sexta-feira, dezembro 14, 2007

E aqui vai tudo o que até agora escrevi até empancar!

O Pedido (2)


- Ora bem, hoje falamos do conceito de Destino. O que é o destino? Destino é um conceito que expressa a noção religiosa e idealista de uma força sobrenatural que predetermina todos os acontecimentos na vida das pessoas. Segundo a mitologia da antiga Grécia, a sorte das pessoas e inclusivamente dos deuses dependia do destino. Com o passar do tempo, começou-se a representar o destino como justiça suprema que regia o mundo ainda no universo dos gregos. Já no cristianismo o destino aparece como providência divina, do ser supremo. Aliás, a ideia do destino como predeterminação divina é inerente a todas as religiões contemporâneas. Por exemplo, no protestantismo, apresenta um carácter fatalista claramente expresso na corrente do fatalismo da qual já falamos antes. Nalgumas correntes religiosas como por exemplo, no catolicismo e na religião ortodoxa, já existe uma clara intenção de minimizar o fatalismo das representações do destino. Alguém imaginará o porquê?

- Talvez por causa do livre-arbítrio, professsor?

- Exactamente António! Porque existe já uma combinação digamos que eclética da ideia da predeterminação divina com o livre-arbítrio do individuo. Muito bem. E para aquilo que nos importa verdadeiramente, para filosofia, como é utilizado este conceito do destino? Alguém arrisca?

Na sala, fez-se um silêncio pensador. João prosseguiu:

- A filosofia utiliza-o para exprimir o conjunto de circunstâncias que ocorrem na vida de uma pessoa ou de um povo inteiro. Não muito diferente do senso-comum pois não?

Todos acenaram com a cabeça. João continuou o discurso que mantinha todos em estado de alerta.

- Como se aperceberam, o conceito de destino atravessou diversas fases, desde os antigos gregos até à actualidade. E ainda hoje o próprio conceito é debatido, visto que para umas correntes de pensamento é associado a algo que é por exemplo, sinónimo de sorte e para outras, algo que simplesmente diz respeito ‘à ordem natural estabelecida do universo’, como por exemplo eu também escrito num dicionário moderno. Mas, o que gostava que retivessem aqui hoje é, que na sociedade grega também existia a ideia de destino, ou seja, de uma força superior à vontade dos homens e dos deuses que determinava o que tem que acontecer. E essa força era o que regia também a vida dos deuses. Quem pensava que a mitologia era a maior força ideológica desengane-se. Mesmo não sendo algo científico, mesmo pertencendo ao campo das ideias, o que é certo é que, até hoje nos nossos dias, há quem acredite que toda a sua vida é determinada pelo destino. Questões? Vá disparem!

- Professor, e qual é a sua opinião?

- Sobre o quê, Ana?

- Sobre isso, acredita ou não no destino como algo a que não se pode fugir?

- Eu? Ora bem, eu tenho a minha opinião formada. Sim, eu acredito no destino, ou melhor, eu acredito que existem acontecimentos aos quais não conseguimos escapar.

- Sério? E então o livre-arbítrio? – questionou António.

- E como é que sabes que esse livre-arbítrio não é já parte do destino? – devolveu João.

- Como assim? – lançou novamente António, com uma ruga vincada na testa.

- Pergunto como é que sabes que ao, ao escolheres ir por um determinado caminho, não estás já a obedecer ao teu destino?

- Não sei. – disse António – Mas eu não acredito no destino.

- Muito bem, essa é a tua posição e quanto aos restantes?

Um burburinho de vozes começou a ganhar vida na sala de aula e João animado, olhava para os alunos, satisfeito com o interesse que tinha conseguido despertar. Entretanto, esgotara-se o tempo e teriam que regressar à questão no dia seguinte. João pediu a todos:

- Vá, pensem nisso e amanhã queria ouvir a posição de cada um, devidamente fundamentada! Até amanhã, minha gente!

