terça-feira, julho 01, 2008

Kathmandu: a cidade-smog


O acolhimento no Hotel Everest não podia ter sido mais amistoso. Na recepção somos recebidos com um sorriso sincero no rosto, com um copo de sumo de manga bem fresco e, devido à condição de recém-casados, ainda somos mimados com um colar de flores artesanal. No lobby seis a sete empregados olham-nos nos olhos e sorriem enquanto preenchemos a ficha habitual e logo aí se nota a diferença. Nos últimos hotéis em que estive, quer em Portugal, quer em Espanha, não me recordo desta simpatia colectiva. O que acontece mais vulgarmente é o evitar dos olhos no olhos, a menos que essencial. Subimos para o quarto e somos invadidos por uma sensação de cansaço e de êxtase! Deixamo-nos cair de costas em cima da enorme cama e logo escutamos o som dos milhentos pombos que circundam o Hotel.
‘’Estamos no Nepal!’’ – dizemos eufóricos, tomando real consciência do local remoto, tão longínquo e que até bem pouco tempo atrás era apenas imaginado entre suspiros.
Abrimos as cortinas e deixamos os olhos passear pelo emaranhado de casas que enchem o cenário. Não se trata de um cenário de modernidade, bem pelo contrário. Vemos que as construções estão debilitadas e imaginamos que as carências são mais do que muitas. Ainda assim, a imensa cordilheira rodeia Kathmandu e o fantástico azul do céu fazem-nos esquecer rapidamente o mundo real. Apetece ter asas e voar!
No frigorífico do mini-bar mais um delicioso mimo: deixaram-nos um Bolo com ‘’Congratulations’’ escrito. Mais um cesto de fruta e umas bolachas, chás e cafés … Que mais poderíamos desejar?
Antes da noite cair, ainda nos aventuramos a calcorrear as ruas. Não fomos muito longe, contudo. Saímos confiantes do Hotel, virando à esquerda como nos sugeriu o simpático ‘’Bell Captain’’ e logo nos deparamos com o evidente problema de saneamento da cidade. Esgotos a céu aberto. Tentando não respirar, lá atravessamos o local mesmo ao lado do Hotel dos luxos, em passo apressado. Ao caminharmos novamente em passo lente damo-nos conta da correria que vai na cidade. Um mar de gente caminha apressada na rua, em todas as direcções possíveis! Andamos na defensiva, ou seja, evitando esbarrar nas pessoas ou nas barraquinhas de comida, ou nos tapetes de revistas e de jornais espalhados pelo chão e que servem de leitura a um pequeno aglomerado de homens. Perversamente, aproximamo-nos do local e abaixo-me como se estivesse a ler e a perceber as frases de manchete. Na verdade, quero apenas que me vejam, mulher, ali onde pelos vistos, não seria suposto estar. Talvez um lado feminista a emergir … Mais adiante, um cruzamento e uma verdadeira confusão. No centro do mesmo, um aperaltado sinaleiro gesticula incansavelmente, a par de semáforos. Não consigo perceber a quem os condutores respeitam mais, porque simplesmente todos se movem em todas as direcções possíveis! O caos! Apercebemo-nos de que os táxis em Kathmandu são motocicletas a cair de velhas mas que nem por isso deixam de transportar uma meia dúzia de pessoas. Olhos negros e profundos de uma rapariga observam-me de dentro de um deles. Olho também para ela, com a protecção dos óculos de sol. Talvez observe os meus corsários de ganga, tão raros de se ver em mulheres.
O desafio que se segue é atravessar para o outro lado da rua. Os carros parecem não ter travões e as pessoas lançam-se à estrada num ‘’seja o que Deus quiser’’, seja esse Deus Budha ou Shiva ou mesmo o nosso… Antes de atravessar reparo num mulher que passa e que toca no rabo de uma das muitas vacas que se passeiam pela cidade, em poses de superioridade divina. Benze-se e segue caminho. Uma cena caricata de devoção. Andamos um pouco, não muito porque o ar começava a tornar-se irrespirável. A caminho, meninos e meninas de uniforme cruzavam o nosso caminho e é verdadeiramente impossível deixar de sorrir e de sentir empatia com estes pequenos. Uma delas aborda-nos com um rasgado ‘’Hello!’’
e aproveitamos a oportunidade para conversar um pouco com ela e, claro está, para tirar a fotografia da praxe. Pergunto-lhe se lhe posso colocar o meu braço no ombro dela, ela encolhe os ombros e consente. No momento seguinte, olho-nos às duas e não consigo deixar de reparar que não só passava bem por nepalesa como por colega de uma miúda que não teria mais que os seus catorze anos!
Respirar começava a ser custoso e começamos a perceber quão poluída é a cidade. Os carros sendo velhos e não tendo catalisadores libertam autênticas bolas de fumo negro para o ar e o facto de a cidade estar rodeada das montanhas aumenta o efeito de estufa e o ar não purifica. Muitos andam de máscara. Muitos entre os milhentos, que o Nepal tem claramente um problema demográfico. Basta olhar em redor: pessoas e mais pessoas e ainda mais pessoas. Dizem-nos que são 25 milhões numa área inferior à de Portugal! E isso salta à vista!
De regresso ao Hotel, tempo para um rápido banho e para um Jantar no restaurante Chinês situado no terraço do ultimo piso do Hotel. A escolha recaiu numa sopa carregada de pimenta e com queijo, acompanhada de galinha com legumes. A primeira de muitas delícias… Debaixo já do imenso luar, vemos Kathmandu à nossa frente. Apenas se vêem as luzes das casas, porque simplesmente não existe rede de electricidade pública. Eles parecem não se importar e nós também não.
No dia seguinte, bem cedo, começaria a verdadeira descoberta da cidade-smog.

1 comentário:

Maria disse...

hmmm que delicia