segunda-feira, julho 14, 2008

A bela e mágica Pokhara

De todos os locais onde estivemos, Pokhara é o mais fascinante em termos de beleza natural, apesar de ser o mais bem equipado em termos de turismo. Rodeada pelos Himalaias e em especial pela famosa cordilheira Annapurna, rapidamente nos apercebemos que Pokhara é o local de eleição para trekking no Nepal.
Cá em baixo, lago Phewa reflecte as montanhas, tal a sua limpidez, criando uma imagem dupla fantástica. É um dos maiores lagos do Nepal e oferece um cenário idílico e tremendamente romântico. Nele passeiam-se vagarosos barcos coloridos com turistas.
Lá no alto, avistamos a ‘’World Peace’’ Stupa. Existe um caminho entre a montanha para lá se chegar, mas a náusea e a dificuldade de respirar impediram a que lá chegássemos.
Calcorreamos as ruas de Pokhara, onde existem várias lojas, pequenos comércios todos eles vocacionados para o turismo: restaurantes, estalagens, lojas de souvenirs, livrarias, mercearias e por aí fora. A caminho descobrimos o fantástico Fish Tail Lodge, um hotel magnificamente construído em cima da montanha e do outro lado do lago. Atravessamos para a outra margem no barco do Hotel e fomos explorar. Ao contrário do de Chitwan este parecia ter todas as comodidades e mais algumas! Descobrimos a piscina que, debaixo do calor em que estávamos, estava mais convidativa do que nunca! Num pé voltamos ao nosso hotel, pegamos nos fatos de banho, e noutro estávamos de volta à piscina onde ficamos até a pele enrugar!
Inesperadamente, ouvimos alguém falar em português, ali ao nosso lado! Metemos conversa e apresentamo-nos. A senhora que era presidente de uma ONG estava ali numa espécie de retiro para se concentrar na escrita de um livro sobre um rapaz órfão que alojara numa das suas casas-abrigo no Nepal e que agora a tratava por ‘mãe’. Contou-nos que estivera em locais verdadeiramente inóspitos como Nairobi e também das enormes dificuldades e entraves que pessoas como ela enfrentam. Estendeu-nos o cartão, desejou-nos felicidades e despediu-se. Esperava-a um compromisso. Não devia ter uma vida nada fácil – pensamos – mas ainda bem que existem pessoas assim no Mundo.
Aproveitamos o fim de tarde para relaxar na rede que havia no Lodge e para fotografar a luz mágica no Lago. Nessa noite, saboreamos um belíssimo jantar na esplanada de um restaurante perto do Hotel. Ali nos deixamos estar a apreciar a diversidade de pessoas que passava: louros, morenos, altos, baixos, europeus, hindus, buditas, tibetanos … todos ali na serena e bela Pokhara.
O clima é mais quente do que em Kathmandu. Estávamos na época das monções que dura até Setembro. Ainda no restaurante, começou a chover torrencialmente. Ficamos à espera que abrandasse. Tínhamos todo o tempo do mundo …

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Na manhã do dia seguinte esperava-nos um guia local. Com ele conheceríamos a Deivi’s Fall, umas cataratas onde se acredita terem caído dois amantes e onde atiramos uma moeda, em troca de um desejo. Visitamos também um campo de refugiados tibetano, onde moravam centenas de pessoas obrigadas a viver ali depois da carnificina chinesa. Ali, homens e mulheres têm papéis bem definidos. Elas trabalham na tapeçaria. Em teares manuais, calejadas nas mãos, são as artesãs de lindíssimos tapetes que não fosse a dificuldade de transporte, teríamos certamente comprado. Eles eram comerciantes. Uma delas tentou ensinar-nos um pouco da sua arte mas é algo de complicado e que implica uma destreza manual impressionante. É inacreditável a rapidez e a perfeição com que aquelas mulheres conseguem materializar um complicado desenho numa belíssima carpete.
Tivemos ainda oportunidade para conhecer uma casa onde vivem monges budistas de todas as idades. Visitamos um dos seus templos, onde têm aulas de história e de outras matérias. Vivem com simplicidade e lá respira-se paz. Houve ainda tempo para nos rirmos com o caricato de uns aposentos de um tibetano que, abaixo da imagem do Dalai-Lama, exibia um poster do Cristiano Ronaldo. Decididamente, o Portugal deixara de ser conhecido pelo ‘bacalao’ para ser conhecido pelo Ronaldo. Onde fica provavelmente não sabem, mas pelo menos sabiam que existia. Valha-nos isso!
É impossível abandonar o campo de refugiados sem nos revoltarmos com a China. Por causa deles, da sua violência e ganância desmedida, aquelas pessoas tão pacíficas e inofensivas estavam privadas de viver na sua terra. Isso já o sabíamos, pelas notícias, outra coisa, é falar com as pessoas. Mais uma injustiça neste Mundo …
Visitamos ainda mais dois Templos: um budista e um hinduísta, bem colados um ao outro, o que prova que é possível vivência em harmonia entre pessoas com religiões diferentes. Essa é uma lição que pessoas educadas e com suposta cultura como os Irlandeses, deviam aprender! Eles e outros tantos!
Num deles, recebemos a famosa pinta vermelha na testa. Fomos abençoados, segundo o guia. Assim o acreditamos, assim nos sentimos.
À tarde, já sem o Guia, resolvemos caminhar pelas ruas, fotografar. Paramos numa livraria e não resistimos a comprar um livro sobre o Nepal. Ali encontraríamos fotos que nunca teríamos de Pokhara. Fotos das pessoas que vivem no alto das montanhas. Gente que vive com pouco, mas que vive feliz. As pessoas que abrigam os alpinistas aventureiros e que provavelmente fazem das suas viagens, recordações preciosas. Gente hospitaleira e generosa. Lemos que nas montanhas as pessoas têm mais glóbulos brancos e que os seus pulmões são maiores do que o habitual. A adaptação da espécie humana às condições da Natureza aqui bem patente …
Trocamos impressões com o rapaz da livraria e aproveitamos para comprar CD’s de música local, paus de incenso, chás … numa tentativa de trazer para casa o cheiro, o sabor e os sons do Nepal.
No regresso ao Hotel tivemos a notícia de que o dia seguinte, no qual regressaríamos a Kathmandu, não seria fácil. A estrada estaria cortada, devido a um protesto civil contra a subida dos combustíveis.
Resolvemos adiar essa preocupação para o dia seguinte e fomos saborear as delícias da cozinha nepalesa no nosso último jantar em Pokhara.


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