terça-feira, novembro 28, 2006

Fiz uma pesquisa no google sob o título: Bacalhau com natas blog.

Este espaço é a quarta opção que surge. Acho que temos um bom lugar no ranking...

Por isso mesmo sugiro aqui, no final da página, um contador de visitas. Fiquei curiosa!

quarta-feira, novembro 22, 2006

O Zero

O Zero sentia-se vazio. Olhava para si mesmo e não gostava do que via: era aquela enorme barriga; era a incapacidade de sobressair; era a falta de um carácter vincado...
Achava mesmo que não valia nada. Já muitas vezes tentara ser esguio como o 1, elegante como o 4 ou belo como o 7, mas nem sequer conseguia a pequena proeza de esticar uma haste para se assemelhar ao 6 ou ao 9.
Era realmente uma nulidade. Mas o pior de tudo nem sequer era o aspecto, pois já se tinha habituado a isso e os outros também nunca o tinham visto de outra forma. Não, o pior nem era olhar-se ao espelho: o pior era quando olhava para dentro de si mesmo. Não valia nada, pronto! Era isso. Nunca tinha feito nada de que se pudesse realmente orgulhar; tinha as mãos vazias; nunca deixaria o nome na história ou marcas no mundo.
Não passava de um zero.
Mas, então, por que razão tinha consigo todos aqueles sonhos, aquele desejo de grandeza, a vontade de se lançar a tarefas gigantescas? Era um zero e sentia dentro de si uma enorme tendência para o infinito...
Ora, isto - pensava ele - não tinha lógica nenhuma. Era até contraditório. E filosofava: Via-se logo que os números tinham sido uma invenção dos homens. Por isso não batiam certo. Se tivessem sido obra de Deus, tudo teria sido diferente. Sendo assim, paciência...
Mas o Zero estava de longe de se resignar com a situação. Alguma coisa lá por dentro se recusava a aceitar pacificamente estas filosofias, ainda que elas servissem perfeitamente como justificação para a sua nulidade e para a vida preguiçosa que levava.
E, no fim de contas, talvez os algarismos não fossem uma invenção dos homens.
Muitas vezes dizia para si mesmo que não podia fugir à sua natureza, à incapacidade com que nascera. Sentindo-se incapaz do esforço de alcançar o infinito, que chamava por ele, repetia cinquenta vezes por dia que o infinito não existia. Para se convencer a si próprio. Para se poder entregar tranquilamente à doçura de uma vida sem montanhas para subir.
No entanto, aquela doçura acabava por o maçar. Tornava-se amarga: não na boca, mas num lugar qualquer que ele não sabia identificar com exactidão. Ora, aquilo doía-lhe. Era como se tomasse veneno.
O Zero sabia a solução, a resposta, a verdade, mas fugia de pensar nisso. Também lhe doía... O Zero sabia que o verdadeiro problema não era a preguiça nem a falta de capacidade. A questão importante era o orgulho.
Sucedia que o orgulho o levava a procurar sempre o primeiro lugar quando se juntava aos outros algarismos para fazerem alguma coisa em conjunto. Conseguia esse lugar porque era o mais forte de todos, mas os outros algarismos não achavam aquilo bem. E quando isso sucedia formava-se uma barreira, uma vírgula, entre ele e os outros. E, assim, com o Zero no primeiro lugar e a vírgula logo a seguir, aquilo que faziam não valia quase nada.
O Zero pressentia que, se aceitasse um dos últimos lugares, tudo seria diferente. Talvez então pudessem, em conjunto, aproximar-se do infinito e até tocar-lhe. Talvez assim se abrissem as portas a todos os sonhos que desde sempre trouxera consigo. Mas teria - assim pensava - de se curvar perante os outros, e baixar a cabeça era para ele uma impossibilidade...
Não vou acabar de contar a história do Zero. Não vou dizer como chegou a entender que para um zero o melhor lugar é o último. Nem como acabou por pedir desculpa aos outros. Nem como conseguiu depois - não sempre, mas muitas vezes - a glória de baixar a cabeça e se colocar no último posto.
É que estas transformações são sempre muito íntimas e dolorosas. Sou amigo do Zero - conheço-o muito bem - e não está certo que revele em público a sua intimidade.

Texto de Paulo Geraldo

terça-feira, novembro 21, 2006

felling cosy.....

