quarta-feira, março 17, 2010

Central eléctrica ambulante


Há dias assim como o de hoje, em que tudo o que habitualmente me faz cócegas, parece-me de repente tomar a proporção devastadora de uma Catterpiller. Ela persegue-me com a sua força destruidora, querendo fazer de mim o seu tapetezinho, fininho, fininho...
Antes que me passe a ferro, vim cá desopilar ou, como diz o outro ser irritantezinho do anuncio ''deitar cá pra fora!'' .

Então é assim: temos cá uma senhora já na casa dos ''enta'' e muitos que, à parte o seu trabalho ligado às contas e números, tem actividades extra-laborais das quais adora pôr-me a par durante as pausas (dela, claro) da manhã.
Gosto dela, é extremamente simpática e não me importo nada de a ouvir. Contudo, porém, todavia, hoje foi a gota de água! Passo a explicar: para esta senhora, os males da vida terrena curam-se à custa de coisas esotéricas ... tudo, mas TUDO MESMO, se resolve com as mezinhas dela e das suas amigas, pseudo-qualquer coisa com o título de Doutora lá pelo meio ...

E eu ouço, ouço, ouço pacientemente (!) esta senhora a contar-me que anda deprimida, à beira de um esgotamento (já estive mesmo á beirinha de lhe explicar que esse termo é aplicável às questões de saneamento urbano e não às de saúde mental, mas não quis estragar-lhe o ''barato'') e que se não tivesse sido um telefonema para a Drª X, que lhe disse que uma das suas amigas lhe roubava as energias e que por isso é que estava assim e que tinha que, imediatamente, comprar a pedra Y e usá-la sempre dentro do soutien (??? junto às marufas é que dá resultado???!!) provavelmente nem força tinha para vir trabalhar....
E eu tento dizer-lhe que não deve tomar Xanax dia sim, dia não, que não se deve auto-medicar e que deve ir ao médico mas ela diz-me que sente mesmo é que precisa de ir limpar a aura...
E eu reviro os olhos e tento fazê-la ver que fazer coisas de que gosta (ela gosta de pintar e fá-lo bem) pode também dar-lhe momentos de prazer, e tento fazê-la rir com os meus disparates (e por vezes até consigo :)) e desafio-a a comer dos meus chocolatinhos negros que tenho sempre na minha gaveta no trabalho mas ela agora até isso recusa, porque a tal ''Dra'' lhe disse que o chocolate ''suja''.
Como assim ''suja''? - perguntei eu (quase receando a resposta que vinha por aí).
Sim - diz-me ela - o chocolate suja a nossa energia, não a deixa purificar-se.
Ó meus amiguinhos, pelas alminhas!! Tentei explicar-lhe que o chocolate é um excelente regulador de humor e que um quadradinho de chocolate podia sujar-lhe, no máximo dos máximos, os dedinhos ou a roupinha!!

Todas as manhãs ela desce as escadas e faz um cházinho - verde, claro - que ''limpa'' a aura, ou que quer que isso seja.
Quer um cafézinho, eu tenho cápsulas? - pergunto-lhe, enquanto tiro o meu ''Roma'' cheiroso da Nespresso e a vejo salivar perante o aroma do café.
Obrigada, mas não posso tomar café que fico toda a tremer - diz-me ela.
Eu tenho descafeinado, quer? - insisto no erro.
Não, obrigada, mas também não posso, disseram-me que faz mal o descafeínado.
Mal a quê? - perguntei, já impaciente e farta daquelas ideias estapafurdias - Que mal pode ter num dia um inocente descafeínado?
Ah, sabe que o descafeínado é sujeito a tratamentos ...
Foi aí que desliguei e não ouvia o resto da explicação ''científica'' acerca dos malefícios do descafeínado...

Bom, e que dizer do tarôt?! Esta senhora ''põe'' as Cartas do Tarot a pessoas que lhe pagam para isso?! A ''ciência'' do tarôt - como ela lhe chama - revela aquilo que o universo nos quer revelar, naquele momento - esclareceu-me ela noutro dia. Tal pôs-me a cogitar que, se o Universo decidir fazer blackout no dia específico em que eu pago 50 mocas para me dizerem se sempre vou ganhar o Euromilhões ou não, estou tramada porque fico sem as 50 mocas e levo as mãozinhas a abanar para casa.

Desafiadora, um dia disse-lhe: se consegue ler para os outros, porque não pode pôr as cartas do Tarôt para si e encontrar essas respostas que tanto procura?
Ah e tal não dá porque isto e mal aquilo e mais aqueloutro...
Traduzido em miudos é, à boa maneira americana, bullshit. Caquinha de treta, é o que é.
E lá anda ela metida em cursos ao fim-de-semana de aperfeiçoamento de tarôt, de mesa radiónica (um tabuleiro energético), de reiki e de feng-shui!! Pagos, claro, bem pagos!!
Apetece-me só dizer-lhe: Minha senhora, pegue nesse dinheirinho e faça férias cá dentro! Vá a museus, a Jardins, pinte, dance as suas danças de salão que tanto adora mas das quais desistiu porque o dinheiro nã chega para tudo (mas para os cursitos da treta tem que chegar!!).

E hoje, depois de ontem lhe ter dito que tenho uma simples parede da sala com cores azul-turquesa e verde-alface, ela hoje traz-me o seu Manual do Curso que fez de Feng-Shui (que traz na capa uma bússola e tudo para, segundo ela, fazer as ''medições dos espaços'' ...) e começa a mostrar-me que não é bom ter posto o verde na sala porque traz ''energia'' em excesso e que o azul forte inibe o apetite e que eles até recomendam que os obesos pintem a sala de azul forte porque ficam com menos apetite (isso até eu também ficava! Bolas! Uma sala pintada quase de preto põe qualquer um sem vontade de viver, de comer!!).
E como eu hoje não estou propriamente ''católica'', fico passada com aquilo tudo e digo-lhe que estou-me nas tintas para aquilo e que o que interessa é que as cores da minha sala me agradam completamente. E ela diz-me que aquela ciência ajuda muito as pessoas a sentirem-me mais energizadas nos seus espaços de vida. E eu respondo, ironicamente, que aquela 'ciência' é relativa. E ela contra-argumenta a dizer que é uma ciência milenar e que os chineses são fantásticos.
E é aí que ela me cala. Eles são fantásticos sim, penso eu, a recordar-me do fantástico chop-soy de gambas que jantei no sábado que passou. Calo-me porque a respeito e se ela quer acreditar naquela teoria toda, então que acredite.

Se para ela todos nós somos fontes de energia, que atrai e que repele energia, se isso para ela a conforta de algum modo, lhe sossega as inquietações e toda a ânsia e dúvidas que traz dentro de sil, então que seja.
Ainda que eu pense que para ela e para os seus ''Mestres'' somos não seres humanos mas antes centrais eléctricas ambulantes, isso não interessa nada.
Se a racionalidade não a deixa dormir e o esoterismo a apazigua, então que assim seja.
Que não seja eu a cortar-lhe o ''power''.

1 comentário:

Maria disse...

Não sei como aturas isso tudo!!!! É que tudo jutno é dosa!! Haja paciência!!