terça-feira, março 23, 2010

One song, one story ... Uma Aventura Todo-o-Terreno ao som de Sexy Thang de Mr White


Aqui vai mais uma historinha, desta vez mais picante ...

Os dias de chuva convidavam sempre a um passeio mais demorado na Fnac da Baixa. Lá deixava-se estar horas a fio, a absorver as novidades culturais: livros, CDs, filmes … Tudo parecia ser interessante e tudo apetecia levar para casa!
De repente, tocam-lhe no ombro. Volta-se, surpreendida:
- Olá, bem me parecia que eras tu! Estás lembrada de mim, certo?
O queixo caiu-lhe nesse momento. Pensou, num flash imediato, que tinha morrido e que estava no céu. Se se lembrava dele? Se se lembrava dele?! Como se pode esquecer de alguém que povoou a nossa mente anos a fio, mais propriamente desde os vinte e um aos vinte e seis anos? Como esquecer alguém que num mês consecutivo nos ofereceu promessas e juras de amor eterno e, de repente, sem aviso prévio (como devia ser de lei!) nos deixa de telefonar, de responder aos nossos sms’s que tudo desculpam e tudo inventam para não nos fazer crer que fomos abandonadas? Como podemos esquecer alguém que era demasiadamente lindo e culto e perfeito (ainda que hoje saibamos que esse é um conceito que apenas existe no abstracto e nunca no real), que num dia nos deu o céu e no outro nos tirou o chão? Que nos fez mergulhar no abismo, nos fez gastar rios de dinheiro em conversas ao telefone com as amigas a tentar esmiuçar cada palavra dita, escrita e até não dita mas sugerida por qualquer expressão dele? Como esquecer aquele cheiro, aquele perfume que procurava nas perfumarias como que um cão faminto que fareja junto do lixo?
Olhei-o nos olhos e, quase a hiperventilar, respondi:
- Ah, olá! Claro que me lembro de ti, há quanto tempo! Tudo bem contigo?
( Se por fora tinha a noção que estava tudo controlado, por dentro tudo em mim se embrulhava. Subitamente queria tudo: fazer xixi, popó, beber água, não, melhor ainda, um copo de vinho, por favor!! Socorro, dêem-me um estalo já, por favor!!)
Giro de morrer, com aqueles olhos semicerrados e sorriso insinuante, o bestial que passara entretanto a besta (ou já seria o contrário a esta altura da conversa?! Ai, Deus me acuda!!) devolveu:
- Sim, está tudo porreiro! Há quanto tempo mesmo! Ainda noutro dia pensei em ti, já nem sei exactamente qual foi o motivo e, olha, aqui estás tu depois de tanto tempo. Estás diferente, estás com óptimo ar.
(Óptimo ar? Ar? Estou com cara de estar com flatulência, é isso meu parvalhão?! – pensei): - Ah, sim, é possível que tenha mudado, em cinco anos é natural, não é? Tu por acaso pareces-me igual… (mente irresistível, queria eu dizer mas felizmente os ano, para além da idade, deram-me algum juízo)
- Pois, olha queres ir tomar alguma coisa ali ao bar e falamos um bocado? É que preciso de um café, ainda não tomei nada hoje!
Com aquele sorriso hipnótico, qualquer tansa (grupo no qual me insiro) iria.
Fui, quer dizer, fomos e lá tomamos um café. Ficamos a conversar sobre tudo e mais alguma coisa – faculdade, empregos, projectos, e coisas que tal …
Claro que houve memórias piegas (sobretudo vindo da minha parte) que, sem saber como, quando dava por elas, já estavam ditas, como se fosse uma cuspideira sentimentalona.
O facto é que em cinco anos tudo estava mudado excepto uma coisa: não nos tínhamos conhecido realmente. E quando sublinho o realmente, aproveito para transcrever o que ele disse:
- Sabes, eras uma miúda gira mas tímida demais para a altura. Agora estás muito mais natural, descontraída, estás uma mulher! E uma mulher muito atraente, deixa-me que te diga. Foi pena não nos termos conhecido melhor, acho que devíamos ter muita química, entendes o que quero dizer?

- Ainda vamos a tempo, se ainda quiseres tirar essa dúvida.
(Ai, boca maldita! Que diabo se apoderou de mim nesse dia fatídico, eu cá não o soube, mas ao recordar essa conversa em tudo a resvalar para o engate e cheia de jogos de sedução, tudo me leva a crer que o meu café tinha pó e não era adoçante de certeza…)

A cena seguinte passou-se entre os lençóis. Sim, fomos conhecer-nos melhor. Pensava eu que tinha a situação controlada, porque eu agora é que ia mostrar-lhe o que tinha perdido, a musa que ele tinha desperdiçado, a deusa, a … e eis que…

- Adoro essas tuas curvinhas. Essas dunas no teu rabo e coxas. Parece que estou a atravessar o Dakar, eu e o jipe todo-o-terreno. Sempre achei a celulite sexy, sabes?

(som de disco de vinil do Barry White arranhado)

Penso que devo ter morrido e ido directamente para o inferno naquele instante. Porque fiquei a ferver por dentro. Foi como se estivesse ao lume, como se fosse uma chaleira de água quente a apitar, a respingar de água! Qual água, qual quê?! A destilar raiva!! Muita raiva! Raiva em quantidades que incomensuráveis! Qual raiva?! Aquilo era ódio dentro de mim! Toda eu odiava aquele ser!
Não consegui, porém, soltar uma única palavra. Emudeci.
As horas, dias, anos (!) passados a massajar as coxas e as nádegas com Liposculptor, com Adelgaisto e Celu-aquilo! As massagens – que massagens!? – tareias que a esteticista me deu sessões seguidas pagas a ouro! As sessões de velasmooth, drenagem linfática, mesoterapia, tudo e tudo e tudo!! E, para quê?!
Se morri e chegara ao inferno, ao menos que o Demónio, o Sr. Belzebu me desse uma única explicação para tamanho vexame.
Levantei-me e arrastei aquele lençol comigo. Enrolei-me nele, peguei nas minhas roupas espalhadas pelo chão, enfiei-me na casa de banho, vesti-me em nanossegundos, atravessei o quarto e saí.

Para trás deixei sozinho na cama, um canalha frustrado que tem um fetiche com mulheres com celulite. Olhei-o, com raiva e ele, estupefacto com a minha reacção, ainda perguntou:
- Mas, que se passa? Disse alguma coisa, fiz algo de errado?! Que tens, diz-me?!

Mas uma única certeza ficou – não seria com esta mulher, quiçá uma casca de laranja ambulante, mas acima de tudo, muito MULHER e orgulhosa da sua condição, que ele se iria satisfazer.
- Tens a pi__ pequena. – respondi-lhe, munida da dignidade que ainda me restava – E fina também. Lamento, mas não senti absolutamente nada. Boa sorte para ti ...

Bati com a porta e saí.
Enquanto andava e abanava orgulhosamente o meu rabo celulítico pela rua, reflecti no que realmente acabara de se passar.
Nem precisei de mentir. Afinal, ele era só fogo de vista. Muitos hão-de ainda chorar e penar e implorar pela travessia deste deserto!

(aviso: qualquer semelhança com a vida real é pura ficção)


2 comentários:

Ivana disse...

mulher... viva a celulite!
(muito bom, muito bom...)

Maria disse...

ExcelentE!!!!!!

:))))