Maria

Caro Luís,

A Maria desapareceu. Há duas semanas que não recebo um telefonema dela nem sequer uma mensagem. Tinha razão meu amigo.

Ela vai sair da tua vida com a mesma rapidez com que entrou. E tu não estás a fazer nada para não sofrer com isso Afonso!

Não quis saber das suas palavras naquele dia. Disse que não compreendia porque dizia isso. A Maria era absolutamente adorável.

A Maria é fatal Afonso. Ela vai sugar o que tu tens de melhor e quando acabar serás um trapo.

Saí do café sem querer ouvir mais. Penso que percebeu como o evitei nas semanas seguintes no golfe, no clube e nos jantares semanais da Carminho. Não conseguia deixar de pensar que me invejava a sorte de ter encontrado alguém como a Maria. Cheguei a imaginar que desejava Maria e que aquele seu discurso era para me fazer afastar dela. Agora, quando já é tarde demais, percebo que via o que os meus olhos cegos de paixão não distinguiam.

A Maria sempre foi muito misteriosa: nunca me deixou ir a casa dela, nem tão pouco um número de telefone fixo me deu - apenas falávamos por telemóvel. Ela dizia que não tinha telefone em casa e ficávamos sempre no meu apartamento: Porque tem uma vista tão linda para o mar, Afonso. Prefiro acordar e poder vê-lo. Para mim só importava acordar ao lado dela. Senti-la deitada ao meu lado, depois de uma noite misto de loucura, paixão e serenidade. Sim, eu sentia serenidade ao vê-la dormir (ela adormecia sempre primeiro e acordava sempre depois – como gentileza das minhas insónias via-a dormir).
Será possível confundir serenidade com frieza? A calma que ela transmitia era uma gélida indiferença perante quase tudo. Sim, agora percebo.

A Maria é fatal Afonso.

Sim, como o compreendo agora.
Mas como podia eu resistir à minha luz, ao meu norte, ao meu caminho? Acho que não mais encontrarei nada disso, Luís, meu caro. Só queria tê-la de volta. Não me importaria do preço a pagar. Toda a minha riqueza? Seria de quem me trouxesse Maria. As empresas, o apartamento com vista para o mar, a casa de campo, os cartões de crédito e os plafonds, e até as jóias de família. Renunciaria a tudo para ter Maria de novo nos meus braços.
Sinto-me perdido, amigo. Sei que estou.
Há dias o telefone tocava sem parar. Acho que continua a tocar, mas já não o ouço.

A minha irmã Rita passou cá.

Afonso tu tens responsabilidades. Esquece essa mulher maldita e volta à tua vida.

Mandei-a sair porta fora, mas não sem antes estalar o verniz entre nós, como o amigo costuma dizer em tom de brincadeira.

Quem és tu para me falar de responsabilidades? O pai sempre te deu tudo. E quem é que gere as empresas das quais recebes confortáveis dividendos todos os anos? Eu e o teu marido corno?
Oh Rita, não faças essa cara de senhora respeitável insultada na sua integridade. Toda a gente sabe que tens amantes!

Tu estás a abusar, Afonso. Eu vim aqui oferecer a minha ajuda. Não ser insultada. E tudo isto por causa dessa mulher vulgar!

Sai Rita. Ao menos eu assumo. Algo que tu nunca fizeste.

Já não ouvi a resposta. Expulsei-a daqui para fora. Fiz o mesmo com todos os outros que cá vieram. Não foram assim tantos.
Olho o mar, e penso nela. Ela era fatal, Luís. Mas entende que era precisamente isso que eu amava nela?

Rebelde e indomável foi a aproximação dela:

Desculpe mas o seu tabaco está a incomodar-me!
Minha senhora peço desculpa, mas estou na área do clube reservada a fumadores.
Sim, de facto. Mas esta é a melhor vista que se tem para os jardins. E não pretendo desfrutar dela com o seu tabaco a incomodar.


Foi impossível não me apaixonar por aquela morena de olhos esverdeados, lábios vermelhos (sim, já sei o cliché do pecado) e nariz empertigado. Lembro-me das pernas cruzadas dentro da saia preta, justa, até ao joelho. Deliciosamente tentadoras. O tempo todo que falei com ela só pensava naquelas pernas enroladas à volta do meu corpo. Horas mais tarde ela adivinharia esse meu desejo.

