sexta-feira, setembro 12, 2008

Scriptus

A escrita sempre fez parte do meu ser. No entanto, isso não me torna numa escritora, nem tão pouco contribui para que aquilo que eu escrevo seja algum dia publicado ou sequer lido. Contudo, continuo a escrever como forma, talvez, de passar o tempo e de perceber o quanto é que dentro de mim existe para ser exteriorizado. É curioso que, neste momento, penso no quanto escrevia nos tempos de liceu! Escrevia imenso, quer para a escola, quer para mim. Tinha um diário onde, como qualquer jovem adolescente, relatava intensa e descritivamente os meus amores platónicos e impossíveis. Guardo ainda comigo esses registos, perante os quais não consigo deixar de me comover. Suponho que na altura devesse sofrer bastante com aqueles amores não-correspondidos mas o facto é que, conforme a minha escrita o revela, me escondia tal qual um ‘’patinho feio’’. Era insegura … mas nem por isso consigo deixar de recordar que era feliz. De uma forma generalizada sempre fui uma pessoa feliz. Extrapolando ou não a coisa, parte da minha felicidade reside no facto de possuir esta capacidade de deitar para o papel o que me vai cá dentro. À medida que o tempo foi passando e estava eu já na faculdade, começou a tradição entre as amigas de infância: a de que, por alturas dos aniversários, uma de nós escrevesse um texto e o oferecesse às restantes. E desse compromisso nasceram variadíssimos textos: uns cómicos, outros a roçar o drama e a tragédia. Estávamos a tornar-nos mulheres e essa evolução foi ritmando as palavras de cada uma. Nos momentos de uma maior desilusão perante a vida que deixava de ser tão ‘fácil’ como até aí fora, sabíamos que aí viria um texto comprido, com mais folhas do que habitualmente. O facto de sermos lidas entre nós aumentava a nossa cumplicidade, porque o estado da alma de cada uma apenas era alcançado pela outra através das palavras escritas e não das ditas. E uma vez partilhados esses escritos não era preciso dizer mais nada entre nós … Recordo um texto escrito por mim profundamente magoado com a vida (e altamente exagerado também na sua mágoa) em que comparava a amizade a um barco onde cabíamos nós as cinco e que ondulava nas agitadas águas da vida.
Quando o nevoeiro se desfez e deu novamente lugar ao sol, recomecei a escrever textos cómicos, relatos desenfreados das nossas vidas amorosas, ou na altura, da inexistência delas. Eram as crónicas da (falta de) sexo na cidade, evocando o nome da série de culto. Faziam um enorme sucesso e isso enchia-me de felicidade! E é isso que sinto de cada vez que escrevo algo que percebo que outra pessoa gostou de ler: uma enorme realização pessoal. Uma sensação de dever cumprido. Suponho que isso deveria fazer de mim uma escritora compulsiva mas a verdade é que a simples vontade não comanda a minha escrita. Algo em mim decide quando é que eu escrevo e a forma como o faço.
O certo é que, iniciando a escrita, depois fico embalada, num ritmo de crescendo que só cessa quando já não resta mais nada a ser dito.
Como agora, neste momento, em que me sinto conduzida por mim mesma a prosseguir e a ver onde isto me vai levar. Ainda não sei que rumo irei dar a esta história que quero contar, ainda não planeei os próximos capítulos (tão pouco sequer sei que irá ser dividida em capítulos ou se seguirá sem quebras). Apenas sei que agora não posso parar, nem quero.

‘’Estás a escrever? ’’
Aceno com a cabeça e continuo a escrever.
‘’ É sobre o quê? Posso ler? ’’ – prossegue ele.
‘’Depois, amor.’’ – digo-lhe sem que perceba que depois encontrará aqui registada a sua ‘’interrupção’’. Ele que é a minha inspiração na vida merece concerteza ler tudo o que eu escrevo.

2 comentários:

Maria disse...

:)

Maria disse...

“Escrever é batermo-nos com tinta para nos fazermos compreender” - Cocteau , Jean

Tenho a dizer que estou toda flagelada de tinta!!!!
E é tão bom!!!

:))))))