terça-feira, julho 15, 2008

Regresso a Kathmandu e a Despedida

Na manhã seguinte, tomado o pequeno-almoço e já com Yeti à nossa espera para partir, fomos surpreendidos com uma comichão tremenda nos calcanhares. Tínhamos sido devorados por mosquitos sedentos. Ironicamente, na selva nem uma picada e ali, onde nada o fazia prever, fôramos impiedosamente atacados! Mas essa não foi de longe a maior preocupação. Com a estrada cortada, o agente local ligou-nos a informar que não regressaríamos de jipe como previsto e que tentaríamos arranjar um voo interno de ligação. Até aí tudo bem, não fosse a chuva torrencial. Tornava-se muito arriscado voar com aquele tempo e eles não sabiam ainda se a companhia iria cancelar os voos desse dia.
Como na tarde do dia seguinte regressaríamos a Portugal era imperativo que, por terra ou por ar, nos levassem de volta a Kathmandu. Porém, teríamos que esperar. E esperamos, esperamos ... Até que, no final da manhã e posta de lado a hipótese do avião, nos fizemos à estrada, a ver no que dava. O facto de existir um bloqueio fez com que a nossa viagem de regresso tivesse sido muito menos atribulada. Quase não havia carros na estrada. Aproveitamos para relembrar e fotografar alguns dos belos cenários pelos quais tínhamos passado. Pelo caminho, muitas crianças iam para a escola. Iam sós, apesar de muito pequenas.
E eis que chegamos ao ponto do bloqueio. Uma fila de camiões fritava ao sol. Homens e mulheres estavam sentados à beira da estrada. Lá à frente, uma corda feita com pneus impedia a passagem de viaturas. O clima, no entanto, era pacífico. Sem gritos, nem agitações. Estava parado, estava parado. Começamos a perceber que ali ficaríamos um bom pedaço até que, surpreendentemente, nos pediram para sair do jipe. Seríamos transportados por um outro jipe que estava do outro lado da ‘’barreira’’. Pensávamos em como foram inteligentes! Mais uma vez, a logística sem falhas! Prosseguimos então viagem, deixando para trás um cenário colorido do qual faziam parte umas quantas velhas nepaleses que fumavam vagarosamente a sua marijuana, uma das plantações de eleição da região e perfeitamente liberalizada.
A viagem foi rápida e entramos novamente na agitação citadina de Kathmandu. O corpo estava cansado e mole da viagem. No Hotel Everest fomos novamente acolhidos com a simpatia habitual. Chegados ao quarto, tudo parecia luxuoso! A memória das condições de Chitwan estava ainda fresca … A tarde estava já no fim, e a hora de jantar aproximava-se. A última refeição que fizemos no Everest foi no Restaurante Indiano. Uma iguaria picante composta por carne de porco e galinha, acompanhada por arroz e um pão achatado maravilhoso!
Aproveitamos para ler um pouco no lobby mas a concentração tornou-se impossível. À nossa frente, um grupo de indianas exibia no tapete, as múltiplas jarras e ornamentos de latão, cravejadas com pedras coloridas que haviam comprado nessa tarde. O consumismo não é só doença dos ocidentais, estava visto!



A Despedida do Nepal Exótico

Na manhã do dia seguinte, a última antes de partimos de regresso a casa, o lobby do Hotel cheio de pessoas. Tinha acabado de chegar um enorme grupo de indianos. Todos eles eram recebidos com um copo de sumo de frutas e com um sorriso. Seriam perto de quarenta ou até mesmo cinquenta pessoas. O certo é que encheram a entrada e só se viam malas por todo o lado.
Concluímos que existem muitos turistas indianos no Nepal com poder económico para se alojar nos melhores hotéis. Todos ostentavam ornamentos em ouro e movimentavam-se com um à vontade de quem está perfeitamente acostumado à vida de hotel.
Entretanto, no meio daquela multidão, surgiu o nosso guia, o que falava espanhol. O voo era somente às cinco da tarde e iríamos aproveitar essa manhã para conhecer o que faltava de Kathmandu: a Stupa de Bodhnath, segundo ele a maior do Nepal; de seguida, visitaríamos o conjunto sagrado de Pasupatinath, terminando na cidade medieval de Baghgaon, famosa pelos seus monumentos e estátuas.
Apesar de não ser já para nós uma novidade, a Stupa de Bodhnath foi, contudo, aquela que mais apreciamos. Ao contrário das outras, não ficava num ponto alto, ficava numa rua da cidade, num largo e estava rodeada de pequenas lojas. Muitas delas, eram escolas de arte onde jovens artistas expunham e vendiam os seus frescos: as tangka. Tangka é um tipo de pintura tibetana usada pelos budistas para meditar e é considerada uma das melhores expressões da arte tibetana. As tangkas servem para mostrar as teorias budistas e é uma forma de professar o budismo, representar histórias da vida dos santos, as actividades religiosas e a cultura tradicional. As telas de linho ou algodão são as mais utilizadas nestas pinturas. O tamanho das tangkas varia entre alguns centímetros quadrados e vários metros quadrados, que custará meses ou anos de trabalho para os artistas. Cada pintura vendida representa uma oportunidade de custear o trabalho dos artistas por dias, semanas ou meses. Lá, como cá, viver da arte não é fácil.
A Stupa de Bodhnath está construída numa base octagonal, e a sua vista de cima está representada numa Mandala desenhada pelo Dalai Lama, onde se encontram mantras. Caminhamos em redor da Stupa no sentido dos ponteiros do relógio e observamos as cores, as pessoas, as lojas e os odores. Partiríamos dali, do centro budista, rumo a Pashupatinath.
Pashupatinath é o local de peregrinação hindu mais sagrado em todo o Nepal. Consiste num enclave de templos, ghats (degraus que conduzem ao rio) e locais de cremação. Apesar de, como qualquer local de culto, ter muito movimento de fiéis, o silêncio impera, apenas cortado pelo murmúrio do rio Bagmati. Observamos cadáveres de pessoas que jaziam no chão sobre uma esteira, cobertos com um pano branco. Seguir-se-ia a cremação do corpo já na pira. No final, as cinzas seriam varridas para o rio, seguindo caminho com a corrente. A família real tinha as suas piras exclusivas, que lembravam, sinceramente, os nossos fumeiros.