Maria onde estás? Para onde foste mostrar teus encantos? Sei que não voltas e que nunca mais te verei. Sei-o porque quando encontramos a minha última ex-namorada num dos jantares da Carminho tu disseste com desdém:

Não permito que ex’s fiquem na minha vida a puxar-me para o passado.

Mas a Ana não me puxa para o passado. Simplesmente fez parte da minha vida.


Afonso meu querido eu adoro-o, como sabe. Mas fique a saber que quando tudo terminar não mais me verá.

Gelei, mas a interrupção da Carminho não permitiu continuar. Nem Maria me deixou retomar aquele assunto mais tarde.

Luís, sabe porque não o ouvi?
Porque quando amamos, mais nada interessa que não o objecto da nossa obsessão. Sim, é isso meu caro estou obcecado por aquela mulher. O cheiro dela não sai da minha casa, da minha cama, da minha roupa nem tão pouco do meu corpo. Como é possível se a toquei pela última vez há duas semanas?

Sabe meu caro amigo, já nada interessa. Nem sequer me interessa saber que isto há-de passar.
Porque ninguém morre de amores! – Já dizia a minha saudosa mãe Dona Isabel.

Mas sabe meu amigo acho que me vou permitir ter uma excentricidade agora no final. Sempre tive tudo o que queria e sem pedir. Aliás, sem me esforçar, sequer. Agora apenas queria Maria. Não quero continuar sem ela. Não, nem que me diga que daqui a vinte anos estarei feliz com uma família. Esqueça... Prefiro acabar com essa lamentável imagem desde já antes que ela se comece a idealizar. Nestas últimas duas semanas apenas fui a um sítio: a casa de meu pai e directamente à estante da sala. Sim, meu caro é lá que meu pai tem a odiosa colecção de armas. Parece que finalmente lhe encontrei utilidade.
Curioso, como sabe aquele pedaço de sala sempre me fascinou. Seria o destino? Certamente que sim.

Caro Luís resta-me pedir-lhe perdão por toda a minha indelicadeza. O Luís sempre foi um amigo impecável. Desejo que tenha a vida que deseja. Peço-lhe perdão por ser o destinatário intencional desta última carta. Mas sabe, acho que ao longo da minha vida só você mesmo se importou comigo. O meu agradecimento!

Desculpe se tenho de me apressar, parece-me que já vejo Maria e que escuto a voz dela que me chama. Sabe, não resisto ao sussurrar dela!

Afonso, Afonso

Sim, ouço-a cada vez mais perto
Meu amigo afinal ela está por aí...
Até breve...

segunda-feira, novembro 20, 2006

Vogue

Uma paixão, uma mania, um consumo.
Vogue é o nome da revista. A revista que com apenas 13 anos já pedia à minha mãe para me comprar. Uns compravam a Bravo, outros a Super Pop e outras revistas ...
Eu comprava a Vogue. Nem todos os meses a comprava, porque a edição era ainda estrangeira e cada Vogue era caríssima! Ainda lá as tenho lá por casa, guardo-as como relíquias.
Quando começou a edição portuguesa, iniciei a colecção. Todos os meses, mais uma revista para a prateleira, devorada todinha por mim!!
E o que tem esta revista de especial? Para os outros se calhar nada, para mim muita coisa. Lá encontra-se de tudo: artigos de moda, artigos sobre coisas que não têm nada que ver com o mundo da moda, mas interessantes: arquitectura, design, agenda cultural, etc. Tem sobretudo, uma forte componente estética. Toda a revista é cuidadosamente pensada a nível gráfico, desde a Capa até à última página. É certo que quase 30% da revista é feita de páginas de publicidade, mas até dessas gosto. Em muitas encontro fotografias fantásticas, de pessoas, objectos ou paisagens. Depois há, claro, as roupas.
Gosto de roupa. Assumidamente. Gosto de peças bonitas, gosto de vestidos, gosto de écharpes, de trench-coats...de malas e de acessórios enfim! De uma infinitude de coisas que compõem as peças de vestuário da mulher. Gosto de ver aquela montra em forma de revista. Faz-me bem, faz-me viajar elegantemente vestida ...faz-me sorrir.
De algumas viagens que fiz trouxe comigo uma Vogue de recordação. Quando não sou eu a viajar peço para me trazerem uma. Todas elas são especiais, gosto de as rever de vez em quando. É uma mania, um gosto que tenho...
Desta vez, não pedi a revista. Mas quem me conhece bem, soube arrancar de mim um enorme sorriso. Apesar dos Kilos a mais na bagagem, ela lá veio directamente de Londres, para mim. Uma Edição especial dos 90 anos da revista. Um calhamaço que devorei satisfeita da vida este Domingo!!
Adorei a capa, por isso aqui vai ela.