A sala rapidamente se esvaziou. Enquanto arrumava as suas coisas e se encaminhava para a sala dos professores, João matutava na resposta que dera à sua aluna e na pergunta que ela lhe fizera. Normalmente, evitava emitir as suas opiniões pessoais para evitar influenciar as opiniões daqueles jovens a quem ele queria incutir o gosto do permanente questionar sobre as coisas. Claro que a resposta à pergunta estava mais do que ensaiada. Aliás, nem lhe ocorreria debater um tema sobre o qual não tivesse uma opinião previamente formada. Era um pensador nato. Adorava leccionar filosofia, não pelo debitar das correntes de pensamento e das teses que cada filósofo concebera. O que lhe dava prazer puro era justamente o debate aceso que essas mesmas teorizações, essas metafísicas geravam entre mentes tão jovens.
Jovens que não aceitavam as teorias de mão beijada. Emitiam a sua opinião e João moderava sempre o debate. Claro que, muitas vezes, havia que incutir alguma moderação, tal o à-vontade que se gerava nas aulas. Queria que as aulas servissem para exercitar-lhes a mente, para se libertarem dos constrangimentos, para talvez se encontrarem … em último caso.
E nesta aula, no entanto, sentiu que divulgara algo de muito pessoal e lembrou-se de imediato de Rita, da conversa que ambos haviam tido há algum tempo atrás acerca do destino…

'Acreditas nisso mesmo, João?' - havia sido a sua resposta.

' Sim, acredito e se hoje aqui estamos é porque o destino nos juntou. Sim, acredito.', dissera-lhe com maior convicção.

' João, meu querido, não me leves a mal, mas realmente isso é algo um pouco irracional já para não dizer limititativo, não achas?' - argumentara com desprezo - 'Quer dizer, se tudo está já pré-programado para acontecer, para que vale eu esforçar-me para conseguir algo?'

- ' Rita, mas ...'.
João não continuou. Olhou para Rita e depois para o chão. De alguma forma sentiu que, qualquer que fosse a sua argumentação de nada lhe ia valer. Rita não ia compreender o seu discurso.

Ficou triste. Foi nesse momento que, pela primeira vez, o seu discurso não fez eco no coração de Rita. Pela primeira vez, sentiu que não valia a pena debater aquela ideia, ele que vivia para isso, para o prazer de pensar e partilhar pensamentos! Olhou Rita em silêncio, enquanto ela estava a servir-se de um cálice de Porto e pensou que a amava e que isso era suficiente para si. Pelo menos, nessa noite.

Na Sala de Professores o ar estava pesado, abafado. Não existia ar condicionado e as temperaturas desse Verão estavam anormalmente elevadas. Todos em redor utilizavam métodos para se refrescarem: uns haviam improvisado um leque de papel, outros bebiam água, outros ainda abanavam as mãos perto da cara...

João abriu o seu cacifo e colocou lá dentro a sua pasta. Preparava-se já para sair para ir almoçar quando uma funcionária lhe dirigiu a palavra:

- Senhor professor, desculpe. Tem um minuto?

- Sim, diga.

- Desculpe se lhe estou a atrasar o seu almoço mas gostaria de lhe pedir algo. Há já muito tempo que ando para ganhar coragem para lho pedir, mas confesso que sempre que vou tentar falar consigo fico como que muda...

- Mas, então porquê? Diga, não se acanhe! Desembuche! - disse João, tentando fazê-la sentir-se à vontade.

- Bem, no fundo, o que lhe queria pedir era algo de muito pessoal e peço que não me leve a mal o pedido. É que estou a tirar um curso de fotografia depois do trabalho aqui e tenho que fazer um trabalho específico em torno do modelo humano. E estava a pensar em ir mais longe, em tentar fotografar alguém e para além de captar o corpo, tentar captar algo que não se vê...entende-me?

- Hum, mais ou menos. Aquilo que tem que fazer é fotografar uma pessoa, certa?

- Sim, certo. Mas queria captar a alma dessa pessoa na fotografia.

- Hum, mas diga-me....desculpe, mas recorde-me o seu nome?

- Ah, sim, peço desculpa eu. Chamo-me Clara.

- Eu é que peço desculpa, sou péssimo a memorizar nomes, Clara. É uma crítica constante que os meus alunos me fazem. Mas continuemos, como pretende captar a alma com a sua objectiva?

- Pois, aí é que ainda não sei bem. Nem sei se alma será o termo mais correcto para chamar ao que eu quero. Como é uma pessoa da Filosofia, da mente, era mais isso que queria mostrar na foto. Que para além da matéria, do corpo, também a objectiva consegue captar a luz, a alma, o pensar...entende?

- Sim, acho que sim, Clara, embora assuma aqui que apesar de ser um apaixonado pela fotografia não conheço a arte na sua técnica. Mas, o que é que exactamente me ia pedir? Acabei por me perder... Lá está, sou um homem que pensa muito e se perde nos pensamentos!

Ambos sorriram e Clara finalmente expressou o seu pedido.

- Queria fotografá-lo a si.

- A mim?

João ficou, para além de surpreso, corado e Clara detectou o seu desconforto.

