sexta-feira, julho 02, 2010

Confissões de uma fala-barato

Dizem que a entrada nos trinta assinala o auge feminino. Estou a escassos meses de completar essa idade - que é para mim mais bizarra e estranha do que os costumes dos habitantes da Patagónia - e posso jurar que sinto tudo menos que caminho para o pódio.
Conversando um dia destes com mais duas amigas sobre celulites e coisas afins, cheguei à conclusão de que se me fosse concedido um derradeiro desejo ao génio da lâmpada todo o meu agradecimento recaíria na benção deste me voltar a conceder o meu cabelo de adolescente, com zero brancas pelo meio. Na verdade, de todos os males da idade, as brancas vieram desestabilizar a minha vida de tal maneira que grande parte da minha vida gira em torno de contagens decrescentes até à próxima coloração. Se, por um lado, o ritual do tingimento dos fios capilares é para mim como que uma tortura, por outro lado, o resultado é uma bênção. É como se passasse dos cinquenta novamente para os vinte (vinte e seis, vá).
O pior é que desde os últimos tempos que a coisa se tem vindo a agravar. O milagre das tintas parece estar a desistir de mim, porque ultimamente saio do cabeleireiro já com duas ou três brancas a brilharem no alto da minha cabeça, orgulhosas do facto de terem adquirido uma misteriosa imunidade face ao poderoso químico que parece tingir tudo (orelhas, testa, toalha (!)) menos o que deveria.
Mas isto não é tudo. A agravar a situação, o meu cabelo, outrora farto, ameaça tornar-se numa fina película a cobrir-me a nuca. Cai de tal forma frequente e descontrolada que, por onde passo, pareço deixar um rasto de cabelos atrás de mim. Mais uma vez, recorrendo à ciência capilar, tenho feito uso e abuso de todas as mezinhas que apanho pela frente, desde pozinhos multi-vitamínicos solúveis até às típicas ampolas que me dão cabo da paciência porque demoram demasiado tempo a aplicar e, sobretudo, porque obedecem a rotinas, um sacrifício e convite irresistível à desistência.
Sempre detestei rotinas e desde que casei que tentei impedir que estas se instituíssem nas nossas vidas. Não existe dia fixo para visitar os parentes, para estar com os amigos, ir ao cinema e muito menos (!) para actividades do casal … Como a rotina dos cinco dias úteis de trabalho tem um peso esmagador na minha vida penso que no facto de não existir rotinas na minha vida pessoal encontrei uma bóia de salvação da insanidade total. Pelo menos assim o quero acreditar.
Estava a falar do meu cabelo e comecei a perder o rumo da conversa. Isso em mim é tão habitual que algumas pessoas já me disseram que sou muito faladora ou uma ‘’fala barato’’. Nunca cheguei a perceber as exactas percentagens de crítica e de elogio subjacentes nessa apreciação, mas a verdade é que cada vez mais me estou nas tintas para o que os outros pensam sobre mim.
Até porque, se há uma coisa de útil em envelhecer, é a dita sabedoria. A minha, apesar de embrionária, diz-me que serei mais feliz se deixar de considerar as opiniões sobre minha pessoa que são proferidas por pessoas pelas quais não tenho profunda admiração e que me despertam vontade súbita de tirar a sesta. E a verdade é que até me tenho dado razoavelmente bem seguindo esta teoria.
No fundo, o que de bom têm as nossas crenças é que são como os leggings, um dia estão na moda, no outro estão fora dela. E é por isso que acredito cada vez mais que as pessoas mais felizes tendem a mudar de opinião mais vezes e a ter cada vez menos certezas na vida. Porque ao ritmo de mudança que hoje experienciamos tudo é posto em perspectiva de forma tão veloz que se não somos flexíveis e preferimos ver a coisa apenas ‘’à nossa maneira’’ quando dermos por ela, estamos sozinhos e infelizes.
Nada disto faz sentido se pensado no abstracto. Um exemplo em concreto: a questão da despenalização do aborto. Se há uns anos tinha uma opinião, hoje tenho outra que é o oposto. O que aconteceu dentro de mim? Aprendizagem. Já é positivo, significa que pelo menos o meu sedentarismo crónico ainda não atingiu o meu cérebro.
Ora, voltando ao cabelo parece passar-se o oposto. Parece que quanto mais tempo passo a cuidar dele, menos conhecedora dele me torno, porque por um lado, e apesar de todos os meus esforços e serúns milagrosos, as pontas continuam a espigar e, por outro, quanto mais prancha alisadora lhe ponho em cima, mais o estafermo teima em encaracolar.