Dois beijos de obrigada por se terem lembrado deste mimo. Adorei.

Sonho

E um dia ninguém mais sonhou.

Este poderia ser o início de uma nova saga ao estilo do Saggie (o nome carinhoso com o qual rebaptizei Saramago depois de anos zangada com ele).
Os sonhos são algo de imprevisível e de fantástico.
Nunca sabemos de antemão o que vamos sonhar e por vezes, o sonho ultrapassa tudo aquilo que pensamos ser os limites da nossa imaginação.
E mais, os sonhos têm a fabulosa capacidade de nos tornarem o dia miserável ou verdadeiramente excepcional, dependendo se consideramos o sonho que tivemos algo de bom ou um verdadeiro pesadelo que, só de nos lembrarmos dele, nos deixa verdadeiramente mal dispostos.
Já me aconteceu deitar-me e tentar condicionar o meu sonho, tentando pensar muito sobre algo ou alguém, na expectativa de que durante o sono, a minha imaginação teça alguma história acerca disso. Claro que isso só acontece com coisas, acontecimentos agradáveis...
Um sonho recorrente que tenho é um em que estou a voar. Não tenho asas, apenas voo. Pairo sobre o céu e acontece-me andar por aí a pairar perto dos prédios...vejo dentro deles pessoas que conheço... Terei talvez um lado voyerista mas que sonho muitas vezes isto, sonho.
Depois há aquele sonho que quando acontece é muito engraçado: sonho que estou a cair e que nesse instante, desperto e a sensação é a de que acabo de aterrar abruptamente no colchão! É uma sensação muito estranha!
Tudo isto para dizer que, pela primeira vez (pelo menos que me recorde) sonhei com este blog.
Parece completamente de sentido, e de facto, é. Mas os sonhos não têm que ter significado (pelo menos não para mim) e o blog foi o tema central deste sonho. Nele acedia ao blog e de repente via que havia uma lista enorme de novos contribuidores com nomes que, apesar de muito estranhos e diferentes, já não lembro. E havia muitos novos posts também. No sonho procurava identificar aquelas pessoas, mas não conseguia chegar até lá apenas pelos nomes...
Apenas me lembro que acedia ao blog através de um computador da minha Escola Secundária! (depois é isto: o sonho é completamente uma máquina misturadora desta e daquela vivência...)
E lá estava eu no sonho: verdadeiramente intrigada com aquelas novas pessoas...

E foi isto, nada de especial, mas fica o registo do sonho com o Bacalhau com Natas.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Golden Opportunity