- Sim, a si professor João. Por favor, não me leve a mal. De algum modo, algo me diz que é a pessoa certa para o trabalho. Acho que tem uma luz diferente.

João não sabia o que fazer com as mãos, nem o que dizer. Estava atordoado. Sempre fora extremamente tímido e reservado e a ideia de ser fotografado por aquela mulher deixava-o nervoso.

- Olhe Clara...

- Olha Clara, insisto.

- Ok, olha Clara, sinto-me lisonjeado com o teu pedido. No entanto, não te queria já dar uma resposta. Até quando precisas dela?

- Não tem mal. Não esperava que ma desse de imediato. Eu espero, pode ser daqui a dois dias? Assim dava-me também tempo para eu lhe mostrar alguns pormenores mais concretos sobre o que penso fazer. Já sabe que me encontra sempre por aqui.

- Combinado, então. Dar-lhe-ei...quero dizer, dou-te a minha resposta depois de amanhã.

- Muito obrigada por considerar esta minha proposta, professor João. Eu aguardarei então.
Continuação de um bom dia e bom almoço. Até mais.

- Até mais.

João caminhava até à cantina da escola. Ainda estava estupefacto com o que acabara de acontecer. Mas mais ainda estava por não ter dito logo que não a Clara e ter arrumado o assunto.
Verbalizou algo que contrariava a sua vontade, que era a de ter imediatamente recusado o pedido.
Mas como era uma pessoa ponderada e de palavra, decidiu que ia pensar para poder tomar a melhor decisão.

'Engraçado, nunca tinha reparado na Clara. É simpática, mas fazia-a mais velha.' - pensou enquanto saboreava o prato do dia.


Captações (3)

O soalho estava visivelmente gasto. Era escuro, frio, velho. Nalguns pontos, havia uma ou outra tábua levantada; armadilhas para passos mais incautos ou menos familiarizados com aquele espaço. Nos cantos, portas pequenas em madeira conduziam a mente em imaginações acerca do que estaria por detrás de cada uma delas.

- Em pequena, vinha a este sótão muito poucas vezes, porque a escada era perigosa e nem sempre estava montada. A minha avó fechava sempre a porta do andar de baixo para impedir que me aventurasse a tentar vir cá a cima. Por isso, era sempre para mim uma enorme alegria sempre que ela me dizia: ‘Clara, queres vir ao sotão?’
Nem imagina, Professor, como eu ficava extasiada com essa notícia. E a cada passinho que dava com a minha avó por detrás a proteger-me para que não caísse parecia um aproximar para um pequeno reino de conto de fadas. Cada portinha destas tinha nesses tempos, para mim, maravilhosas surpresas. Achava que uma delas me poderia conduzir ao País das Maravilhas da Alice, veja bem!

João sorriu para Clara, que relatava com brilho nos olhos e disse:

- Esse tempo de infância é sem dúvida, tempo de magia, em que a nossa imaginação é infinita. Eu também tinha um espaço interdito em minha casa, que era o escritório do meu pai, também ele professor. Era o espaço dele, no qual apenas adultos tinham acesso, ou então, os miúdos a quem ele dava explicações. Miúdos que deviam ter os seus 16, 18 anos, por aí. Eu imaginava que o meu pai guardava no escritório um tesouro, escondido dentro de um cofre que estava por detrás de um dos enormes quadros que lá estava! Claro que, anos depois, a desilusão instalou-se quando constatei que apenas lá estava parede...e que não era herdeiro de um tesouro de esmeraldas e rubis!

Ambos riram e imediatamente se instalou um clima agradável entre os dois. Não era comum João falar acerca de si, mas nada daquilo era o seu comportamento habitual. O simples facto de ali estar já era como que um desvio da sua rotina, dos seus hábitos.

Desde aquele dia em que Clara o interpelara daquela forma inesperada e lhe lançara o convite que João foi assaltado com diversos pensamentos. Em vez de, como era habitual, simplesmente ter recusado de forma educada, predispôs-se a pensar um pouco sobre a decisão a tomar porque houve, nitidamente, algo em Clara que lhe despertou interesse.
Nesse final de dia, após a preparação da aula do dia seguinte, João sentou-se na sua cadeira de verga de sempre e, ao som de música ambiente, abandonou-se em divagações...