Desistir seria admitir um fracasso e penso que ainda sou demasiadamente jovem para assumir tal peso nas costas. Até porque, uma vez que se fala nelas, diga-se que a entrada nos trinta não estão a correr nada bem nesse campo. No espaço de dois anos, um médico comunicou-me que tinha um ombro mais acima do que o outro (o que é aborrecido para usar tops), ameaçou-me com uma hérnia discal que posteriormente foi desconfirmada mas que me obrigou a passar pela experiência claustrofobia e ensurdecedora de uma ressonância magnética e pelo trauma de picadas e choques de agulhas da electromiografia ao braço esquerdo. Como se não bastasse sentir-me como um fruto que apodrece, eis senão quando um personal trainer me encosta literalmente a uma parede, olha para a minha curvatura lombar e prenuncia o meu fim: ‘’Você com essa lordose (i.e. curvatura pronunciada no final das costas, na zona do cóccix) e da maneira como tem essas costas ao terceiro mês de gravidez vai para casa e fica de cama até ao final’’. Não satisfeito ainda adicionou mais pesticida à fruta já de si podre e rematou: ‘’E que dizer dessas clavículas assim sem massa muscular e só osso? Num acidente a 50 à hora, fica paralisada na certa’’.
Há que ser muito resiliente e, como dizem os brasileiros, ouvido duro para ignorar estas sentenças apocalípticas. Mas a verdade é que não só consegui ignorá-las como direccionar toda a minha atenção e preocupação para o meu drama capilar. Afinal de contas, o cabelo embeleza sobremaneira uma mulher.
Bom, ainda acerca de génios da lâmpada e de concessão gratuita de desejos, creio ter desiludido a minha barriga da perna que não se viu contemplada com uma atençãozinha do génio omnipotente.
A verdade é que, se há capítulo virado definitivamente no meu livro de aflições femininas e que não transita para a década dos trinta, é a que contempla a temática pernas e toda uma secção dedicada à barriga da perna, gémeos incluídos. Palavras como: presunto, troncos de árvore e garrotes deixaram de ter duplo significado e de estar associadas à justificação pela qual me recusava a usar qualquer tipo de roupa (vestido, saias, calções) que não cobrisse as minhas pernas. Presunto passou apenas a ser uma iguaria saborosa em combinação com melão e os troncos de árvore passaram a ser única e exclusivamente isso mesmo: troncos de árvore. E, já agora, garrotes são apenas pedaços de madeira que evito pegar para não infligir ainda mais danos nas minhas já de si desidratadas e degeneradas vértebras lombares
A partir do momento em que ultrapassei essa barreira todo um novo mundo se abriu perante mim, ou melhor, perante os meus joelhos que passaram a ver mais vezes a luz do dia.
A parte menos boa da coisa é que me tornei viciada em vestidos. Lisos, floridos, a direito ou plissados, não interessa. Os meus olhos estigmatizados e recentemente míopes brilham com vestidos. E o facto é que tendencialmente os compro não muito justos, com a desculpa de vão ser roupas úteis no período da gravidez.
Sim, gravidez que cada vez mais se antevê como um estado de graça a curto-prazo …
Bem sei que o meu cabelo irá ficar ainda mais fraco e que as unhas e os dentes ficarão fraquinhos. A circulação irá piorar e as pernas se já antes inchavam com o calor e o cansaço, irão nessa altura duplicar de tamanho. Ainda assim, teimo em caminhar nesse sentido.
Mas como antes dos trinta anos tal não irá acontecer, resta-me discorrer sobre temas tão centrais como cabelos, vestidos, drenagem linfática e carreira. Porque graças a Deus, de Amor estou bem servida e porque a felicidade não cabe nas palavras.
E chegada ao fim da página, percebo que a subida ao pódio nos trinta anos não passa por ter uma cabeleira farta, nem tão pouco umas pernas Olívia Palito. O que mói o juizinho, o que aborrece mesmo é entrar nos trinta anos e perceber que tudo permanece aborrecidamente igual aqui neste cubículo estéril de inspiração, entusiasmo e vida em que a motivação é um pequeno punhado de notas que ao final do mês servem, pelo menos, para comprar tinta de cabelo e vestidos.

1 comentário:

Maria disse...

Olha amiga fala-barato, eu também vivo para o dia de pintar o cabelo... (isto de ter brancas é triste à brava)... e também me apaixonei por vestidos depois de anos a martirizar-me por achar que não os podia usar, porque não tinha corpo para isso!! Tempo perdido, todos temos...