João é engenheiro civil. Tem cerca de trinta anos, anda lá perto. Nasceu, cresceu, formou-se enquanto pessoa a profissional na cidade do Porto. Bem nascido, nunca pensou muito em bens materiais, porque estiveram sempre presentes. só sentimos falta de algo quando não a temos e é bem verdade.
Foi isso que sentiu quando perdeu Joana, a sua companheira de sempre, há cerca de 3 anos e meio. Da mesma idade, conheceram-se através de amigos em comum. Joana formou-se em gestão de empresas numa conceituada Universidade também ela no Porto. No último ano da licenciatura partiu em Erasmus para Espanha; instalou-se na capital madrilena e lá ficou por doze meses. Partiu com o coração nas mãos, deixava João para trás no aeroporto, entre lágrimas e abraços já cheios de saudade e de expectativa sobre o futuro, sobre a relação.
Em doze meses, a vida pode dar um looping ...um salto triplo mortal e desarranjar-nos por completo os planos, ainda que esses planos se julgassem ser de pedra e cal. Vai-se a ver e os planos não nos pertencem. Apenas os sonhos nos pertencem e pode ser que esses coincidam com os planos que a vida tem para nós. Pode ser...
Em Madrid, Joana foi infeliz. Saudosa, não se adaptou às pessoas nem ao ambiente citadino. Muito menos à língua. Invadida por pensamentos de tristeza e de algum fatalismo, foi-se afundando num fosso em que a comida parecia ser o único conforto. Comia porque se sentia triste. Comia para esquecer, comia para recordar e comia para tentar enganar o tempo que parecia estagnado. Toda ela estava estagnada. Apenas se movia para os estudos, para o que a levara lá. Afastou-se de João, porque se sentia feia, porque não mais acreditava em si, nas suas qualidades, nas suas capacidades. Ficou evasiva aos telefonemas, às visitas.
João não compreendia o que se passava e a distância ia gerando mal entendidos. O pedido de socorro de Joana chegava distorcido a João e ele julgava que Joana deixara de o amar. Ainda chegou a ir lá visitá-la mas Joana foi (ainda que a muito custo) fria, distante. Achava que João havia de se afastar dela, que o melhor era assim, que ela só lhe ia fazer mal, que lhe ia dar somente tristeza, pois toda ela era tristeza, desilusão, fraqueza.
Até que o tempo afinal ditou o regresso de Joana. As mudanças nem haviam sido muitas. Fisicamente Joana estava um pouco mudada, maus hábitos alimentares – pensaram. Interiormente vinha um caco e isso não foi dúvida para ninguém. Joana chorava compulsivamente à mesa, no quarto, na sala, na rua, no carro. Libertava o que conteve sozinha durante 12 meses. Chorava de saudades de João, chorava de remorsos porque agora apercebia-se que ao invés de o ter afastado o devia ter chamado para junto de si, que a união faz a força e que a solidão nos corrói, nos deixa fracos.
João foi-se aproximando aos poucos. Um a dois telefonemas por semana, uma visita de quinze em quinze dias, um café, depois outro café, uma visita demorada lá a casa, um jantar e a reconciliação. O abraço forte e apaixonado aconteceu. Joana recuperara finalmente a auto-estima, a vontade e a alegria de outrora.
Encarou o mercado de trabalho com garra, determinação e logo conseguiu uma oportunidade numa firma conceituada. João estava também a dar os primeiros mas sólidos passos na sua área.
Quase meio ano depois aconteceu a notícia, a boa nova invadiu de alegria os pais, os familiares, os amigos: iam casar.
A cerimónia foi lindíssima. Com mais de 300 pessoas reunidas, com um fogo de artificio que tornou a noite em dia, como um conto de fadas - um dia inesquecível.
Se ao menos um dia todos pudessem ter uma porção de felicidade como a deles, não havia tristeza que sobrevivesse num único ser humano.
E assim se inicia a vida a dois, com horas para levantar, com horas para ir trabalhar. Mas as horas sabem melhor, passam melhor. Vamos trabalhar mas não vamos sós. Regressamos a casa cheios de energia, porque é lá que nos esperam, é lá que esperamos. É lá que acontecem os abraços, que se trocam as palavras mais doces, que se dorme abraçado, que se acorda com o calor do corpo da pessoa que para nós é tudo nesta vida. É lá que se partilham as coisas que não dizemos a mais ninguém. Que sussurramos palavras. Que deitamos e enxugamos lágrimas. Que nos tornamos melhores pessoas. Porque o amor adoça-nos e devolve-nos o sentido do que é verdadeiramente importante nesta vida.

Foi lá, em casa, que surgiu a notícia: proposta de ida para Angola, para acompanhar 3 das maiores obras locais. Uma oportunidade de ouro. Um excelente pacote remuneratório, uma alavanca excepcional na carreira. Tempo: 3 anos.
Três anos. Trinta e seis meses. Mil e noventa e cinco dias. Vinte e seis mil e duzentas e oitenta horas.
Surge a dúvida. Não se consegue decidir algo que implica três anos da noite para o dia.
Iniciam os diálogos. Valerá a pena, e o meu trabalho?, e onde viveríamos?, e o nosso apartamento? vender? continuar a pagar?, e o país?, e as doenças?, e se algo corre mal?, e eu encontrar lá emprego?, e vais mesmo ganhar isso tudo?, e o custo de vida?...
Nem todas as perguntas têm resposta. Algumas destas respostas seriam meras suposições, outras ficariam por responder. Mais uma vez, estavam ao sabor do tempo, só a passagem deste ia deslizando a cortina e desvendado respostas através de acontecimentos.

