pensava naquelas pernas enroladas à volta do meu corpo. Horas mais tarde ela adivinharia esse meu desejo.

Maria onde estás? Para onde foste mostrar teus encantos? Sei que não voltas e que nunca mais te verei. Sei-o porque quando encontramos a minha última ex-namorada num dos jantares da Carminho tu disseste com desdém:

Não permito que ex’s fiquem na minha vida a puxar-me para o passado.

Mas a Ana não me puxa para o passado. Simplesmente fez parte da minha vida.


Afonso meu querido eu adoro-o, como sabe. Mas fique a saber que quando tudo terminar não mais me verá.

Gelei, mas a interrupção da Carminho não permitiu continuar. Nem Maria me deixou retomar aquele assunto mais tarde.

Luís, sabe porque não o ouvi?
Porque quando amamos, mais nada interessa que não o objecto da nossa obsessão. Sim, é isso meu caro estou obcecado por aquela mulher. O cheiro dela não sai da minha casa, da minha cama, da minha roupa nem tão pouco do meu corpo. Como é possível se a toquei pela última vez há duas semanas?

Sabe meu caro amigo, já nada interessa. Nem sequer me interessa saber que isto há-de passar.
Porque ninguém morre de amores! – Já dizia a minha saudosa mãe Dona Isabel.

Mas sabe meu amigo acho que me vou permitir ter uma excentricidade agora no final. Sempre tive tudo o que queria e sem pedir. Aliás, sem me esforçar, sequer. Agora apenas queria Maria. Não quero continuar sem ela. Não, nem que me diga que daqui a vinte anos estarei feliz com uma família. Esqueça... Prefiro acabar com essa lamentável imagem desde já antes que ela se comece a idealizar. Nestas últimas duas semanas apenas fui a um sítio: a casa de meu pai e directamente à estante da sala. Sim, meu caro é lá que meu pai tem a odiosa colecção de armas. Parece que finalmente lhe encontrei utilidade.
Curioso, como sabe aquele pedaço de sala sempre me fascinou. Seria o destino? Certamente que sim.

Caro Luís resta-me pedir-lhe perdão por toda a minha indelicadeza. O Luís sempre foi um amigo impecável. Desejo que tenha a vida que deseja. Peço-lhe perdão por ser o destinatário intencional desta última carta. Mas sabe, acho que ao longo da minha vida só você mesmo se importou comigo. O meu agradecimento!

Desculpe se tenho de me apressar, parece-me que já vejo Maria e que escuto a voz dela que me chama. Sabe, não resisto ao sussurrar dela!

Afonso, Afonso

Sim, ouço-a cada vez mais perto
Meu amigo afinal ela está por aí...
Até breve...

4 comentários:

Carminho disse...

Uou...

Este retrato de Maria femme-fatale que gera paixões e obsessões carnais e alta dependência é completamente inesperado.

Ao ler esta suposta 'Última carta' até nem acho tão surreal a componente trágico-amorosa do texto e do suposto desfecho (ainda que este seja implicitamente sugerido). Somos todos tão diferentes uns dos outros nas formas de sentir, de viver, de amar, de vestir,... que porque não?
Provavelmente andam por aí muitas Marias misteriosas que desaparecem sem deixar rasto...
Se antes eu até acreditava que todos queríamos basicamente o mesmo, apesar de os caminhos até lá serem necessariamente diferentes, agora acredito no oposto. Cada um que queira aquilo que quer. Mesmo que não faça sentido para ninguém, até mesmo para si mesmo.

(reparei na minha homónima na história. mas não, não sou eu. ainda n frequento clubes de golfe. confesso que já lá estive um par de vezes...mas não é faz de todo o meu género...há lá mto funo e as pessoas não se vêem com mta nitidez...)

Madalena disse...

Bem!!!!!

Gosto muito mais de finais felizes, mas muito mais mesmo!!!!

Mass bem sei que há finais mais trágicos como este, todavia, concordo com a senhora dona Isabel quando diz que não se morre por amor! Pode-se desfalecer, entristezer, passar mal, emagrecer, até engordar, mas morrer!

Desculpa lá Afonso mas fizeste uma grande asneira!

Aposto que a Maria também se vai passar com esta sua atitude menino. Coitado do amigo Luís que fico com a sua última carta, deve ser muito mau, ficar com uma carta de despedida de alguém.

Até.

Ivana disse...

"Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental - uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto - que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim. "

Escreve Fernando Pessoa na sua "Carta a Mário de Sá Carneiro".

E diz mais, quase no final:

"Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir? "

Quando te li pensei nisto mesmo, de que cor estaria a alma deste Afonso...

Maria disse...

cara ivana, a menina tocou no cerne da questão: a alma e as suas cores....

é isso... às vezes (muitas, demais do que devíamos suportar) deixamos de ver o arco-íris e a vida passa a ter apenas os tons cinza...

pobre Afonso!! ás vezes a vida é grande demais em tudo o que comporta.. e nós tão pequenos e frágeis.....