Tenho, então, dois dias para dar uma resposta. Hum, acho que não tenho coragem para estar ali parado a fazer poses para a máquina. Já quando a mãe me tirava fotos nos anos eu ficava sem saber o que fazer com as mãos! Não, acho que não sou capaz. Mas, ela também não me disse se é para ficar a olhar ou não para a máquina. Se calhar, são fotos diferentes, em que tenho que fingir estar a olhar para o horizonte ou algo do género...Aí acho que já me sentia mais confortável .... Captar a alma numa película fotográfica...hum, parece-me um grande desafio. É de facto, interessante... Como será que ela pretende fazê-lo? Talvez através do olhar? Dizem que os olhos são o espelho da alma... Se assim o fôr aí de facto penso que não iria estar tão à vontade...mas lá está, também nunca experimentei. Por acaso, tenho pena de não ter quase fotos de mim na infância e mesmo na adolescência. Podia aproveitar esta oportunidade para ter um registo da minha imagem para a posteridade e, ainda por cima, menos banal e artístico...E a Clara parece-me ser competente...É simpática, é mesmo curioso como por vezes, passamos diariamente pelas pessoas e nem reparamos bem nelas mas, no entanto, construímos imediatamente ideias acerca das mesmas, ainda que inconscientemente... Achava-a mais velha e que apenas se dedicava às tarefas da escola e ei-la ali à minha frente e percebo-lhe jovialidade no rosto, um trato muito agradável e um discurso de alguém que tem planos que passam além da escola...Sim, acho que quero fazer isto. Tenho que me pôr à prova e ver do que sou capaz...

Se nessa noite, João se deitou com a certeza de que a sua resposta a Clara iria ser favorável, na manhã seguinte já se levantou cheio de dúvidas. Enquanto se barbeava olhava-se ao espelho e ensaiava expressões faciais:

Ó meu Deus, não consigo estar com naturalidade nem aqui ao espelho, sozinho. Ela ainda se vai arrepender de me ter convidado para fazer isto... Se calhar, pensou melhor e mudou de ideias... Mas que desculpa vou dar para recusar. Não me apetece sequer ter que arranjar desculpas. Mas para que me dispus sequer a pensar nisto?

Passou água pelo rosto, penteou-se e saiu em direcção à escola. No carro, tentava não pensar sobre o assunto, mas este assaltava-o contra a sua vontade. Enquanto estacionava no parque dos professores, decidiu que seria no frente a frente que daria a resposta final.
Um sentimento ambíguo instalou-se, nesse momento, em João: queria que Clara lhe aparecesse imediatamente para lhe dar uma resposta que nem mesmo ele sabia naquele momento qual seria; mas, ao mesmo tempo, desejava não se encontrar com ela tão cedo, porque receava as palavras que lhe ia dirigir...


*

- Professor, queria agradecer-lhe mais uma vez o ter aceite o meu convite e vir conhecer o meu espaço de trabalho - disse Clara – Este sótão foi durante muito tempo, guarda-roupa da minha avó materna. Ela era modista para as senhoras ricas e era uma apaixonada por moda. Fez, em vida, mais roupa do que aquela que alguma vez irei ter. Alguns vestidos penso que nunca chegou a vestir, mas fazia pelo gosto, pela vaidade, ela mesma o assumia. Era uma senhora de um tempo futuro ao seu. Hoje em dia, estou certa que seria uma estilista famosa. Naquele tempo, deu-se por feliz por o meu avô lhe ter permitido trabalhar em casa... Fez-me mil e uma roupas para as minhas bonecas. Era aqui que ela passava por vezes horas a vestir-se com o que fazia. Era capaz de estar aqui tardes ou manhãs, só a experimentar e a ver-se ao espelho.

- Deliciosa a história da sua avó. Devia ser uma pessoa muito talentosa.

- Era sim. Pena não lhe ter herdado o jeito para a costura. Compro roupa feita e a verdade é que nem ligo a modas. Gosto de estar confortável, apenas. Acho que sou prática. Bem, mas como dizia, este espaço é agora o local onde me inspiro e onde tiro fotografias, porque permite-me luz directa vinda daquela clarabóia, e também ausência de luminosidade para outro tipo de trabalhos fotográficos. Trabalhos, ou melhor, experiências. Como lhe disse, apenas ainda ando a aprender a arte, que imodéstia a minha deve estar a pensar.

- Clara, ninguém nasce ensinado. E ainda bem, senão estaria desempregado!!

Ambos riram e novamente um sentimento de empatia mútua se sentia no ar.

- A sede de conhecimento é meio caminho andado, mas o caminho faz-se construindo, passo a passo, tentando e errando, trabalhando. As suas experiências são o seu trabalho, o fruto do investimento de tempo e esforço em prol da sua sede de conhecimento. Não se trata de imodéstia. bem, mas parece que estou em sala de aula a dar palestras. Diga-me então, Clara quais as suas ideias. Tem a palavra.