Mais um salto no tempo. João está numa obra gigantesca, coordena um projecto e uma enorme equipa de trabalhadores. Anda numa azáfama diária imparável, extremamente exigente. Mas está muito entusiasmado com tudo. Gosta imenso do que faz. Sabe que quando regressar a qualidade de vida irá aumentar exponencialmente. Mesmo que isso não aconteça (o que é pouco provável) está a viver uma fase de aprendizagem profunda. A adaptação foi relativamente fácil. Não é o único português.
E Joana?
Ah, Joana está uns kilómetros mais além, está na praia com um grupo de jovens esposas que também resolveram arriscar com os seus maridos e agarrar uma oportunidade que o acaso
lhes atirou ...O resto do dia, cuida de crianças num infantário.
Estão felizes, sabem que a união faz a força, e que a força que os move é o Amor que sentem um pelo outro.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Um poema à serenidade...uma sereia serena...


UM POEMA

Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga, Diário XIII

'A pequena sereia' em Copenhaga...
"Não queira acrescentar dias à sua vida, mas vida aos seus dias."



Harry Benjamin

segunda-feira, novembro 13, 2006

Que destino?


A Marta Raquel foi para Barcelona.

A Maria, a Ju, a Little Princess e a Sãozinha foram até Londres.

E nós permanecemos cá, na mesma rotina e azáfama do dia-a-dia.

Afinal se pudessemos viajar, NESTE MOMENTO, que destino escolheríamos? com quem partiriamos? por quanto tempo?

Pois bem dei asas a minha imaginação, fechei os olhos e tentei concentrar-me no que queria. Pensei, pensei e voltei a pensar e na minha cabeça passavam imagens (só vistas em fotos de revistas ou imagens de televisão) de vários locais.

Ou seja uma verdadeira indecisão.

Voltei a pensar e repensar e comecei a iliminar alguns locais porque nesta altura apetecia-me ir para um lugar frio, viver esta época natalícia, numa outra cultura. É óbvio que pensei em Londres, mas... queria algo novo ( não ia ter piada, se depois deste discurso todo disse-se que queria ir até Londres).

Pensei nos casaquinhos quentes, que ainda não vesti, nos cachecois enrolados no pescoço e até que consegui pensra apenas num País: ITÀLIA. A cidade? talvez Florença!! Roma!! Veneza!!

Lembrei-me das imagens que tenho guardadas, no baú que é a nossa memória, dos relatos detalhados da minha mãe sempre que lá vinha, com imensos presentes, porque regressava quase sempre em vésperas do meu aniversário.

Como me consegui ver a caminhar nas ruas que não conheço, decisão tomada.

Comunico-vos então que parti para Itália, rumo inicialmente a Florença. Como decidi ficar lá até a passagem de ano, vou visitar não só Florença, mas Roma, Veneza, Milão e o que mais a minha imaginação deixar. Vou sozinha. Vou finalmente provar as verdadeiras pastas, percorrer aquelas ruas de bicicleta, tentando não cair, andar de gondola, ver o Papa...

Regresso brevemente, com imensas novidades, fotos e histórias para contar.
E vocês? Vão continuar aí?

sábado, novembro 11, 2006

To me from you......



My sweet princess lily,

Straight from London City after a lonely morning walk trough Brick Lane i sent to you 100000000 kisses.
You gave me the second smile of this morning. First one was a present of this marvellous city!
I really love you.

sexta-feira, novembro 10, 2006

A Desertora / Desert Uoman

- Olá!
(nada)
- Hello!!!
(nada, --------------)
- Cucu?? Truz-truz. Trim, trim...
(nada vezes nada, elevado ao infinito)

Hoje não apareceste no messenger. Ainda esperei até às 10h00, podia ser que estivesses atrasada ou que finalmente tivesses tido a coragem para mandar o trabalho às urtigas e decidido que esta sexta estarias em greve, solidária com a função pública.
Lá pelas 10h30 lá apareceste tu a enviar-me uma mensagem escrita:

Olá, vim a Londres passear um pouco, ver as montras e espairecer.
Desculpa não ter dito antes nada, mas só hoje de manhã é que decidi que em vez de ir no sentido da Maia, o desvio seria para Francisco Sá Carneiro com paragem final em Stanstead, UK. Bjs Mts


Hum, pensei eu, foi para Londres, a jeitosa. Aposto que ia tão esbaforida que nem sequer fez o Euromilhões. E pronto, encarei a situação de frente e resolvi sobreviver da melhor maneira.
Ainda de manhã, entrevistei um candidato a comercial. E, por incrível, que pareça até consegui encontrar uma pessoa pela frente com quem deu algum alento conversar. Geralmente encontro indivíduos que não sabem sequer muito bem como se chamam quanto mais o porquê de estarem sentados a responder às minhas perguntas. Desconfio que se pelo meio da entrevista eu perguntasse algo como: prefere boxers ou slips?, eles responderiam com a mesma lentidão e sofreguidão de uma lesma: Ah, boa pergunta. Depende...Cá estamos, tenho mesmo que vir trabalhar 8 horas dia?

