quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Dream job ...

Cronista de viagens

Ora aí está uma profissão que me enchia as medidas! Acompanhada do meu querido esposo, percorrer o Mundo, enquanto um fotografava e o outro escrevia. Isso é que era e, não raras as vezes, falamos sobre o assunto entusiasticamente.

Para já, e enquanto tal se encontra no plano estelar dos sonhos, contento-me a ler as belíssimas crónicas do Gonçalo Cadilhe que compõem, todos os meses, a sua 'Geografia das Amizades'. Como gostei particularmente desta, resolvi partilhar aqui...


<strong>Um souvenir do Camboja

Dispenso guia e mapa, alugo bicicleta e compro um guardachuva para me proteger: não sei se vai chover, mas sei que vai fazer sol, e nada melhor que um guarda-chuva para me proteger de mais um dia brutal de humidade e calor na selva do Camboja, na orla do passado, nessa varanda debruçada sobre o fantasma do cosmos que é o reino perdido de Angkor.
O meu deslumbramento é previsto. Primeiro, porque já conhecia os templos de Angkor, aliás, da outra vez que os visitei segui à risca as explicações dos guias, as sugestões dos manuais, os itinerários dos mapas. Acordei cedo, cedo; vinte minutos antes do nascer do Sol estava nas portas do maior templo do conjunto monumental, Angkor Wat, estrategicamente posicionado para ver o espetáculo inevitável da explosão quotidiana de cores e rumores, som e luz, de cada amanhecer nos trópicos; contratei um guia e a respetiva motoreta e passámos o dia a saltar de edifício em edifício, são centenas de templos espalhados por uma área de dezenas de quilómetros, escolhi apenas os mais importantes e imponentes.
Ouvi com atenção o que me explicava o mr. Khumi, profissional e paciente como todos os guias em Angkor, as fachadas decifradas, os relevos incompreendidos, o mistério dos rituais religiosos que se perderam nos séculos.
Tirei fotografias com cuidado, escolhendo as perspetivas que mais me comoviam. Comovi-me. Várias vezes. Assim foi a primeira visita, há uns sete ou oito anos.
Desta segunda vez nem guia nem máquina nem mapa nem nada. Apenas uma bicicleta, um guarda-chuva. As bicicletas são como os diamantes, são para sempre. Talvez porque com elas, o vento na cara e o coração acelerado, chegas longe não apenas no espaço mas também no tempo, à época da tua vida em que eras um cowboy, um viking, um guerreiro das estepes, a bicicleta era o teu cavalo e a tua vida era simples e feliz.
Assim me sinto, simples e feliz, na minha segunda visita a Angkor, um dos lugares fundamentais da Humanidade.
CERCA DE 2 MILHÕES DE TURISTAS VISITAM ANGKOR cada ano, prova de que as viagens se democratizaram e são mais acessíveis que nunca. Dois milhões de seres humanos não são boas notícias para a preservação das estruturas antigas, mas são ótimas notícias para as caixas registadoras dos hotéis, restaurantes, bares, pubs, mercados, lojas de souvenirs, spas, clínicas de massagem, bordéis, mendigos, vigaristas, condutores de tuk-tuk e toda a gente que investiu tempo, dinheiro ou talento em Siem Reap, a cidade que serve de porta de acesso ao complexo monumental. Talvez por serem demasiados anos nesta vida a regressar regularmente a todas as Siem Reap do mundo, a todas as portas obrigatórias de acesso aos lugares fundamentais da Humanidade, já nem ligo. Já não me choca o alinhamento de agências todas a propor o mesmo tour ao mesmo preço, o turismo de massa barulhento e meio ébrio a partir da happy hour dos cocktails e das corona, o artesanato feito em série, as antiguidades baratuchas, a vulgaridade. Já nem ligo, desligo. Foi portanto em piloto automático que a vista reparou na pequenina boutique Bloom, entrincheirada entre lojas de quinquilharias e bares de turistas. Voltei atrás dois passos para reparar melhor. Entrei. E conheci assim a Diana.
A Bloom vende sacos de ração de peixe e de frango transformados em bolsas de senhora, porta-documentos, bases de copo, toalhetes individuais, talvez ainda chinelos de quarto e aventais, já não me lembro de todos os objetos que estão à venda na Bloom a partir dos sacos de ração de peixe e da imaginação de um grupo de mães solteiras do Camboja. A ideia de criar a boutique cooperativa Bloom veio a partir de umas férias que a Diana e o marido Alan passaram em Angkor há seis anos. Uns amigos do casal estavam a trabalhar em Phnom Penh na organização Riverkids e de conversa em conversa a Diana tomou conhecimento de várias situações de miséria desesperada das favelas da capital do Camboja. A que a impressionou mais foi a de mães que vendiam os filhos à nascença para adoção no Ocidente.
"Não vou regressar para casa", declarou a Diana ao Alan. "Vou ficar aqui a lutar contra isto, a aliviar esta pobreza." A "casa", para a Diana, era Singapura e o emprego de general manager do grupo editorial Fairfax. Mas ela estava cansada e infeliz com essa vida que descreve "tão orientada para o consumo materialista". O marido concordou com a mudança, ou melhor, "compreendeu que não valia a pena contrariar-me", conta divertida.
Mas a Diana não queria vir fundar mais uma ONG no Camboja. "O mundo está cheio de ONGs que só servem para manter os problemas, não servem para os resolver", avisa, furiosa.
"Este país é um exemplo do dano das ONGs e da 'caridade' do Ocidente: todos os anos entra 1 bilião de dólares de ajuda internacional para combater a pobreza nos cofres do Estado. Para quê então acabar com a pobreza? Acabar com a principal fonte de rendimentos do Estado?" Num país em que o salário mensal de um empregado de mesa é de 60 euros, sem férias, sem segurança social, seis dias de trabalho por semana, a Bloom emprega dez pessoas que trabalham cinco dias por semana e recebem 70 euros por mês, férias pagas, licença de maternidade e outras regalias sociais. "Quem quiser ajudar a Bloom", conclui a Diana, "não tem que doar dinheiro nem coisa nenhuma. Só tem, simplesmente, que ser nosso cliente." Para ser feliz num dos lugares fundamentais da Humanidade não é preciso muito, basta uma bicicleta ao vento e um olhar seletivo sobre os souvenirs autênticos à venda pelo meio de tantos milhões de turistas, tanta vulgaridade e tanta indiferença à miséria.

2 comentários:

Ivana disse...

Gosto da Diana.
Um dia vou conhecê-la.

Maria disse...

Neste país cheio de caridades, eu revolto-me quase diariamente com o conceito de caridades que são monstros sanguessugas que recolhem dinheiro para supostamente ajudar quem precisa.. Tretas, como sempre o dinheiro fica perdido no caminho....