quinta-feira, maio 03, 2007

Reflexão

O artigo que agora vou publicar é de um dos gatos: Ricardo Araújo Pereira.

Acredito que à boa maneira do Sr. Gato, o artigo está um pouco exagerado e claro com algum sentido de humor. Quando o li, ri e pensei um pouco, e depois esqueci. No entanto nesse mesmo dia vi uma criança num dos variadíssimos shops na nossa cidade a fazer um berreiro daqueles. Ou seja, ela estava a gritar e a fazer de conta que estava a chorar, porque de facto não existiam lágrimas. Motivo provavelmente uma pizza que a mãe levava na mão, não deveria ser o que ele queria, portanto resolveu reinvindicar afectando os ouvidos de todos aqueles que passavam por perto.

Foi aí que decidi partilhar o texto convosco, e com os que ainda não o tinham lido.

"Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo.

«Criancinhas»

A criancinha quer Playstation. A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.

A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.

A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umas tantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.

A criancinha quer camisola adidas e ténis nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.

A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso>lado no sofá e passa-lhe o comando.

A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua.

Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher.
Desperta.

É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.

A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.

A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal, e torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó e numas férias à maneira.

A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa.

Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são «uma seca».

Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc e tal. Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora.

Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».

A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».

Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha? Pois não, bem sei.

Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos ."

Aos futuros pais. Fica para reflectir!!!!!

2 comentários:

Carminho disse...

Eu gosto muito de crianças. Ponto.

Não gosto é de pais desistentes, acomodados, ausentes, negligentes, laissez-faire....

Mas pronto, adiante.

Apenas para dizer que Adorei o Facelift do Blog. Mto giro mesmo.

Maria disse...

Parece-me que a Carminho tem razão:

.... pais desistentes, acomodados, ausentes, negligentes, laissez-faire ....

As criancinhas do texto são reflexo daquele tipo de pais!!!