- Muito bem, Professor, estou a pensar tirar as fotografias aqui mesmo e jogar com a luz natural e artificial deste espaço. Apesar de ainda cá não estarem, encomendei umas telas de fundo que também pretendo usar nas fotografias. Não queria fazer montagem digital, ainda que não exclua essa possibilidade. Queria mesmo que fosse da forma tradicional, à antiga, entende?

- Sim, estou a acompanhar...

- Bem, antes de mais, trouxe-o cá hoje porque queria que, antes que me dissesse se aceita ou não ir para a frente com esta minha ideia, conhecesse bem o espaço, se ambientasse a ele, o sentisse digamos, como seu, progressivamente. Acredito que só criando esse sentimento de familiaridade estará à vontade para ser fotografado. Já lhe contei alguma da história deste espaço, para que pudesse de algum modo, dar-lhe vida, um significado. Propunha deixá-lo alguns momentos só para que pudesse, talvez, sentir o espaço, olhá-lo com alma....

- Olhá-lo com alma...- repetiu João, enquanto se embalava com as palavras doces de Clara.

- Sim, não apenas olhar para ele de relance. Mas antes, vê-lo pormenorizadamente, familiarizar-se com cada recanto, cada viga, cada tábua solta... Concorda com a minha sugestão?

João estava já a entrar naquele espaço. Acenou com a cabeça e viu Clara retirar-se pelas escadas ao fundo do sótão. O espaço era imenso, acompanhava toda a casa, também ela grande e longa. No centro era onde havia maior altura, porque era o pico do telhado. À medida que caminhava para os lados, também o tecto diminuía. No entanto, só mesmo nos cantos precisava de se agachar por completo. Era totalmente forrado a madeira de carvalho escura. Tinha um ar velho e gasto, rude. Ao mesmo tempo, o facto de estar extremamente limpo dava-lhe um ar de conforto. No chão estendiam-se dois grandes tapetes, quadrados, que não cobriam toda a área, mas grande parte dela. Cada um deles era cheio de cores. Dentro de cada tapete havia seis grandes quadrados, cada um com uma cor diferente, desde verde, castanho, laranja....

Ao redor, havia quatro grandes baús em madeira, antigos. João supôs que pudessem conter roupas da avó de Clara. Cada baú estava disposto em cada um dos quatro cantos, o que criava uma harmonia em termos de espaço.
Ao redor, as pequenas portas de madeira que, em vez de conduzirem ao País das Maravilhas dos sonhos de infância de Clara, apenas serviam como isolamento do resto do telhado. As portas tinham apenas como função. permitir arejamento do sótão e de vez em quando, a limpeza do telhado no seu interior.

João caminhava pelo sótão lentamente e olhava tudo ao pormenor. Havia dois grandes pilares de madeira, ao centro, a segurar a estrutura. Na parte mais alta de cada um havia focos de luz, que permitiam que fossem rodados consoante o desejo de direcção da luz.
Havia também uma cadeira estilo poltrona, forrada a pele cor de ameixa, com um candeeiro de pé ao lado antigo, em ferro. Faltava-lhe o abat jour. Num dos lados, uma corda de roupa estava atada em todo o comprimento e logo João imaginou que seria talvez aí que Clara fizesse a revelação das fotografias. Por fim, havia uma cadeira de pé alto, um tripé fotográfico e um puff em pele bege.
João tocou nas madeiras, como que ensaiando uma aproximação ao espaço. Tentou imaginar aquele espaço como seu e agradou-se com a ideia. Conseguia imaginar aquele canto como seu. E ficou contente por lá não ter encontrado o objecto que mais receava e que lhe bloqueara a decisão favorável: o espelho.

Quero fazê-lo. Vou fazê-lo – decidiu firmemente ali, sob o feixe de luz vindo da clarabóia.

( E pronto, mais ainda não consegui fazer. . .Falta de inspiração, desânimo, preguiça, tudo tem servido para não dar rumo a esta história...lá está, tarefa a retomar em 2008!)

3 comentários:

Ivana disse...

mais, mais.

Gostei da descrição do espaço.
E da cena da casa de banho, enquanto joão ensaiava expressões faciais...

Maria disse...

Para quando mais?? Para quando???

Madalena disse...

A minha imaginação já anda a vaguear, sobre tudo o mais que poderás e terás para escrever.

Ah ultimamente também ando a fazer expressões no espelho. Confesso que ultimamente já não aconteciam, mas voltaram. Não sei se é bom ou mau?!