Sexta feira é dia de caldo verde ao almoço. Menina, com ou sem chouriça?
Claro que é com chouriça, eu sou mulher de bom sustento! È uma barulheira infernal de pratos, copos, e zumbidos de vozes que se sobrepõem a fazer pedidos disto e daquilo!!! Cumprida a missão de me alimentar, pago e saio o mais rapidamente possível e decido ir apanhar o Sol de Outono que para minha alegria impera sobre as poucas nuvens.
Enquanto caminho penso novamente na foragida. Onde estará? A esta hora está já a ouvir pessoas em redor a falarem inglês... Hello, how do you do??
Deve estar bem melhor do que eu, penso, a passear. Olho para o relógio e penso que melhor é apressar passo e ir tomar o meu carioca de limão.
Entro num outro café já na rua onde trabalho. A rua mais inacreditável e surreal que conheço. Não entro em pormenores, mas é uma rua onde os transeuntes estão, não raras as vezes, vestidos de pijama e robe enquanto passeiam os seus pulguentos caniches de estimação que se entretêm a presentear os passeios com pequenas mas perigosas armadilhas mal-cheirosas. E mais não digo que não é preciso.
Duas da tarde e continuo molenga. Este dia é de uma dualidade incrível: ora tenho energia, ora lentifico.
Os pensamentos baralham-se: Deixa lá estás quase a ir de fim de semana! ou então, Ainda falta fazeres isto e aquilo e aturares este e aquele (e mais aquele ainda!!) para entrares de fim de semana, faltam ainda 4 horas e meia...
Acho no fundo, que é a história do diabinho e do anjinho cada um a buzinar-me ao ouvido.
Quero que ambos se calem e por isso, coloco musiquinha ambiente aqui no meu estaminé.

Ok, já vi que hoje não vais mesmo aparecer.
Até amanhã.

Bjs Mtos

quinta-feira, novembro 09, 2006



"Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem destrói o seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos is"
a um turbilhão de emoções indomáveis,
justamente as que resgatam brilho nos olhos,
sorrisos e soluços,
coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da Chuva
incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!"


Pablo Neruda



P.S. Encontrei este texto num blog perdido no tempo.
Gostei, copiei e resolvi partilhar convosco.
É nostalgico, concordo, mas digam lá que não tem muitas verdades escritas.
"They can because they think they can"


Virginia Woolf



Uma vez que estamos em marés de pensamentos, questões, desejos, mudanças, decisões, deixo-vos mais um....
Só por isso!!!!

When a man is tired of London, he is tired of life



Deixo-vos esta citação do Senhor Samuel Johnson....

Entretanto vou até essa terra de que ele fala. Vou lá num pulo... a ver se o que ele diz é verdade!

Deixo-vos uma foto que tirei o ano passado na minha primeira visita a London city. Foi tirada com a minha velhinha máquina fotográfica. Daquelas de rolo e em que só se vê a foto depois de a ir revelar à loja. Foi uma agradável surpresa quando uns meses depois de já cá estar revelei o rolo e vi este postal!

Fiquem bem meus queridos e até....

Beijos da Maria, da Ju, Little Princess e das outras.. vamos todos!

quarta-feira, novembro 08, 2006

Descontrução...


As mulheres jogam invariavelmente à defesa para forçarem o prolongamento.
No prolongamento há morte súbita.

Encontrei esta «pérola» num blog... obviamente escrito por um apreciador de futebol...

Será que é assim?

Hum...

Hey JU, performed by Beetle


Hey Ju, this one goes for You, do grande grupo Beetle!!


Hey JU, don't leves a mal
Pega láaaa esta canção.
Remember de trazer lembrancinhas,
Para nós, as amiguinhas.

Hey Ju não tenhas medo
Tu tás bem entregue à Ryan Air
The minute que levantares voo,
Then you begin a respirares ‘bettair’

And anytime you feel saudades nossas, hey Jude, refrain,
Don't carry the world upon your shoulders.
For well you know that it's a fool who plays it cool
By making his world a little colder.

Hey JU, when you estiveres in Londres
You have found her, now go and get her!
Remember to let her into your heart,
E aí podes ser uma ganda tola!!

