quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O futuro, efabulação cultural?

Durante a colonização do Quénia, os ingleses aprenderam uma rude lição quanto à existência do futuro. Instituíram um modelo para-policial idêntico ao existente em todos os territórios do império, com todos os serviços inerentes: polícia, prisões, regulamento e posturas, código penal… Mas quando prendiam em regime de prisão preventiva, ou por livre arbítrio – o modelo mais típico dos regimes coloniais – os guerreiros masai, estes morriam sempre ao fim de 24 horas. Fizeram-se investigações, inquéritos, mas nada apontava para doença súbita, ou homicídio. O que se passava então?
Um célebre antropólogo forneceu a explicação clara e definitiva: na cultura dos guerreiros masai não existia a ideia de futuro; nem sequer a palavra futuro – ou outra equivalente – existia no seu vocabulário. Portanto, ao serem presos mesmo que por três dias, para eles isso era a eternidade, e assim morriam de tristeza e de desgosto. Não imaginavam a prisão como o destino final.
Segundo o mesmo antropólogo, a cultura masai – uma das mais ricas culturas orais do mundo, naquele tempo – era uma cultura do presente e do passado, ou seja, era uma cultura do ontem e do hoje, uma cultura de continuidade permanente e, por ser do ontem e do hoje, uma cultura da certeza, dos factos. Ao contrário de muitas outras culturas africanas, europeias e americanas, já completamente absorvidas pelas ideias religiosas cristãs – católicos, protestantes, luteranos, calvinistas –, a cultura masai não se preocupava com o destino, o futuro, o desconhecido. Era, portanto, naquele tempo – não sei bem o que se passa hoje, mas provavelmente as coisas mudaram muito –, uma cultura do concreto, do real.
Os masai, porque não estavam preocupados com a ideia de eternidade, de futuro, eram um povo feliz, onde o mundo era o agora e o seu antecedente imediato, o ontem. Esta ideia da não-existência cultural do futuro entre os masai sempre me apaixonou. Seja porque custa imaginar uma realidade sem futuro – afinal, uma efabulação, pois não sabemos se vai existir ou não –, seja porque quem não tem o futuro como horizonte deve viver o presente de uma forma completamente diferente. Faz hoje o que pode e sabe fazer hoje, usufrui do momento plenamente pois não sabe se haverá melhor – só pode saber se foi melhor do que ontem –, reconduz a ideia de vida plena a cada momento da existência e não procura uma existência que se estende para além do cair da noite.
Não me admira nada que os masai fossem – sejam – felizes assim. Confesso até que gostava muito de ter vivido uma experiência de vida onde a preocupação com o futuro não existisse.
No fundo, o que a cultura masai aprendeu foi uma noção de tempo cosmológica e visível, ou seja, sem oportunidade nem possibilidade de medir a continuidade do tempo; acreditavam no visível como sendo a única realidade indesmentível.
Provavelmente, muitos outros fenómenos associados a essa noção de tempo centrada no presente também eram vividos de forma para nós impensável, nomeadamente as questões geracionais. Mas não conheço em detalhe essas situações, limito-me a imaginar.
***
Tentemos fazer uma extrapolação desse aspecto da cultura masai para a nossa cultura actual. Já imaginaram o que seria alguém extrair do nosso dia-a-dia a ideia de futuro? Além do desemprego que de imediato surgiria nas classes dos astrólogos, dos futurólogos e quejandos, dos comentadores políticos e dos arautos do «não-fazer-nada-hoje-porque-pode-ser-que-amanhã-alguém-faça», o que seria de nós?
Sem preocupações com o dia de amanhã, com a reforma, com a carreira, com a ida para o céu ou para os infernos – sim, no plural, porque não deve haver só um, tantas são as dimensões da maldade –, o que seria de nós?
Fundamentalmente, teríamos que viver o presente de forma mais intensa, mais real, com uma entrega total, pois nada existiria para além disso. Teríamos que morrer para os sonhos e para as ambições e viver para a realização concreta, em cada minuto, a cada hora de um tempo visível.
E, se calhar, tal como os masai daquele tempo, seríamos felizes; porventura até mais felizes, pois o futuroacaba por ser uma efabulação pessoal e colectiva que resulta de um sistema de crenças e de valores específico, construído sobre quimeras diversas. E muitas dessas quimeras – a redenção, a salvação… – só são alcançáveis se olharmos para cada momento sem os olhares do futuro. Se não tivéssemos o futuro a perturbar a nossa alma e a nossa consciência, também poderíamos ser felizes. Como os masai já foram. E como, se calhar, viremos a ser qualquer dia.
E eu, mesmo sem querer, a dar-lhe com o futuro…

(o texto, muito bom por certo, é de Luís Bento, consultor de gestão)

1 comentário:

Maria disse...

olha, aí está uma bela ideia: nao andar sempre a pensar no dia de amanhã! nos problemas de amanhã!! só é pena que mais uma vez seja mais facil falar que agir de acordo com isso!!
podemos ir tentando pelo menos....