quinta-feira, novembro 16, 2006

Golden Opportunity

João é engenheiro civil. Tem cerca de trinta anos, anda lá perto. Nasceu, cresceu, formou-se enquanto pessoa a profissional na cidade do Porto. Bem nascido, nunca pensou muito em bens materiais, porque estiveram sempre presentes. só sentimos falta de algo quando não a temos e é bem verdade.
Foi isso que sentiu quando perdeu Joana, a sua companheira de sempre, há cerca de 3 anos e meio. Da mesma idade, conheceram-se através de amigos em comum. Joana formou-se em gestão de empresas numa conceituada Universidade também ela no Porto. No último ano da licenciatura partiu em Erasmus para Espanha; instalou-se na capital madrilena e lá ficou por doze meses. Partiu com o coração nas mãos, deixava João para trás no aeroporto, entre lágrimas e abraços já cheios de saudade e de expectativa sobre o futuro, sobre a relação.
Em doze meses, a vida pode dar um looping ...um salto triplo mortal e desarranjar-nos por completo os planos, ainda que esses planos se julgassem ser de pedra e cal. Vai-se a ver e os planos não nos pertencem. Apenas os sonhos nos pertencem e pode ser que esses coincidam com os planos que a vida tem para nós. Pode ser...
Em Madrid, Joana foi infeliz. Saudosa, não se adaptou às pessoas nem ao ambiente citadino. Muito menos à língua. Invadida por pensamentos de tristeza e de algum fatalismo, foi-se afundando num fosso em que a comida parecia ser o único conforto. Comia porque se sentia triste. Comia para esquecer, comia para recordar e comia para tentar enganar o tempo que parecia estagnado. Toda ela estava estagnada. Apenas se movia para os estudos, para o que a levara lá. Afastou-se de João, porque se sentia feia, porque não mais acreditava em si, nas suas qualidades, nas suas capacidades. Ficou evasiva aos telefonemas, às visitas.
João não compreendia o que se passava e a distância ia gerando mal entendidos. O pedido de socorro de Joana chegava distorcido a João e ele julgava que Joana deixara de o amar. Ainda chegou a ir lá visitá-la mas Joana foi (ainda que a muito custo) fria, distante. Achava que João havia de se afastar dela, que o melhor era assim, que ela só lhe ia fazer mal, que lhe ia dar somente tristeza, pois toda ela era tristeza, desilusão, fraqueza.
Até que o tempo afinal ditou o regresso de Joana. As mudanças nem haviam sido muitas. Fisicamente Joana estava um pouco mudada, maus hábitos alimentares – pensaram. Interiormente vinha um caco e isso não foi dúvida para ninguém. Joana chorava compulsivamente à mesa, no quarto, na sala, na rua, no carro. Libertava o que conteve sozinha durante 12 meses. Chorava de saudades de João, chorava de remorsos porque agora apercebia-se que ao invés de o ter afastado o devia ter chamado para junto de si, que a união faz a força e que a solidão nos corrói, nos deixa fracos.
João foi-se aproximando aos poucos. Um a dois telefonemas por semana, uma visita de quinze em quinze dias, um café, depois outro café, uma visita demorada lá a casa, um jantar e a reconciliação. O abraço forte e apaixonado aconteceu. Joana recuperara finalmente a auto-estima, a vontade e a alegria de outrora.
Encarou o mercado de trabalho com garra, determinação e logo conseguiu uma oportunidade numa firma conceituada. João estava também a dar os primeiros mas sólidos passos na sua área.
Quase meio ano depois aconteceu a notícia, a boa nova invadiu de alegria os pais, os familiares, os amigos: iam casar.
A cerimónia foi lindíssima. Com mais de 300 pessoas reunidas, com um fogo de artificio que tornou a noite em dia, como um conto de fadas - um dia inesquecível.
Se ao menos um dia todos pudessem ter uma porção de felicidade como a deles, não havia tristeza que sobrevivesse num único ser humano.
E assim se inicia a vida a dois, com horas para levantar, com horas para ir trabalhar. Mas as horas sabem melhor, passam melhor. Vamos trabalhar mas não vamos sós. Regressamos a casa cheios de energia, porque é lá que nos esperam, é lá que esperamos. É lá que acontecem os abraços, que se trocam as palavras mais doces, que se dorme abraçado, que se acorda com o calor do corpo da pessoa que para nós é tudo nesta vida. É lá que se partilham as coisas que não dizemos a mais ninguém. Que sussurramos palavras. Que deitamos e enxugamos lágrimas. Que nos tornamos melhores pessoas. Porque o amor adoça-nos e devolve-nos o sentido do que é verdadeiramente importante nesta vida.

Foi lá, em casa, que surgiu a notícia: proposta de ida para Angola, para acompanhar 3 das maiores obras locais. Uma oportunidade de ouro. Um excelente pacote remuneratório, uma alavanca excepcional na carreira. Tempo: 3 anos.
Três anos. Trinta e seis meses. Mil e noventa e cinco dias. Vinte e seis mil e duzentas e oitenta horas.
Surge a dúvida. Não se consegue decidir algo que implica três anos da noite para o dia.
Iniciam os diálogos. Valerá a pena, e o meu trabalho?, e onde viveríamos?, e o nosso apartamento? vender? continuar a pagar?, e o país?, e as doenças?, e se algo corre mal?, e eu encontrar lá emprego?, e vais mesmo ganhar isso tudo?, e o custo de vida?...
Nem todas as perguntas têm resposta. Algumas destas respostas seriam meras suposições, outras ficariam por responder. Mais uma vez, estavam ao sabor do tempo, só a passagem deste ia deslizando a cortina e desvendado respostas através de acontecimentos.

Mais um salto no tempo. João está numa obra gigantesca, coordena um projecto e uma enorme equipa de trabalhadores. Anda numa azáfama diária imparável, extremamente exigente. Mas está muito entusiasmado com tudo. Gosta imenso do que faz. Sabe que quando regressar a qualidade de vida irá aumentar exponencialmente. Mesmo que isso não aconteça (o que é pouco provável) está a viver uma fase de aprendizagem profunda. A adaptação foi relativamente fácil. Não é o único português.
E Joana?
Ah, Joana está uns kilómetros mais além, está na praia com um grupo de jovens esposas que também resolveram arriscar com os seus maridos e agarrar uma oportunidade que o acaso
lhes atirou ...O resto do dia, cuida de crianças num infantário.
Estão felizes, sabem que a união faz a força, e que a força que os move é o Amor que sentem um pelo outro.

1 comentário:

Maria disse...

.... a força que os move é o Amor que sentem um pelo outro .....

não há mais nada a dizer. por vezes há só uma coisa k faz sentido para nós e que é a única k não faz sentido para os outros: estar ao lado da pessoa amada! são esses os momentos que valema pena e que fazem a diferença nesta vida, porque nos mudam o caminho da vida.

grande amiga, como sempre estás lá!