segunda-feira, novembro 16, 2009

Amor e Relações

Nos últimos meses dei por mim a falar com diferentes pessoas sobre o Amor, os relacionamentos, e como eles eram e deveriam ser. Muitas opiniões, diferentes entre si, muitas gargalhadas, muitos olhares, algumas partilhas…foram surgindo. No entanto senti que não consegui exprimir realmente aquilo em que quero acreditar. Fica aqui um texto, que posso dizer “veio mesmo a calhar” para a temática.

“Os Amantes

Estavam juntos há muitos anos. Tantos, que, apesar das anteriores mulheres dele, ninguém aceitava que esta não fosse senão a única. Eu gosto quando o amor nos dá identidade mesmo que roube a nossa. O amor é tão bom e chega sedento, tão faminto, que se continua em nós rouba-nos tudo. Mas quando nos deixamos roubar é porque acreditamos. E felizes dos que acreditam…
Ele era um homem daqueles metidos para dentro: moderno por fora, mas tradicional ao mesmo tempo. Eu tenho muitos amigos assim. Há coisas que eles não conseguem mudar. E agora também não se luta contra os hábitos da idade.
Ela apareceu e rondou-o muitos dias, meses até. Era uma mulher especialmente bonita. Olhos azuis, pele muito clara e cabelo dourado. Quando eles se apaixonaram há muito tempo, ainda não havia aquela parva ideia de as loiras serem burras. Esta coisa de se subestimar as loiras irrita-me: é uma forma de as castigar só porque as falsas se permitem à frivolidade e as verdadeiras têm de ser penalizadas por serem bonitas sem artifícios.
Quando caíram nos braços um do outro nunca mais se largaram. E olhem que ela não se vestia como ele, nem ele como ela. No entanto, ouviam a mesma canção e tudo neles, como a água no rio, corria num só sentido.
Assim ficaram anos, décadas. A vida ligada por um fio e eles em cada uma das pontas. Às vezes, os que estão de fora até temem por um amor assim, com medo que um dos lados quebre e o outro nunca mais se equilibre. Mas as pessoas não podem, não devem, dizer dos receios que crescem nelas, ou isso estragaria a vida e a paixão.
Os dois cresceram com o amor que os unia. Não os tendo acompanhado, julgo que ele, o homem áspero, foi amaciando o coração com o mel que ela lhe trazia, e ela, mesmo vendo às vezes a aspereza nele, sorria, porque quem tem mel não tem quer doce (ou o amor tornava-se numa grande dor de barriga). Que o amor seja só uma grande dor no peito.
Ela ensinou-o a gostar de coisas que antes – a ele – lhe pareciam ridículas. E primeiro ele rejeitou-as até se permitir encaixá-las na sua vida. Eu gosto disso no amor: quando cedemos. Quando nos vergamos para aceitar o inaceitável. É normalmente nessas alturas que descobrimos grandes paixões. É nessas alturas que nos ouvem dizer:«Nunca pensei gostar tanto disto»… O amor traz-nos essa flexibilidade. Os que nunca se vergam acabam duramente sozinhos.
Ele também a ensinou a gostar de coisas diferentes das do mundo dela: não nós de pesca ou truques de sueca mas coisas dos discos e dos livros. Foi só ele estender-lhe a primeira pista e, não muito tempo depois, já ela o estava a ultrapassar com a sua aprendizagem. Quando as pessoas se amam muito é porque têm orgulho uma na outra, senão misturava-se a compaixão e a compaixão não é motor que faça o amor andar. Quando há esse amor grande, as pessoas insistem em surpreender-se. Ela passou a levar-lhe livros, e ele conquistava-a com mais uma música, mais uma voz que ela deixava chegar ao coração.
Tiveram filhos, cães, férias de sol, viagens, e trabalharam muito para poder ter dinheiro. O dinheiro é importante para que o amor não se torne uma coisa coitadinha. E sobretudo para prescindir dele e escolher a paixão.
Mesmo no trabalho eles arranjaram maneira de se cruzar, de se misturar, de nos confundir com as suas identidades. Ambos movidos por uma força qualquer que não se percebia se era a que resultava dos dois, ou se cada um deles era assim generoso e destemido na partilha.
Foi tudo rápido e inesperado: ele morreu há dias. E a ouvi-la a recordá-lo foi como se ele nunca tivesse sido áspero ou arredio. É sobre o Amor que se tem de escrever, porque do menos nobre estão os jornais cheios.
(…)”.

In Notícias de Sábado, O sexo e a Cidália, 7 de Novembro de 2009

4 comentários:

Ivana disse...

O amor é arriscar. Mesmo quando perdes podes ganhar o mundo.

E mesmo quando ela não se veste como ele, nem ele como ela, a música que os une pode ser próxima da perfeição.

E gosto do amor. Faz-me sorrir para o mundo.

Li disse...

'E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!'

Amen

Maria disse...

Gosto especialmente desta parte:

É nessas alturas que nos ouvem dizer:«Nunca pensei gostar tanto disto»… O amor traz-nos essa flexibilidade. Os que nunca se vergam acabam duramente sozinhos.

Li disse...

Revisito este texto ... O Amor é, para mim, a aceitação do outro tal qual é.