So let it out and let it in, hey JU, begin,
Tens uma data de compras de gifts pra fazer!
E já sabes que a nossa listinha modesta, hey Jude,
É pra cumprir all by the book!!!

Hey Jude, não sejas forreta!
Pega nas libras and investe em compras.
Remember aqui das amiguinhas,
Then you'll begin to feel it
Better better better better better better, oh. ..

Na na na, na na na na, na na na, hey JU...

terça-feira, novembro 07, 2006

Bacalhau com Natas

Renuncio a Ser Adulto

Por este meio renuncio a ser adulto. Decidi aceitar a responsabilidade de ter 6 anos outra vez.

Quero ir a um MacDonalds e pensar que é um restaurante de 5 estelas;
Quero fazer navegar barquinhos de papel num tanque;
Quero fazer ondas atirando pedras à água para poder valorizar o simples outra vez;
Quero pensar que os doces e os amigos são melhores do que o dinheiro;
Quero tomar banhos muito demorados e dormir 10 horas todas as noites;
Quero abraçar os meus pais e enxaguar as minhas lágrimas nos ombros deles;
Quero regressar aos tempos em que a vida era simples, quando tudo o que sabia eram cores, tabuadas e contos de fadas, e isso não me chateava, porque não sabia o que não sabia e não me preocupava por não saber. Quando pensava que o pior que me podia acontecer era que alguém me tirasse a bola ou me escolhesse em último lugar para ser companheiro de equipa.

Quero voltar aos meus 6 anos para pensar que o mundo é justo. Que tudo e todas as pessoas são honestas e boas, que não há invejas, quero pensar que tudo é possível.

Mas em algum momento da minha juventude amadureci e aprendi demasiado. Aprendi como as pessoas não sabem querer nem amar, como nos destruímos entre nós, como a inveja nos rodeia e nos faz desejar o mal. Amadureci, contaminei-me, e aprendi sobre mentiras, sofrimentos, doenças, guerras, dor e morte. Aprendi como o dinheiro domina as nossas vidas, como já não importa o sentir, mas sim o conseguir...e cada vez mais.

Mas eu renuncio! Quero viver de forma simples novamente. Não quero que os meus dias sejam de jornadas intermináveis de trabalho, de materialismo, de notícias deprimentes, de invejas, de intrigas, de doenças e de perda de seres queridos.

Quero acreditar no poder do sorriso, do abraço, do apertar de mãos, no poder da palavra doce, da verdade, da paz, do super herói de banda desenhada e da imaginação.

Admiro a doce loucura das crianças e detesto a mentira da prudência dos adultos.

Quero voltar aos meus 6 anos. Quero deixar viver mais essa criança que todos levamos dentro, para valorizar o bom e o simples que nos rodeia e que os adultos deixaram de apreciar.


(Estas palavras vão dedicadas a todos vocês que não se esqueceram de saltar numa poça de água sem se importarem de molhar os sapatos e para todos os que não se esqueceram que com uma pastilha ou um rebuçado éramos felizes.)

segunda-feira, novembro 06, 2006

Tenham um bom (novo) dia........

Hoje foi um dia estranho – pensou a Little Princess.

Hoje as árvores eram as mesmas, tão despidas das folhas castanhas como ontem e tão belas como sempre. Os ruídos eram os sons que invadem o nosso mundo todos os dias às mesmas horas. Os rostos também eram os mesmos. As palavras repetiam-se, iguais a ontem eram as mesmas de amanhã.
Porém, hoje as árvores estavam grotescamente belas. Os ruídos agudos feriam-lhe os ouvidos. Os rostos deprimiam-na. As palavras pareciam desprovidas do tom habitual.

No silêncio do seu baloiço, a Little Princess abriu a sua maravilhosa caixa de música e deixou sair em liberdade os sons da dedicação e da paixão. Embalada pela doce melodia percebeu: hoje o percurso feito pela manhã tinha sido um pouco diferente, e isso tinha baralhado os mil sorrisos que a acompanham dia após dia.

Foi isso, perderam-se naquele mar de gente, no corre-corre matinal.

E nesse instante um sorriso especial encontrou a princesa…..

Talvez tenha vindo guiado pela melodia da caixa de música…

De repente a linda princesa percebeu que amanhã é um dia novo.
Diferente do de hoje.
E os sorrisos são fortes.
Irão encontrá-la…..