O sentimento que nos invade ao assistirmos às cremações é semelhante ao que nos acontece quando vemos um filme. Reagimos como se aquilo fosse ficção, como se na realidade não estivéssemos a ver corpos humanos a serem queimados bem perante os nossos olhos!
Apenas os bebés com menos de seis meses são enterrados e não queimados. O fogo é visto nesta religião como elemento purificador da alma e do corpo. Como aquele que liberta do pecado. Do que se depreende que até aos seis meses, o ser humano não tem em si pecado. Sorrimos perante esta lógica. O odor que se respira em Pashupatinath é um misto de fumo com fortes incensos e flores queimadas. É um ambiente tão intenso que não permanecemos lá por muito tempo. Aliás, nem nos sentíamos confortáveis em estar a observar pessoas que estavam ali a despedir-se dos seus entes queridos. Colocamo-nos no lugar deles, respeitamos a sua dor e saímos. Uma particularidade é que a cor do luto que eles adoptam é o branco total. Explicamos ao guia que usamos o negro e que enterramos os nossos mortos, apesar de as cremações já existirem, ainda que não na forma tão arcaica que ali assistíramos. Ele reagiu com espanto, encolheu os ombros e prosseguiu.
Seguimos então para o último local a visitar. Chegamos à cidade medieval de Baghgaon e entramos num estreito corredor cheio mulheres sentadas com galinhas à venda. Caminhamos e acedemos a uma praça rodeada de monumentos e de estátuas. Os monumentos em madeira talhadas, as estátuas em pedra, um pouco à semelhança do que víramos na Durbar Square. O guia comenta que ali decorreram as filmagens do ‘’Little Budha’’ com Keanu Reeves, decididamente um filme a rever aquando do nosso regresso.
Num dos templos, deparamo-nos com imagens do Kamasutra talhadas na madeira. Homens com mulheres, mulheres com mulheres, corpos nus ali talhados numa total anarquia e despudor sexual! O comércio é bastante intenso dentro da cidade medieval. Existem várias lojas de produtos artesanais, desde écharpes com 100% de caxemira, vasos em barro, catanas, paus de incenso, entre outras coisas. Entramos numa loja de música, com uma grande oferta de música e de filmes. Arqueamos as sobrancelhas e comentamos que não esperávamos encontrar tanta modernidade numa cidade medieval! Cruzamo-nos com algumas pessoas que lá viviam e não deixamos de notar que é costume pintarem os olhos dos bebés com eye liner preto em torno de todo o olho. O efeito visual não é dos mais agradáveis …
Chegada a hora de almoço, aproveitamos para comer algo num dos restaurantes de Baghgaon e aí observar as gentes, como que já dizendo adeus. A partida estava breve…
No regresso ao Hotel, trocamos impressões com o Guia, aproveitando a oportunidade para lhe dizer o quanto tínhamos gostado dos dias que tínhamos passado no Nepal e para lhe transmitir o quanto apreciáramos a hospitalidade do seu povo.
Questionou-nos qual o nosso próximo destino. Sorrimos-lhe respondendo que para já, era tempo de assimilar o quanto o Nepal nos tinha transmitido a todos os níveis. Fora uma viagem de sonho, a lua-de-mel que tanto sonháramos! As pessoas, as paisagens, o contacto com a cultura e sobretudo com a espiritualidade. Essa seria a maior riqueza que traríamos na nossa bagagem no regresso e que com toda a certeza tão cedo não se apagará das nossas memórias e corações.
Sobrevoando Kathamandu despedimo-nos do Nepal com um sorriso nos lábios mas com uma enorme vontade de chegar a casa e partilhar com os mais próximos esta fantástica viagem!





( na imagem, um exemplo de uma Tangka)

3 comentários:

Maria disse...

confesso que os ultimos dias de azafama me afastaram deste espeço e depois de ter lido entusiasmada os 2 primeiros relatos não voltei aqui... mas hoje ao receber a versão completa destes relatos decidi que ia ser de uma ponta à outra!! chegada a casa da maratona da banca sentei-me em frente ao laptop a ler essas delicias que connosco quiseram partilhar!! adorei: senti me a viajar por esses destinos!! como nos meus livros preferidos.. e uma vez se constate que uma das melhores coisas que temos é a possibilidade de viajar e conhecer e veer a diversidade e a beleza do que é diferente!!! amei

Filipa disse...

Obrigada por partilharem estes momentos tão especiais e únicos.

Beijinhos

Madalena disse...

Só hoje tb consegui ler toda a descrição da vossa lua de mel. Ainda que já tivessemos ouvido algumas peripécias, estes relatos completaram-nos.

Percebe-se que gostaram e que aproveitaram ao máximo a vossa viagem, tão desejada.